Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Paulo Mendes Campos: Experiência com LSD - II

SENTIMENTO DO TEMPO

Uma experiência singular começou a realizar-se na minha consciência: eu me desinteressava do tempo, não o apreendia como habitualmente, embora me fosse possível, através de artifícios mentais, manter uma noção aproximada de determinados espaços de tempo. Durante todo o apogeu da experiência (umas três horas, creio), essa isenção em relação ao fluir do tempo intensificou-se, sem que sentisse por isso propriamente prazer, mas indiscriminado alívio. O sentimento do tempo também diminui nas outras intoxicações conhecidas, mas havia no caso uma diferença qualitativa: no alcoolismo, depois da ligeira fase de lucidez aparente, a mente se conturba; sob a ação do ácido lisérgico, pelo contrário, minha mente se clarificava o tempo todo, só que centralizava sua atenção em objetos e percepções que antes viviam, fora ou dentro de mim, sem suscitar maiores curiosidades.
O médico cronometrava o desenrolar da experiência; a mim não seria possível indicar, mesmo aproximadamente, a gradação cronológica dos diversos estágios vividos. Quando indagaram de Aldous Huxley a respeito, respondeu ele que havia fartura de tempo, plenty of it. Essa resposta me parece corresponder perfeitamente à minha impressão de que, sob o efeito do ácido lisérgico, o tempo não está interessado em nós e portanto não podemos nós estar interessados nele. O tempo existe: é fenômeno que não nos concerne e do qual não podemos extrair nenhum elemento de angústia ou de prazer. A vida passa, e estamos biologicamente condicionados para o passar da vida; o penoso e inútil esforço de remar contra a corrente do tempo desaparecia de mim.
A conotação que me ocorreu depois da experiência foi esta: a criança vive normalmente com o tempo, sem saber medi-lo ou sofrê-lo. Ela se confunde espontaneamente com o tempo, integra-se à corrente, como se fosse fundamental à inocência infantil o profundo e repousante desinteresse pela passagem das horas e pela aproximação gradativa da decadência-e-morte. A perda da inocência, da naturalidade e conformidade com o mundo, equivale a adquirir consciência da velhice e da morte. Perdemos a inocência quando aprendemos a olhar as horas. Mais importante que tudo, o tempo do adulto é um imposto cobrado pela inteligência do mundo, um peso de que fomos libertos na infância e de que podemos nos livrar em estados excepcionais de pureza, de contemplação, de prazer, de intoxicação ou de loucura. Insisto nesse ponto porque, adiantando conclusões, o ácido lisérgico pareceu demonstrar-me que, em nossa vida cotidiana, seria-nos possível atingir a um estado maior de convivência (ou mesmo conivência) com o tempo, poupando-nos angústias excessivas e apontando-nos esclarecimentos sobre a natureza da readaptação dos neuróticos.
A diferença principal entre o ácido lisérgico e outros excitantes psíquicos ou alucinógenos, tanto quanto posso saber, é essa de apresentar uma correlação inequívoca com a experiência normal da pessoa, sugerindo, imediata e ricamente, noções praticáveis de ordem psicológica ou psiquiátrica. Controlada cientificamente, ela poderia permitir ao médico um corte rápido e profundo nas personalidades normais ou anormais.
Não sou médico, nem me dedico responsavelmente ao assunto: dou com sinceridade um depoimento leigo. Talvez os entendidos possam utilizá-lo de certo modo. Se tento tirar conclusões da experiência, em vez de relatá-la simplesmente, é porque me desagradaria fazer de outra maneira, sem utilidade visível. No entanto, pelo fato de exibir minhas analogias ou conclusões não significa que dê a elas outro valor além da possibilidade. Tenho mais de um motivo para desconfiar que as nossas faculdades perceptivas podem ser aguçadas através da concatenação cada vez mais consequente de inúmeros dados novos da filosofia e do psicossomatismo.
Certo ou errado, o primeiro contato com o ácido lisérgico me deu a impressão muito razoável de se tratar de um elemento útil à pesquisa da natureza humana, no sentido de redescobri-la para melhor. Não chego, como Aldous Huxley, a achar que a mescalina deve ser facilitada à deprimida sociedade moderna, substituindo outras formas de evasão. Dentro das limitações que eu mesmo imponho a essa ideia, não vejo bem o caráter de evasão no ácido lisérgico, mas uma concentração da realidade, o antônimo da evasão, pelo menos uma concentração de certos aspectos da realidade.
O ácido lisérgico a meu ver deveria ser um ponto de partida para uma recuperação da realidade, dos dons da percepção e acomodação à vida. Não só nos indivíduos de psiquismo anormal ou prejudicado há um terreno a ser recuperado. Também a recuperação de espaços amortecidos no indivíduo normal é socialmente relevante e imprevisível como energia psíquica.

(continua...)  

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.116-119. 

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