O
momento é difícil, grave, delicado, porque implica a possibilidade de se
retroceder 50 anos, pelo menos. Saí de grupos de whatsapp, rareei o contato com
a família, me espantei com declarações de estudantes, certa censura prévia
imposta a críticas ao inominável. Foi-se o tempo da oposição entre coxinhas e
mortadelas. Quando um dos filhos do coiso, ou coiso-filho, disse que se chegou
ao “fundo do posso”, ele atropelou mais do que a língua, pois estava dizendo
que o “posso” a ele pertence. De todas as declarações absurdas do inominável,
uma delas causou menos furor e escândalo, mas resume o apoio recebido de boa
parte do empresariado jeca do país: o trabalhador terá de escolher entre ter
emprego ou ter direitos. No fundo, é disso que se trata. Todos perderemos,
muito, mas a cruzada moral que assola o país não deixa enxergar isso. Não quero
ser pessimista, estou apostando que a democracia terá fôlego. Mas nunca
imaginei viver isso.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.