Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 21 de março de 2011

ARTISTAS QUE NÃO FAZEM ARTE - Clarice Lispector

"B. D. tem o olhar agudo de fotógrafo que sabe que uma imagem nunca vem duas vezes. Na sua procura, ele não faz arte: procura como quem jamais vai contar o que viu. O tipo de coisas que ele vê, aliás, são dificilmente contáveis. Não organiza bem o que sente e o que vê num conjunto: isso faz dele um não-artista. Mas todo homem tinha que ser pelo menos essa espécie de não-artista para que o espírito possa sobreviver."

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 464. 

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