Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Paulo Mendes Campos

Minhas janelas

Em geral as pessoas possuíram automóveis e se recordam de todos eles. Eu possuí janelas e ajuntei para a lembrança um sortido patrimônio de paisagens. Minha primeira providência em casa nova é instalar meus instrumentos de trabalho ao lado duma janela: mesa, máquina de escrever, dicionários, paciência. Além de pequenos objetos familiares: um globo de lata, uma galinha de barro, um Gorki de porcelana, um Buda de marfim e três cachimbos que há muitos anos esperam aparecer em mim o homem tranquilo e experiente que fume cachimbo. A janela também faz parte do equipamento profissional do escritor. Sem janelas, a literatura seria irremediavelmente hermética, feita de incompreensíveis pedaços da vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas.
Tive muitas janelas, e nenhuma delas mais generosa e plena do que esta de que me despeço na manhã de hoje. Amanhã cedo mudarei de casa, de janela, e até de alma, pois o meu modo de ver e de viver já não será o mesmo, fatalmente. Não falo de mim, mas do que foram as janelas por meu intermédio.
Quando era menino, nunca olhei pela janela, mas fazia parte da paisagem dum quintal, doce e áspero a um só tempo, com seus mamoeiros bicados pelos passarinhos, as galinhas neuróticas em assembleia permanente, o canto intermitente do tanque, e o azul sem morte. (Comme le monde était jeune, et que la mort était loin!) Criança de meu tempo, do tempo das casas, só chegava à janela em dia de chuva, amassando o nariz contra a vidraça, para ver o mistério espetacular das águas desatadas, as enxurradas maravilhosas, as poças onde os moleques pobres e livres podiam brincar com euforia.
Portanto, só na medida em que ganhamos corpo e tempo vamos aprendendo a conhecer a importância das janelas. Morei em Belo Horizonte, no Leme, Copacabana, Leblon, Botafogo, Silvestre, andei aí pelo Brasil e por outros países. Meus olhos deram para ruas quietas ou frenéticas, pátios melancólicos, morros cobertos de mataria, pedaços de mar. Vi coisas, muitas coisas, só não vi a linda mulher nua que os outros homens já viram de suas janelas. O resto eu vi. Vi um garoto pequenino comandando o mundo de cima dum telhado, vi um homem batendo numa mulher, vi uma mulher batendo num homem, vi auroras profusas e chamejantes, vi poentes dramáticos, vi uma menina morrendo num pátio, vi as luminárias inquietantes dos transatlânticos, as traineiras indo e vindo, vi operários equilibrando-se em andaimes incríveis, vi um general a bater-se com um soneto, vi a tormenta, o sol, a tarde cristalina, o verde, o cinza, o vermelho, a folha, a flor, o fruto, o farol da ilha, o féretro passando, a moça saindo para as núpcias, a mãe voltando da maternidade com um filho, um bêbado matinal, o casal de velhinhos crepusculares, o mendigo irrompendo pela rua como um versículo do Novo Testamento, vi através de minhas janelas todas as formas inumeráveis da vida, e a noite que chegava para engolfar o mundo em escuridão.
Buscava um lugar que me servisse e encontrei Ipanema. Já me mudei muitas vezes de um bairro para outro, já me mudei até de cidade, mas, nos últimos anos, só tenho trocado um lugar de Ipanema por outro lugar de Ipanema. Ando cansado de andanças, isto é, a idade vai chegando. Não quero mais ir, quero ficar; não quero mais procurar, quero conhecer o que já encontrei; para quem sou, as alegrias e as tristezas que tenho estão de bom tamanho.
Vou perder dentro de poucas horas esta magnífica janela, incomparavelmente a melhor peça deste apartamento, e a mais vivificante de todas as janelas em que trabalhei e morei. Peço pois um minuto de silêncio, um minuto de silêncio em derradeira homenagem aos meus telhados de limo lá embaixo, minhas amendoeiras cambiantes, meus pinheiros líricos, minhas gaivotas, meu mar, minhas ilhas, minhas vagas, meus dias de ressaca, meus dias de calma, meus barcos; dou adeus para o meu mar noturno, invisível e trágico, e adeus para este mar cheio de luz.

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.109-11. 

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