Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

a mão de Deus

4 comentários:

Jamil P. disse...

gostei mais dessa do que a famosa do dedo do criador, por michelangelo, na sistina

mas eu achava que você não acreditava em deus...

Mariana disse...

Será que a natureza supera a arte? Há aí também a mão do homem.

Lembrei-me de um conto do Lobato, bastante curioso, que termina assim: "Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde disse muita coisa, quando disse que a vida sabe melhor imitar a arte do que a arte imitar a vida."

Polêmico como o próprio, mas, polêmicas à parte, meu parco entendimento me faz pensar que reflexão em si é frutífera. Ontem terminei de ler um conto do Antonio Tabucchi:

"E aquela história precisamente, que ele já contara tantas vezes que lhe parecia um livro já impresso, e que nas palavras mentais com as quais contava era facílima de dizer , era, pelo contrário, dificílima de escrever com os caracteres do alfabeto aos quais devia recorrer quando o pensamento deve se tronar concreto e visível. Era como se lhe faltasse o princípio de realidade para escrever o seu relato, e era por isso, 'para viver a realidade daquilo que era real nele, mas que não conseguia se tornar real de verdade', que havia escolhido aquele lugar."

(O tempo envelhece depressa, Cosac Naify, 2010, p.156, trad. Nilson Moulin).

E então, com esse trecho ('para viver a realidade daquilo que era real nele, mas que não conseguia se tornar real de verdade'), acho que posso tentar falar da segunda parte do seu comentário: Deus. É como se eu acreditasse, sem poder acreditar.

Jamil P. disse...

você sempre indo além das minhas expectativas ;)

Mariana disse...

:)