Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 29 de maio de 2011

uma cigarra para o domingo à noite

Via de regra, quando comento sobre a fábula "A cigarra e a formiga", os alunos se apressam em condenar a cigarra. Então pergunto se eles abririam mão da trilha sonora que lhes embala a vida, qualquer que seja, e eles sempre dizem que não. Conversando com algumas pessoas próximas sobre a questão do cansaço, tem havido feedback. Excesso de pensar, sobretudo excesso de ocupar a cabeça com muitas questões ao mesmo tempo. Então, por exemplo, eu queria agora algo que me soasse como uma cigarra, no melhor sentido que essa fábula pode comportar (não obstante as fábulas serem uma estranha forma de regressão do homem à condição animal, em vez do contrário). 

6 comentários:

Renata disse...

É a moral do trabalho, tão calvinista, fazendo suas vítimas, rs...

Há um poeminha muito belo e muito triste do Leminski sobre o mesmo tema:

acabou a farra
formigas mascam
restos da cigarra


um beijo!

Mariana disse...

Renata, é a contradição da moral rígida do trabalho em nosso país tão desengonçado... Sua passagem por aqui me trouxe saudade de outros ares. De certa forma, era um pouco farra aquela vida da universidade. Fiquei nostálgica de repente, e me dei conta de algumas coisas.

Beijo!

Luiz disse...

Mariana, que pérola este post, hein? Aproveito para dizer que amei o poema que a Renata citou. Beijo!

Mariana disse...

Luiz, pois é, o poema da Renata me acordou coisas insuspeitas (acabou a farra...). Me senti de repente mascada por ferozes formigas, as que ditam as regras do jogo. Mas... mas... mas... ainda estou confortável, posso vir num blog e escrever.

E uma necessidade estranha às vezes me invade: a necessidade de ouvir a cigarra, algo que me seja agradável aos sentidos, aos ouvidos. Foi então que registrei num outro post a agradável surpresa que tive um dia ao entrar casualmente num site em que começou a tocar esta música:

http://re-curso.blogspot.com/2005/09/when-day-descends.html

Que som bom de escutar... Trata-se, creio, da versão demo da música que postei. Então ontem eu queria algo assim, algo que não me exigisse, que simplesmente fosse como um som antigo entrando pela janela. São poucas as músicas que podem fazer isso, distrair da labuta da formiga, e cada um tem as suas. Vou, aos poucos, conforme o momento, encontrando as minhas. E é claro que há outras coisas nisso tudo. Acho que estou trabalhando demais.

Beijo!

Renata disse...

é por isso mesmo que acho esse poeminha tão triste... acabou a farra...
mas eu sou de brincar em serviço!

beijos, muitos beijos.

Mariana disse...

Quem sabe foi por isso que escolhi o 6º ano? :)

Beijo.