Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 25 de março de 2012

Luis Fernando Verissimo: Bárbaros

“A história nos diz, com aquele ar enfarado das velhas professoras, que o Império Romano terminou com a invasão dos bárbaros, e todos sabem quem eram os bárbaros: os hunos, os godos, etc. Poucos sabem que, além dos bárbaros mais conhecidos, muitas hordas menores percorreram a Europa na mesma época, espalhando o medo e a destruição, só mais discretamente. Por exemplo: além dos hunos, havia os úmidos, que atacavam a pé, pois sempre que tentavam montar deslizavam dos cavalos. Sua tática preferida era correr atrás das pessoas e encostar nelas a palma da mão, sempre molhada e pegajosa, provocando gritos de ‘Iecht’ e ‘Iug’ em todo o mundo civilizado. Até hoje existem descendentes dos úmidos e é fácil identificá-los pelo aperto de mão, mole e oleoso, pelo hábito de só falar com a gente com a cara a centímetros da nossa e de insinuar que são assim, ó, com o Maluf.”

Luis Fernando Verissimo. A velhinha de Taubaté. 3.ed. Porto Alegre: L&PM, 1984, p.115.

Nenhum comentário: