Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Paulo Leminski - [ai daqueles]

       ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
       aqueles que deixaram
que a mágoa nova
       virasse a chaga antiga

       ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
       e que a pedra só não voa
porque não quer
        não porque não tem asa


Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 215. [distraídos venceremos, 1987]