Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 6 de março de 2014

natureza morta

6 comentários:

Jamil P. disse...

parece de plástico

Mariana disse...

às vezes eu tenho vontade fotografar coisas bem insignificantes, como este jarro de flores de plástico abandonado numa mesa do terraço lá de casa. tudo é um pouco feio, sem graça, restando de alguma serventia antiga (a mesa, o jarro) e beirando a inutilidade. mas foi posto/deixado lá, e meu coração bate de outra forma ao pensar na precariedade das coisas.

Jamil P. disse...

insignificante, porém conceitual, metafórico e kitsch também;
mas o pior é que provavelmente seja mais uma das milhares de quinquilharias chinesas que vemos por todo lado, sobretudo em nossas casas

Mariana disse...

pode ser. quanto às quinquilharias chinesas, são a quintessência às avessas do nosso capitalismo atrasado. se não fossem chinesas, seriam tailandesas: de um lado a quinquilharia, de outro a canon (também daquelas bandas) dando-lhe ar de "arte".

Jamil P. disse...

pois é, mariana, exatamente; sabe que eu fico constrangido quando vejo algum produto à venda com letras garrafais "IMPORTED", como se isso fosse sinal de qualidade superior (à da nossa indústria tupiniquim) ou algo do tipo; sinto como se fosse um atestado de inferioridade essa ideia antiga disseminada de que tudo que vem de fora é melhor; hoje, mais do que nunca, está claro de que é uma ideia falsa; o problema é que o que produzimos aqui é tão caro (automóveis, smartphones, etc, etc, etc) se comparado inclusive a vizinhos mais pobres, como o peru (!), que temos de infestar o nosso mercado consumidor com essas coisas asiáticas baratinhas que às vezes não duram nem até o fim do primeiro uso; guarda-chuva ching-ling por ex. eu já devo ter comprado uns 30 só na última década; com essas e diversas outras distorções eles seguem dominando a economia global...

Mariana disse...

inclusive a distorção da noção de trabalho... se é que a percepção do trabalho, em algum momento ou contexto do capitalismo, foi passível de isenção.

por outro lado, alguma coisa do outro lado disso tudo pode aparecer na imagem, pois afinal mesa com jarro sobre lembra o cotidiano miúdo, aquele após refeições em que as coisas voltam aos poucos à sua paz habitual.