Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Paulo Mendes Campos: Experiência com LSD - III

O MUNDO É COLORIDO

Já devia ter ingerido o ácido lisérgico há uma hora e meia quando coisas obscuras começaram a se passar comigo, levando-me até a varanda, um segundo andar dando para o trecho ajardinado da Rua General Glicério. Foi então a rua mais bela que vi em minha vida. Digo bela por faltar-me palavra que identificasse melhor minha correlação com aquela paisagem; talvez fosse mais certo escrever que foi a rua mais significativa que vi em minha vida.
Significava o quê? Significava ela mesma, a própria rua, um trecho do universo e o próprio universo, a relva, as árvores, os prédios, as cores. Estas saltavam aos meus olhos com uma importância inimaginável. A tarde era nitidamente luminosa e meio fria, homens, mulheres, crianças, quase todos usavam agasalhos de lã. Eu me fartava de verde, de azul, de roxo, de amarelo, de vermelho...
As latas na mercearia do lado oposto me seduziram tanto quanto as flores. Por um tempo impreciso, embora remotamente cônscio de minha existência como um todo, os planos da minha consciência cederam ao significado direto das cores. Naquele momento infinito o meu estar-no-mundo era intensamente ver as cores. Receava apenas que o médico viesse distrair-me da descoberta. As pessoas que passavam em roupas coloridas, eu as notava como rara complacência, mas sem maior interesse. Nos próprios seres humanos as cores me prendiam muito mais do que as figuras e expressões do rosto. Foi então, por exemplo, que notei a importância cromática da epiderme preta, mais intensa do que a epiderme clara. (Já havia notado antes que os cinegrafistas de documentários, quando filmam em cores, preferem focalizar os negros). Durante o apogeu dessa verdadeira inauguração do mundo cromático só me lembro de ter reparado com a maior curiosidade na figura de duas meninas japonesas gêmeas. A beleza das mulheres era desimportante diante da cor das saias, das blusas, dos cabelos. Tentei propositadamente sublevar em mim a atitude normal do macho diante da fêmea, isto é, a imanência sexual do olhar masculino diante da figura feminina. Em vão. Sabia apenas, como se fosse de cor, se a mulher devia ser atraente: ela não me atraía. Insisti na tentativa e vi que contemplava no momento um mundo assexuado, minha relação com a realidade daquele momento era sexless. As cores me absorviam e me bastavam. Impossível conceituar essa vivência cromática. As cores significavam elas mesmas. Verde significava verde, azul significava azul. Era como se eu houvesse sido aceito na sociedade secreta das cores e estas me admitissem profundamente.
O médico trocou comigo algumas palavras. Eu lhe disse: estou vendo pela primeira vez ― e desejei que ele se satisfizesse com a resposta. Desagradava-me a hipótese de ser solicitado a traduzir em conceitos verbais minha visão. Ver como eu via era de todo mais transcendente do que tentar exprimir aquilo que eu via. Ainda que meu silêncio frustrasse a possibilidade científica da experiência (só depois soube que isso não era verdade), teria preferido ficar calado naquela hora. Felizmente entregaram-me um álbum de reproduções de quadros modernos, e pude assomar ao segundo ato da minha estreia no palco visual. Era como se fundasse de novo o meu ser através da vista.
Há muito tempo que gosto de ver quadros de arte, reconhecendo embora, muito cedo, que o mundo da pintura não me pertencia. Por isso mesmo, procurei educar-me razoavelmente para a visão plástica em museus, exposições e livros. Aprendi a ver um pouco melhor, me informei das noções mais elementares do valor estético e da evolução da pintura. Mas, ali na varanda, sob o efeito do ácido lisérgico, o álbum que segurava não me transmitia nenhuma experiência radicalmente parecida com as minhas habituais curiosidades plásticas. Antes de mais nada, não tive o mais leve desejo de avaliar a qualidade estética dos trabalhos ali reproduzidos. Não notei o título do livro, nem a origem da impressão, e não quis indagar que denominador comum agrupava os pintores daquele álbum, como também não quis identificar ao pé da página os nomes dos pintores, embora reconhecesse aqui e ali o estilo dum artista.
Sintetizando toda essa especial disposição interior, posso dizer que a pintura, como categoria civilizada da estética, não tinha maior importância para mim, não era a verdadeira coisa a ser vivida no momento (de certo modo esse momento era toda a minha vida).
Apesar de permanecer consciente até certo ponto dos valores culturais aprendidos, apesar de ter à disposição da memória minhas inclinações plásticas e minhas cogitações artísticas, as reproduções me fascinavam ao acaso, sem ideias, sem a tentação de confrontar ou medir a intensidade estética dos trabalhos. Via como nunca vi quadro algum. A tonalidade das cores e a profundidade do desenho me pegavam pelos olhos, gritavam aos meus olhos. Ver era extremamente fácil e significativo em si mesmo, sem qualquer consideração de ordem estética. Os quadros não me pareciam propriamente belos mas dotados dum sentido cósmico não conceitual.
Algum tempo depois substituíram-me o álbum por uma revista colorida, e não cheguei a lamentar a troca. Era ainda como se visse fotografias coloridas pela primeira vez; como, se depois de decorrido um prazo qualquer do meu nascimento, visse aquelas fotos sem prejuízo dos conhecimentos adquiridos em 40 anos de vida. Os dois planos, o da criança e o do adulto, não entravam em conflito. A criança era mais forte ou mais novidade, no que se comprazia o adulto. E eu via, via lentamente, muito lentamente, com um gosto lento, muito lento. Uma serenidade sem tempo era o meu ser. Como se uma membrana tivesse sido arrancada de cima das coisas, todo o meu ser VIA, serenamente, lentamente, muito lentamente.

(continua...)

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.119-122.

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