Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Paulo Mendes Campos: Experiência com LSD - I

PRIMEIROS PASSOS

No último sábado de agosto de 1962, às 14h30, eu entrava num apartamento da Rua General Glicério pela primeira vez. Diante do dr. Murilo Pereira Gomes ia submeter-me à experiência da dietilamida do ácido lisérgico. Cinco ou dez minutos depois, já tinha ingerido três bolinhas coloridas e aguardava. Por quê?
A experiência me seduzia em si mesma, mas certas informações talvez esclareçam melhor as raízes de minha curiosidade. Quando me dirigia para Laranjeiras o dia estava tão luminoso, a temperatura tão agradável, as cores tão nítidas, que pensei: hoje não é vantagem sofrer os efeitos dum psicotrópico. Reparei sobretudo na intensidade cromática duma flor que não sei se tem o nome de laburno. Na verdade brincava comigo mesmo: meu desejo de conhecer a consequência da droga era profundo ― e esse é o adjetivo preciso para o caso.
Por que profundo? Resumo com a maior economia possível uma série de fatos e circunstâncias que cobrem um período de mais de 20 anos.
Quando era adolescente e resolvi fazer-me escritor, ou achei que era escritor, comprei três cadernos: num fui copiando poemas sobre a morte; no outro anotava todos os trechos que me pareciam pertinentes ao problema do tempo; transcrevia no terceiro verso e prosa que se referissem à solidão. Tempo, solidão, morte. No way out. Em vez de sair para o mundo, mesmo que ficasse em casa, eu me fechava num quarto escuro; mesmo que saísse para a rua, estava confinado a três dimensões depressivas. Por um motivo ou por outro, eu me negava a própria vida sobre a qual tinha a pretensão de escrever. Fechando as portas da comunicação do mundo exterior (e também do interior, quase por uma consequência), fadava o meu destino de escritor a uma frustração cruel. Mas não sabia. Pior que isso, e ignorando ainda mais as conclusões de minhas três premissas, criava condições intoleráveis a meu destino de homem simplesmente.
Aos 20 anos de idade, trabalhando numa biblioteca de medicina, dei para ler tratados sobre a loucura, tóxicos estupefacientes, os únicos que eu podia entender ou que de certo modo me interessavam naquela sala. Foi assim que me caiu nas mãos e na alma o tratado dum médico francês sobre um princípio ativo do qual nunca ouvira falar: o Anhalonium Lewinii, extraído da raiz dum cacto mexicano chamado peyotl. Falei com entusiasmo a médicos e leigos sobre o livro. O desconhecimento da mescalina era total. Obrigando-me ao silêncio até há poucos anos, quando li As portas da percepção de Aldous Huxley. Dessa vez, com sensacionalismo, o mundo científico e cultural entrou em contato com a mescalina, tendo sido preciso para isso que um escritor de grande sedução intelectual experimentasse a droga e transcrevesse suas vivências.
Li com muita curiosidade o livro de Huxley há alguns anos e o reli há poucos dias, antes de realizar minha própria experiência. Os pontos que me chamaram mais a atenção nas duas leituras são sensivelmente diversos: também nós fazemos parte do texto, e este pode transformar-se à medida que nos transformamos. Atribuo esse meu deslocamento de foco sobretudo a algumas leituras sobre zen-budismo, feitas recentemente. Em resumo, diria que me sinto muito menos seguro sobre minhas percepções da realidade do que, por exemplo, há dois anos atrás.
Fisiologicamente, o ácido lisérgico, como a mescalina, inibe a produção de enzimas que regulam o suprimento de glicose nas células cerebrais. Os sintomas provocados se devem em essência a essa redução da taxa normal de que o cérebro apresenta constante necessidade.
Aldous Huxley, advertindo que a reação individual, aqui como em tudo o mais, sempre é de rara importância, faz uma súmula possível dos sintomas gerais de todas as pessoas que ingerem mescalina: redução da capacidade de lembrar e pensar diretamente; impressões visuais grandemente intensificadas, o olhar recuperando a inocência da percepção infantil; diminuição do interesse pelo espaço; o interesse pelo tempo caindo quase a zero; a experiência nos mundos interior e exterior simultânea ou sucessivamente; o registro de impressões extra-sensoriais não é comum.
Bem, eu estava na sala do apartamento do médico e aguardava com um máximo de curiosidade mas sem a menor ansiedade.
Os primeiros sintomas surgem em geral depois de uma hora, disse-me o médico. Passado esse tempo, comecei a alimentar ligeiramente duas desconfianças: quem sabe se o hábito do álcool não me criasse no organismo uma resistência muito forte à pequena dose ingerida? Quem sabe se o médico me ministrara uma pílula inócua e estivesse a realizar comigo uma simples experiência por sugestão?
Pouco depois, passei a sentir uma leve pressão no cérebro, entre o couro cabeludo e o crânio, as mãos e os pés bastante frios. Uma pessoa presente me pergunta se a música da vitrola me incomoda. Já estava a responder sinceramente que não, quando essa pessoa se sentou numa cadeira, ocultando-me uma garrafa de cerveja colocada no assoalho e da qual o sol arrancava reflexos. Notei então que estava sentindo em relação àquela garrafa um interesse desusado, um interesse aparentemente fora do comum, embora não muito intenso. Passei a olhar para um cinzeiro de metal, onde também fulgia a luz solar, e achei que o objeto me parecia mais vivo, mais presente, mais interiormente luminoso. Era divertido, mas permaneci desconfiado, pois o teor da experiência não me é estranho em outros estados psíquicos.
Estenderam-me um pequeno álbum de reproduções de quadros de Matisse. Talvez as cores me parecessem mais intensas; talvez, pensei, apenas o trabalho de impressão fosse de boa qualidade. Olhei as páginas com interesse, mas um interesse que ainda podia ser a própria curiosidade pela experiência. A sensação me parecia pobre. Não sabia que dentro de poucos minutos seria lançado numa experiência psicológica inteiramente nova.

(continua...)

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.113-116.

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