Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Paulo Mendes Campos: Experiência com LSD - IV

UMA INOCÊNCIA CÓSMICA

Ainda vivendo a plenitude da acuidade cromática, colocaram-me nas mãos uma página em branco para desenho. O médico, estendendo-me também um lápis, me disse para fazer o que quisesse, escrever ou desenhar. Não sentia vontade de fazer nem uma coisa nem outra. Mas ― indaguei a mim ― quem sabe se agora, por um compromisso tácito, tenho a obrigação de descrever o que se passa profundamente em mim? Talvez fora convidado à experiência somente para isso. Permaneci indeciso e desapontado, pois já descobrira, quando contemplava as gravuras, que me transformara em criança, e o sintoma intenso dessa regressão era um esvaziamento quase total do conteúdo das palavras. Perdera minha confiança nas palavras, abandonara-me a esperança de comunicar-me através de conceitos. Curioso é que alguma coisa me impedia de tentar expor ao médico essa mesma dificuldade. Com esforço físico e mental escrevi: “Eu nunca vi.” A anotação me pareceu insatisfatória demais, sem que pudesse fazer nada. Acrescentei com lentidão: “Tenho certa morosidade nos dedos.” Percebi com absoluta certeza que me era impossível traduzir em linguagem adulta o que se passava.
A verdade inesperada, profunda quanto o que há de mais profundo na criatura, era esta: havia em mim um abismo de inocência, um abismo do qual podia conhecer apenas os primeiros estágios, as primeiras vertigens. Embora vagamente receoso do ridículo, confessei por escrito: “me sinto inocente”. A delicadeza imensurável que experimentava em todo o meu corpo-espírito, ao mesmo tempo que me divertia conscientemente, isolava-me de todas as outras criaturas, próximas ou distantes. De certa forma as aceitava mais facilmente do que antes, mas o meu mundo era, em medidas indizíveis, por demais lento e delicado para que existisse comunicação entre mim e os outros.
Essa delicadeza não apresentava a mais leve analogia com sensações por mim conhecidas. Como se dentro da delicadeza houvesse uma segunda delicadeza, e dentro desta uma terceira, uma quarta, uma quinta, e só lá no fundo de não sei qual película sutil estivesse, intacta, a verdadeira delicadeza. Mas esse imprevisível tesouro não implicava a menor nuança de medo: estava inocente por demais para que o mal e a violência me atingissem. Meus próprios erros e brutalidades não me tocavam. Só não me agradava a possibilidade de ser reconduzido para trás, ao meu estado habitual, ao universo convencional dos conceitos, das palavras, dos apetites e das ansiedades. Como que justificando a sutileza de minha relação íntima com os outros, escrevi sempre inseguro das palavras: “Eu me afasto, mas não é solidão.” Não estava sozinho naquela hora; os outros talvez estivessem.
Acelerava-se o processo que me distanciava da ordem vocabular. Com espanto, notei que o próprio gesto mecânico de escrever ia ficando gradativamente mais difícil para mim. Registrei lentamente: “Não sei escrever, quer dizer, escrevo como se não soubesse.” A ideia de que isso podia ser interpretado como presunção me fez esclarecer: “Esta letra não é minha. Alguma coisa a faz muito vertical.” A espaços demorados de tempo fui acrescentando frases de que dou alguns exemplos: “Parece que estou aprendendo a escrever.” ― “A sensação de que minha mão não sabe escrever é curiosíssima. Não é desagradável.” ― “A letra cada vez é menos minha.” ― “A impressão de que sou um menino é muito forte. É ótima. Não sei é assim que se diz.” ― “Não sei escrever depressa.” ― “Paz. Sinto-me em paz.”
Entre mais apontamentos ressalvo o seguinte: “Há duas mãos na minha mão direita.” Já a impressão era iniludível: uma vocação completa, praticamente inelutável, carregava-me para a infância, chegando a influir nos estímulos motores. O medo de ser devolvido ao convencionalismo me levou a escrever esta coisa, gramaticalmente tola, mas cheia de sentido para mim: “Só queria que não me levassem para onde eu vim.”
Virei a folha. A caligrafia tornava-se mais infantil. Ondas obscuras me percorriam a consciência como se a lavassem. Devagar, escrevi, como se os descobrisse, os nomes de minha professora e do grupo escolar onde estudei. Dentro de um retângulo mal desenhado escrevi: 3º ano. Desenhei elementarmente um vaso com uma flor e um menino. Escrevi, caprichando sem saber, o meu endereço naquele tempo. Fiz em garranchos uma divisão simples e uma multiplicação (vi que as operações estavam erradas mais tarde). Escrevi outras coisas: “D. Biela era a vice-diretora.” ― “Esse teste é bobo.”
A certa altura o risco de grafita ficou muito leve: com esforço bem maior escrevi meu nome, todo torto, acrescentando: “Não tenho força na mão.” ― “Infantil.”
Já com mais vigor anotei: “Se eu pensar demais eu volto.” (À realidade: o transe era absorvente, mas sem qualquer sacrifício da consciência.) Estava cansado de escrever: “Quebrou a pon” ― foi a última anotação. Não o fiz de propósito, mas, indago agora, se uma força clandestina não nos faz quebrar a ponta quando estamos cansados. Por um instante tentei refazer o lápis; com a mão insegura, temendo cortar-me na gilete, e sobretudo sem mais vontade de escrever, desisti.
Tudo o que se passou acima é em grande parte informulável, independente de maior ou menor capacidade de expressão. Quero apenas reafirmar que o mais intenso nesse estágio era o sentimento de inocência de que falei. A palavra abismo é indispensável para tornar mais clara a sensação vivida e ouso dizer que a prefiro no plural: havia em mim abismos de inocência.
Mais tarde, procurando reencontrar a raiz desse abismo, falei em inocência pré-natal. Havia em mim uma inocência que só posso chamar de pré-natal. Mas o abismo pré-natal, se me permitem, não era o fundo de minha suspeita; mais fundo, muito mais fundo, em minha soma de carne e espírito, nos espaços ilimitados de meu tempo, suspeitei (vislumbrei? rocei? ― o verbo é improvável) a presença duma inocência cósmica, e esta se passava tão longe que nem se pode exprimir, em nebulosas ignoradas e quase cantantes à força de silêncio. Mas, caso ela fosse atingida, caso eu talvez ousasse, seria a árvore, a relva, a pedra, a mesa; sem dor e sem medo eu me integraria indescritivelmente no cosmos.
 (continua...)  

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.122-126.

2 comentários:

sonia disse...

Quando eu era pequena e meus pais assinavam a revista Manchete, costumava ler os artigos de Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Fernando Sabino. Nem sei dizer de qual dos 3 eu gostava mais! Talvez na época (ainda era criança - Sabino fosse o mais fácil de entender). Esse trio fez época!!!

Mariana disse...

Li-os todos naquela série "Para gostar de ler", da Ática e, como você diz, é difícil escolher. O Sabino para uma criança talvez seja mesmo mais fácil.

Sou de Cachoeiro de Itapemirim, então o Rubem Braga é meu conterrâneo... tenho muita coisa dele aqui, ele é de uma densidade... Agora, o Paulo Mendes Campos eu me afeiçoei depois que li "O cego de Ipanema". Nunca mais deixei de lê-lo.

Eles marcaram uma época em que a crônica ganhou status de literatura: aliás, o estilo deles fez da crônica algo mais que um escrito ligeiro.