Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

star trails

imagem obtida aqui

Através desta notícia ― fotografias de rastros de estrelas ―, fiquei sabendo um pouco mais da efemeridade de tudo, ser pó de estrelas, estrelas cuja beleza do rastro ― rastro deixado pelos astros ― lembra que nossos rastros se desfarão no pó em que estão sendo deixados.  

6 comentários:

Marcantonio disse...

E eu que pensava que rastros de estrelas havia apenas em poesia! Realmente, parece que esta vai à frente de tudo.
Mas, quanto ao efêmero visto no espaço, ocorre entre visões tão descomunais e absurdas que pode até ocultar-se sob uma névoa de suposta eternidade.
Já o efêmero aqui neste globinho salta aos olhos, inexorável. E não é que deixa rastros de beleza! Rastros de Homero, de Dante, de Shakespeare, de Bach... Mas, enfim, diante daquelas visões descomunais, não serão mais do que pó opaco... É triste que neste prazo tão breve de nossa longevidade, possamos ter visões de anos-luz. Só nos resta negá-las todas como alucinações, as macroscópicas e as microscópicas, prorrogando a validade e a relevância das nossas pretensões.

Mariana disse...

Prezado Marco, seu comentário, como sempre, daria um novo post.

Rastros de estrelas - que imagem mais linda, não? Até na Macabéa a literatura conseguiu colocar alguma coisa desse rastro, e pensando bem, tomando uma distância astronômica qualquer como parâmetro, nós valemos, como diz uma amiga minha que sempre cito aqui, pouco mais do que nada. Eu me debato com minha pequenez, mais do que com a efemeridade, pois acho que vejo curto, pouco, e isso amesquinha a vida. E no entanto, lembrando aquela estrela de mil pontas que deixou seu rastro na Macabéa, como é precioso isso que se tem, a vida!

Pedro Góis Nogueira disse...

E tudo aquilo que existe e que somos foi concebido e gerado na explosão de uma supernova - de longe a mais violenta do Universo. Somos filhos das estrelas, o planeta Terra (o sol, os planetas) nada mais é do que poeira de estrelas condensada...

Marcantonio disse...

Mariana, se você vê pouco e amesquinha a vida, que se dirá então das visões que imperam por aí?!
E se você aprecia alguns dos meus comentários, veja que eles não são mais do que glosas das questões sempre propiciatórias que você tão bem levanta nos seus escritos. Sou seu devedor nesse caso, em muitas reflexões que faço depois de ler seus textos. É você quem entra no labirinto com o fio de Ariadne.

Abraço.

Filhos das estrelas... Uma bela expressão no comentário do Pedro, nota poética interposta numa dolorosa genealogia que pode levar ao acaso.

Mariana disse...

Pedro, depois que assisti a uma palestra com um cientista chamado Luiz Alberto Oliveira, eu não pude mais deixar de considerar que meu mundo era limitado. Poucas vezes ouvi uma conferência tão brilhante, e era um ciclo de palestras com pesos pesados, gente graúda... Depois disso, eu despertei para a cosmologia, para esse conhecimento que vem da consideração de amplas dimensões e perspectivas.

Seus comentários a repeito do tema me trazem, de relance, o que ouvi naquela palestra.

Mariana disse...

Marco, obrigada!

Borges disse que, para quem aprecia labirintos, Londres seria tão labiríntica quanto o seria um deserto. O acaso "play a role" nisso tudo, o que me leva, por outros caminhos, para o Luiz Alberto Oliveira, cuja conferência, citada no comentário anterior, terminou com um texto de Borges, já não me lembro qual, quem sabe sobre nadas, vazios, desertos e labirintos.

Abraço.