Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

Sonetilho do falso Fernando Pessoa

Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto 
de tudo quanto é misto
e que odiei ou que senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião (10 livros de poesia). Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.167.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

um verso de Drummond

Eu sempre me lembro deste verso do Drummond, "sempre esquecidos de alguma coisa", de "Um boi vê os homens" (postado aqui), seu poema que mais aprecio. É que eu sempre estou esquecida de alguma coisa.  

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Carlos Drummond de Andrade: Quadrilha


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Reunião: dez livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p. 19.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

FM, Chico Buarque, Drummond

Aqui no Rio de Janeiro uma forma de transporte alternativo aos coletivos são as vans. Numa cidade com déficit de transporte público de qualidade elas proliferam. E aí ocorre uma particularidade interessante: trata-se de uma viagem com trilha sonora... de FM. E é curioso como as músicas são facilmente reconhecíveis, no mesmo movimento em que são imediatamente esquecidas. Chico Buarque: "Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha. Que maravilha." 

sábado, 6 de novembro de 2010

um sertão chamado Brasil

A inédita viagem feita recentemente ao interior do Brasil ― ao estado de Goiás ― provocou certo bulício em algumas de minhas certezas, conquistadas com persistência e paciência. Acostumada a certa itinerância, já conhecia os estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais (onde residi, em dois períodos intermitentes, por significativos oito anos) e Bahia, além do estado do Espírito Santo, claro, onde nasci e residi até a juventude. Há uma obra versando sobre a dualidade litoral x interior que tem um título curioso  Um sertão chamado Brasil, de Nísia Trindade Lima. Cito pela riqueza imagética do título. E aí me recordo, num dos eventos que assisti dedicados a Guimarães Rosa, de uma fala do nada ortodoxo Flávio Aguiar, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo, quando contou que naquela prestigiosa universidade os alunos do curso de Letras (literatura brasileira) necessariamente tinham (não sei se ainda têm) que ler Grande sertão: veredas. De forma que havia a brincadeira de sugerir fazer uma camiseta, após passar pela disciplina dele, com os dizeres, nas costas (ou no verso): "Eu li Grande sertão". Uma frase simples, que me vem agora. Não saberia dizer, sem titubear, que li Grande sertão. Obras assim não se dão fácil ao leitor. Peguei para reler no início deste ano, mas como estava muito envolvida com a tese acabei declinando. O fato é que esse interior do interior reavivou em mim Guimarães Rosa, e então eu retorno para a questão do sertão, destacando uma fala da obra citada:

"De espaço geográfico a lugar simbólico de intenso apelo emocional, abordei aqui ― diz a autora ― o sertão de ângulos distintos, mas que indicam quase sempre uma tensão permanente diante dos contrastes, das desigualdades e dos problemas que acompanham o debate sobre a modernidade na sociedade brasileira. Ao longo do trabalho procurei demonstrar que a matriz dualista é parte constitutiva da imaginação social sobre o país, revelando algo mais do que a oposição entre o Brasil moderno e o atrasado [...].” A autora refere-se “à ambivalência dos intelectuais no que toca ao tema da identidade, seja a identidade nacional, seja a sua própria identidade [...]. Daí, que a condição de estrangeiro seja lembrada nas referências à própria intelectualidade, como a esses diferentes 'outros' ― sertanejos, caipiras, pobres, classes subalternas ― que se toma por objeto de pesquisa. Vendo-os como estrangeiros em seu próprio país, é também como estrangeiro que o intelectual se coloca diante da sociedade." [LIMA, Nísia Trindade. Um sertão chamado Brasil. Intelectuais e representação geográfica da identidade nacional. Rio de Janeiro: Revan; Iuperj, 1999, p.207].

Se as representações dos intelectuais em relação a esse “outro” tentam pelo menos ser benevolentes, na medida em que, pelo menos mais modernamente, não se travestem de preconceitos, o mesmo não se pode dizer sobre as representações que fazem de si, entre si, os brasileiros. Carlos Drummond de Andrade, num poema famoso, “Hino Nacional”, decantando todo o azedume da época, inclusive o seu, perguntava/afirmava, ao final do poema: “Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?” Traduzia, com precisa incerteza, a perplexidade primeiro modernista que quis redescobrir o Brasil. A ironia dos versos finais é demolidora acerca de qualquer ilusão de identidade nacional. Não é possível esquecer que Drummond é um dos intelectuais que Nísia Trindade tem em mira, por ver-se estrangeiro na própria terra. Que terra? O Brasil, ora, essa que nos coube habitar.

Hino Nacional

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes
 dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos
 dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...

Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos...
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.36-37.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Carlos Drummond de Andrade


Abril, 6 ― De boas intenções está calçada a Rua da Reincidência, palmilhada sem vontade, com receio de ferir pés alheios.

ANDRADE, Carlos Drummond de. O observador no escritório. Rio de Janeiro: Record, 1985, p.144. [1963]

sábado, 25 de setembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade: "O mundo é grande e pequeno"

Caso do vestido

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou.

chorou no prato de carne,
bebeu, gritou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só para lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou para mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. Seleção do autor. 32. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 155-161.
  
“Caso do vestido” é um poema narrativo, com regularidade métrica e estrófica peculiar ― compõe-se de 75 estrofes de 2 versos cada, portanto 75 dísticos, totalizando 150 versos, todos heptassílabos (redondilha maior). O poema está marcado por um ritmo forte, imprimido não só pela regularidade métrica e estrófica como também pela forma dialogada, constituindo-se de um longo diálogo entre uma mulher (a mãe) e suas filhas, falando estas em uníssono, o que, associado ao emprego do pronome possessivo com valor adjetivo na 1ª pessoa do plural para a invocação recíproca das partes em diálogo (“Nossa mãe”, “Minhas filhas”) e deste mesmo pronome na 1ª e 2ª pessoas do plural para a referência a pessoas e objetos próximos (“vosso pai”, “nosso pai”, “vosso berço”, “vossos parentes”), imprime ao poema a característica de uma espécie de canto coletivo, com raízes na tradição oral, a ser entoado, ou recitado, em público. É de notar que, embora não se faça referência ao número de filhas, se são duas, três ou mais, a própria construção do poema remete ao número dois.
Massaud Moisés, ao abordar a poesia lírica, alude ao poema “Caso do vestido” como uma forma bem sucedida de poema narrativo, em que o elemento lírico sobrepuja, como no caso dos poemas narrativos pertencentes ao romanceiro popular que alcançam qualidade poética. Formalmente, o poema em tela não se assemelha a nenhuma das formas poéticas da lírica tradicional ou moderna, conforme tipologia descrita por Massaud Moisés (1997, p.260-263), com exceção do romance, equivalente ibérico da balada européia, caracterizando-se este “[...] pela simplicidade da expressão com que o poeta discorre sobre um assunto terno e tocante, com que desenvolve uma narração que deve ser singela. Esta singeleza e um quê de monotonia, proposital, na expressão, darão ao romance um certo ar de narrativa popular que é a própria alma desta composição. (MOISÉS, Massaud. A criação literária: poesia. 13. ed. revista. São Paulo: Cultrix, 1997, p.262).
Assim, a forma adotada por Carlos Drummond de Andrade para “Caso do vestido” originalmente pertencia à tradição oral, tratando-se, portanto, de uma escolha muito bem acertada, na medida em que forma e conteúdo, neste poema, formam um todo de difícil dissociação.
Estruturalmente, o poema “Caso do vestido” pode ser dividido em três blocos assimétricos, quanto ao número de estrofes, delimitados por aquelas (respectivamente a quarta, a vigésima segunda e a septuagésima quinta) em que a mãe sinaliza para as filhas a chegada do pai, o que poderia interromper o relato. Mas como o pai não chega, e enquanto ele não chega, o relato pode prosseguir. O primeiro bloco tem três estrofes; o segundo, começando na quarta estrofe e terminado na vigésima primeira, dezoito; o terceiro, indo da vigésima segunda até a estrofe final, tem cinquenta e quatro estrofes.
É de notar que os três blocos mantêm entre si uma relação geométrica (em vez de aritmética, por exemplo), grosso modo exponencial, fazendo do poema um crescendo, em que o término da narração, quando a mãe está contando às filhas a volta do marido para casa, depois de longa ausência, em virtude do envolvimento com outra mulher ― a dona do vestido que motiva a narração ―, coincide com a chegada dele em casa, provavelmente após mais um dia de trabalho, o que encerra a narração.
As três primeiras estrofes constituem uma espécie de preâmbulo, em que as filhas indagam à mãe sobre o vestido pendurado na parede. Pressentindo a chegada do marido, a mãe interrompe a narração na quarta estrofe, mas, instada pelas filhas, prossegue. A narração e a iminência da chegada do marido caminham juntas, num crescendo, imbricadas, constituindo a segunda uma marcação para a primeira.  Semanticamente, funcionam como duas camadas que confluem, uma camada narrativa, densa, e uma camada mais tênue, que remete ao elemento lírico. O pranto presente no relato, indício deste elemento, é o prenúncio dos desmedidos sofrimentos pelos quais a mulher passa na terceira parte. Neste ponto entra o vestido. O que vem então é a ruína, a decadência física, a miséria material e espiritual. O marido some no mundo. Ambas as mulheres se arruínam por um homem que, quando se decide por uma delas, “era sempre o mesmo homem, / comia meio de lado / e nem estava mais velho.” 
O poema, pela sua métrica, pela estrofação breve e regular, sugere um movimento de circularidade, de volta, de reincidência, indo ao encontro do “caso” contado, em que há um marido que vai e volta (e vai e volta do trabalho), em que há duas mulheres que sofrem da mesma dor de amor, pelo mesmo homem, finalmente materializado no vestido, cujo uso tornou-se impróprio, para qualquer uma delas. Símbolo de uma ausência, ele pode repousar, como ícone vazio, morto, onde estaria o amor: “Minhas filhas, mas o corpo/ ficou frio e não o veste.// O vestido, nesse prego,/ está morto, sossegado.”

sábado, 18 de setembro de 2010

Sérgio Buarque de Holanda e Vinicius de Moraes: episódios de uma amizade

Retrato de Vinicius

(entrevista a Sérgio Buarque de Holanda por Caio Túlio Costa)


Conheci o Vinicius, mesmo, fora de qualquer ligação intelectual literária; bom, ele já tinha publicado livros, eu não tinha publicado nenhum, embora fosse mais velho que ele. Tenho o segundo livro dele com uma dedicatória de 1935, e não era de um sujeito conhecido na hora não, era de uma pessoa que já conhecia antes. Pelo jeito da dedicatória se vê que não era novidade. De modo que pelo menos há 45 anos o conhecia. Eu ia muito ao Rio, durante algum tempo morei no Rio e ele vinha muito a São Paulo; no estrangeiro também nos encontramos várias vezes. Encontrei com ele na Itália, ele vinha em casa todas as noites tocar violão. Tenho a impressão que o Chico daí que pegou a coisa da música, ele ia escutar o Vinicius, e escondido, na hora em devia estar dormindo. Tinha oito anos (o Chico foi para a Itália com oito anos e voltamos quando ele tinha dez anos), ficava muito aceso, o Vinicius pensava que ele ia dormir, mas ele vinha escondido e mais de uma vez eu vi o Chico escondido para ouvir as músicas do Vinicius.
Vinicius foi a única pessoa que batizou uma das filhas do Chico, a mais velha, Silvia; que nasceu quando ele estava mais ou menos exilado na Itália. Ele não podia voltar para cá, foi em 1969. Lá nasceu a Silvia, tenho até uma gravação feita pelo poeta Ungaretti, que foi à casa de saúde:
 Sérgio, tu nipottina é bella!...
Faz um bruta elogio. Foi o Vinicius quem me trouxe a gravação do Ungaretti, eles estavam juntos lá.
A poesia dele é uma poesia coloquial... Ainda outro dia ouvi o Carlos Drummond falando. A gente não pode recitar a poesia dele assim com um tom poético, tem de ser uma coisa quase coloquial. Mas ele não começou assim. Na faculdade de direito, no Rio, ele tinha uma turma de colegas que depois ficaram importantes e numa posição totalmente diferente da dele, eram o Santiago Dantas que depois foi integralista; o Américo Jacobina Lacombe, o Octavio de Faria (este fez um livro sobre um livro de poemas de Vinicius); o Hélio Viana, todos do grupo chamado Caju. Mas ele logo se emancipou disto e foi para o lado oposto, até. A partir daí ele entrou para o lado da boemia. Começou a não ligar para a direita, era contrário, e conseguiu uma popularidade que raras pessoas hoje possuem. Ele tinha aquele jeito de tratar todo mundo com um certo charme pessoal.
Eu me lembro quando morávamos na Itália, tinha um amigo nosso que era Cônsul Geral em Roma, a mãe dele estava lá. Então ele deu uma reunião para vários cineastas. Tinha muitos, inclusive estudantes de cinema como o Rudá, filho do Oswald de Andrade. Convidaram o grupo para ir lá à noite. Para jantar convidaram-nos o Vinicius, minha mulher e eu porque a mesa era pequena para todo aquele pessoal. A mãe do anfitrião pediu por isso, que nós três fôssemos mais cedo. Já passava das nove horas quando o Vinicius chegou, atrasado, e sentou ao lado da senhora, e num instante quebrou-se o gelo.
― Mas que homem... ― ela dizia, esquecida do atraso. Ele agradava às pessoas, mas não agradava de propósito, era a maneira dele, naturalmente assim.
Depois ele passou para música, aí foi demitido do Itamaraty, no tempo do Costa e Silva; pediram que ele não fizesse mais shows, ou então largasse o Itamaraty.
― Então eu largo ― ele disse. Não, não foi cassado, foi uma coisa individual: não poder tocar a música que ele gostava.
O Vinicius passou dois meses em Roma, antes de assumir em Paris e ia todo dia em casa, eu era professor, dei curso na universidade. Ele ficou num hotel da Via Vittorio Veneto, onde se reuniam os atores, eu conto neste prefácio [do Operário em construção e outros poemas, Nova Fronteira] que cheguei um dia lá e o encontrei ao lado de Irene Papa (aquela do filme Z).
Numa dessas ocasiões apareceu um camarada mineiro, filósofo, que morreu agora. Era um sujeito muito diferente do Vinicius, muito sério. Ele e o Vinicius não davam certo. Não sei bem por que, pois o Vinicius tinha uma facilidade de se dar bem com as pessoas. Eu disse ao camarada: “Não o convido hoje porque já tenho compromisso”; era o Vinicius. “Vamos deixar para amanhã”.
― Não, amanhã vou jantar com o Cristiano Machado, embaixador no Vaticano, pode ser para depois de amanhã? ― foi a resposta. Eu disse que em princípio podia ser.
Aí chegou o Vinicius e eu disse que o camarada estava com vontade de vir, mas achei que os dois não combinavam bem, tão diferentes que eram, o outro era um sujeito brigão, tinha sido até boxeur. O Vinicius disse que eu tinha razão:
― Não vou com aquele sujeito não.
É raro ele ficar assim com outras pessoas. No dia seguinte o Vinicius apareceu e eu o lembrei que o camarada viria no outro dia. Disse ao Vinicius: se você quiser vir, venha, mas eu estou avisando: ele vem amanhã. No dia seguinte aparece o Vinicius. Aí eu disse: ah! você veio, né? Tá bem. O outro chegou tarde, às 9 horas, e jantamos juntos. Ele falando o tempo todo, metendo o pau numa moça que trabalhava num escritório comercial em Paris, onde ele teve que fazer qualquer coisa. E o Vinicius num silêncio mortal. Depois que ele saiu perguntei a razão daquele silêncio:
― Eu estava aqui, só não dei nele porque ele estava na sua casa.
― Mas por quê? ― eu perguntei.
― Porque ele estava falando mal de uma mulher.
― Mas você conhece a mulher?
― Não, eu não conheço, mas falar mal de mulher é coisa que não suporto.
Ele não admitia que ninguém falasse mal de mulher, fosse quem fosse. De modo que ele era assim um pouco desse jeito. Estávamos certa ocasião na casa de um dos grandes amigos dele daqui em São Paulo, o Zequinha Marques da Costa. Certa hora ele se levantou e foi lá para dentro. Nesse momento o Zequinha me convidou para ver alguns quadros que tinha lá. Entramos, vi um quarto.
― Ali deve estar dormindo o Vinicius ― disse o Zequinha ― evitemos falar alto quando passarmos por lá.
Passamos então pelo quarto enorme, uma cama de casal, e o Vinicius no meio dormindo. Eu disse: olha aqui, vamos fechar essa luz. E o Zequinha respondeu:
― Não, não, não, o Vinicius não quer. Ele quer a luz acesa porque assim fica com a impressão de que tem gente.
Ele morreu assim, com quantidade de gente em volta. Dizem que só no apartamento dele foram mais de mil pessoas sem estar avisadas. Havia toda aquela gente chorando, amigos...
Mas os médicos achavam que ele não ia durar muito não. Tinha diabete, inclusive; não parava de beber. Quando fiz essa coletânea [Operário em construção e outros poemas, Nova Fronteira] fui ao Rio, estava no hotel, o Vinicius foi lá para ver. Aí eu pedi um uísque e disse: eu não peço para você porque você não pode tomar.
― Uísque não ― respondeu ―, mas tomo vinho branco.
― Mas não faz mal?
― Não, o médico disse que não.
Sabe, enquanto nós estivemos lá (a última mulher dele, Gilda de Queirós Mattoso, também estava) ele tomou cinco garrafas de vinho branco. Bom, eu tomei um bocadinho, mas o grosso foi ele quem tomou.
Quanto aos poemas eu gosto de muita coisa dele. Quando comecei a fazer esta antologia ele queria tirar as poesias que têm música. Mas depois ele mesmo achou uma como este Samba em prelúdio. Às vezes eu gosto de uns poemas dele, às vezes gosto de outros. Gosto muito do Soneto da fidelidade, onde ele fala do amor, que “não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Ele costumava dizer de brincadeira que mulher para ele dura três anos. Depois tem que mudar...
Este livro da Nova Fronteira foi quem pediu (sic) que eu fizesse uma antologia, uma introdução crítica. Agora não estou fazendo crítica literária, então resolvi fazer uma coisa sobre ele, a pessoa dele. Destas poesias faltam algumas que numa certa hora se perderam, em parte. Eu não sabia nem como construir e pedi que o Vinicius completasse, não incluí exatamente o Soneto da fidelidade. Fiz a seleção e este estava na outra lista, que se perdeu. Escolhi de diversos lugares, tem um soneto dedicado ao Neruda, foi o Vinicius quem me deu para sair aí, mas este não é um soneto novo, é antigo. Ele fez para o Neruda depois que ele chegou aqui. Havia perdido o soneto, de modo que não incluiu nos outros livros dele; é uma resposta ao Pablo Neruda. Ele o encontrou pouco depois e disse:
― Vamos publicar por causa disso.
É uma coisa inédita. Depois ele fez outro soneto para o Neruda, diferente deste. Queria publicar este aí porque era praticamente inédito. A outra parte disto foi uma antologia que saiu em Portugal, ele achava muito boa. Foi dali que eu tirei muita coisa, mas devolvi-lhe o volume português porque ele não tinha outro exemplar. Foi ele quem escolheu o título do livro. Eu ia fazer uma escolha, Antologia, qualquer coisa assim. Por ocasião da greve em São Bernardo ele foi lá e recitou isso para os operários. A letra tem algumas coisas sutis, muito sutis, como a história da tentação de Cristo pelo diabo. Mas o Lula, pelo menos, gostou muito.
No começo de sua carreira Vinicius jamais se indispôs pessoalmente com o grupo Caju, mas encontrou amigos do outro lado, grandes amigos, como o Rubem Braga, o Fernando Sabino, o Paulo Mendes Campos e o Otto Lara Resende ou os mais velhos, como Manuel Bandeira e Drummond. A poesia dele começou com a influência desse grupo, espiritualista. Não chegava a ser fascista não, embora alguns se fizessem integralistas, mas ele nunca foi isto não, foi até o contrário.
Os primeiros dois livros têm este lado individualista e meio espiritual, Caminho para a distância e Forma e exegese. Ele era muito moço ainda. Depois tem Ariana, a mulher, aí ele já estava mudando, foi tomando um tom mais lírico, mais amoroso, mais material talvez.
Os primeiros livros são desta fase espiritualista, depois ele descobriu que não era aquilo não, que gostava era de mulher. No meio dos primeiros tem muita coisa bonita, mas eram muito diferentes. Esta poesia lírica, junto com o Drummond e o Bandeira, formou uma espécie de trindade na poesia brasileira. O Murilo Mendes também tem um pouco. Uma tendência assim um pouco coloquial. A marca da experiência inglesa de Oxford parece-me ter sido decisiva para ele.
O traço social é visível em Operário em construção, é um pouco. Acho que ele estava caminhando para este lado, mas tinha muito o lado lírico, mulher no meio. Tinha as duas formas. Só as duas?

SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA: Encontros. Org. Renato Martins. Beco do Azougue, 2009, p. 168-173. (Publicado originalmente em Leia Livros, 1980)