Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

um conto de William Saroyan

O OUSADO RAPAZ DO TRAPÉZIO SUSPENSO
Tradução João Cabral de Melo Neto

1. Sono

Horizontalmente desperto entre as dimensões do universo, praticando sorrisos e alegria, sátira, o fim de tudo, de Roma e também de Babilônia, dentes trincados, um enorme calor vulcânico, as ruas de Paris, as planícies de Jericó, muito deslizar como de réptil distraído, uma exposição de aquarelas, o mar e o peixe com olhos, sinfonia, uma mesa num canto da Torre Eiffel, jazz no Teatro da Ópera, um despertador e o sapateado da condenação, conversas com uma árvore, o rio Nilo, de Cadillac cupê até Kansas, o roncar de Dostoievsky, um sol sombrio.
Este mundo, a face de alguém que existiu, a forma sem o peso, pranto sobre a neve, a branca música, uma flor ampliada ao duplo do tamanho do universo, nuvens negras, o olhar fixo da pantera enjaulada, espaços sem morte, Mr. Elliot de mangas arregaçadas torrando pão, Flauber e Guy de Maupassant, uma rima silenciosa de sentido primitivo, Finlândia, matemática altamente polida e untuosa como uma cebola verde para o dente, Jerusalém, o caminho do paradoxo.
O canto profundo de um homem, os cochilos dissimulados de alguém invisível mas vagamente conhecido, furacão no trigal, uma partida de xadrez, faça calar a rainha, o rei, Karl Franz, o negro Titanic, Mr. Chaplin chorando, Stalin, Hitler, a multidão de judeus, amanhã é segunda, nenhuma dança nas ruas.
Ó fugaz minuto de vida: acabou, o mundo está de novo presente.

2. Vigília

Ele (o sobrevivente) vestiu-se e fez a barba, olhando-se com desgosto no espelho. “Bem antipático”, pensou. Onde está minha gravata? (Ele só possuía uma.) Café e céu cinzento, o fog do Oceano Pacífico, o estrépito de um bonde de um bonde passando, gente indo à cidade, novamente a hora, o dia, prosa e poesia. Desceu rapidamente as escadas para a rua, e saiu a caminhar, começando inesperadamente a pensar: “é somente no sono que podemos saber se existimos. Somente lá, naquela morte viva, poderemos encontrar a nós mesmos e à terra distante, a Deus e aos Santos, os nomes de nossos pais, a substância de perdidos momentos; é lá que os séculos se revelam no instante, que o inconcebível se transforma no limitado, átomo tangível da eternidade.”
Saiu a caminhar na manhã, tão desperto quanto podia, dando batidas secas com os calcanhares, recebendo com os olhos a verdade superficial das ruas e das estruturas, a verdade banal da realidade. Sem que o procurasse, viu-se a cantarolar: “Com a maior facilidade voa no imenso espaço, o ousado rapaz do trapézio suspenso”,* e depois riu com toda a capacidade do ser. Estava, na verdade, uma esplêndida manhã; nublada, fria e triste, uma manhã para a vida interior; ah, Edgar Guest, que fome de tua música.
Descobriu na sarjeta uma moeda, um pêni datado de 1923, e colocando-a na palma da mão examinou-a minuciosamente, procurando lembrar-se daquele ano e pensando em Lincoln cujo perfil nela estava gravado. “Hei de comprar um automóvel”, pensou. “Hei de me vestir como um grã-fino, visitar as pensões de mulheres, beber e jantar, e voltar depois a uma vida sossegada. Ou então, colocarei a moeda na fenda de uma balança e me pesarei.”
Era bom ser pobre, e os comunistas... ― Mas era horrível ter fome. Que apetite o deles, como eram loucos por comida! Estômagos vazios. Lembrou-se de quanto ele necessitava de comida. Seu único alimento era pão, café e cigarros, e agora não tinha mais pão. Café sem pão não constituía ceia razoável, e no parque não havia ervas que servissem para se cozinhar como espinafre.
A dizer a verdade, embora já tivesse meio morto de fome, compreendia haver ainda um número infindável de livros que precisava ler antes de morrer. Lembrou-se do jovem italiano do Hospital do Brooklyn, um insignificante e doente funcionário chamado Mollica, a dizer, desesperadamente: “como gostaria de ver a Califórnia, ainda uma vez, antes de morrer”, e pensou com gravidade, “preciso ao menos ler Hamlet de novo; ou talvez Huckleberry Finn”.
Foi então que tornou-se inteiramente lúcido à ideia de morte. A lucidez, agora, se assemelhava a um estado de choque prolongado. “A um rapaz era muito mais fácil morrer discretamente”, pensou, e ele já estava meio morto de fome. A água e a prosa eram boas, preenchiam muito espaço inorgânico, mas eram insuficientes. Se ao menos houvesse algum trabalho que pudesse fazer por dinheiro, algum trabalho vulgar, do tipo chamado comércio. Se ao menos lhe fosse permitido sentar-se a uma cadeira, e ali, todo o dia, somar cifras, subtrair, multiplicar, dividir, talvez então não viesse a morrer de fome. Poderia comprar comida, todas as espécies de comida: iguarias nunca provadas da Noruega, Itália, França; carne de vaca preparada de todas as maneiras, carneiro, peixe, queijo; uvas, figos, peras, maçãs, melões, coisas que ele adoraria depois de satisfeita sua fome. Numa travessa, colocaria um cacho de uvas vermelhas entre dois figos negros, uma grande pêra amarela e uma maçã verde. Durante horas, levaria ao nariz uma fatia de melão. Compraria grandes formas de pão francês, legumes de todas as qualidades, comida; haveria de comprar vida.
De uma elevação divisou a cidade que se erguia a leste, majestosamente, com suas grandes torres, compacta à sua maneira, e de repente sentiu-se fora de tudo aquilo, quase, definitivamente convencido, persuadido mesmo de que jamais conseguiria ser admitido naquele mundo injusto, ou melhor, naqueles tempos injustos, muito embora tentasse o que quisesse... e agora, um rapaz de 22 anos estava sendo permanentemente rejeitado desse mundo. Este pensamento não era de entristecer. Disse consigo mesmo: “muito em breve terei de preencher um pedido de Licença para Viver”. Aceitou a ideia de morrer sem piedade de si mesmo ou dos homens, imaginando que ao menos dormiria ainda uma noite. O aluguel de um outro dia estava pago: contudo, haveria sempre outro amanhã. E além disso, podia ir onde vão os homens sem lar.
Podia mesmo visitar o Exército da Salvação ― entoar hinos a Deus e a Jesus (desafeto de minha alma), ser salvo, comer e dormir. Mas ele bem sabia que não iria lá. Sua vida era uma vida privada. Não desejava perder essa qualidade. Qualquer outra solução seria melhor.
“Pelo ar, no trapézio suspenso”, murmurou seu subconsciente. Era divertido, terrivelmente engraçado. Um trapézio até Deus ou até nada, um trapézio suspenso em alguma eternidade; rezou objetivamente pedindo coragem para empreender graciosamente aquele voo.
― Tenho um cêntimo ― disse. ― Uma moeda americana. Mais tarde eu a polirei até que venha a brilhar como um sol e decifrarei suas palavras.
Caminhava agora na própria cidade, entre gente viva. Havia um ou dois lugares aonde ir. Entreviu sua imagem no vidro das vitrinas das lojas e ficou desapontado com sua aparência. Não parecia absolutamente tão disposto como se sentia; parecia, na verdade, um débil enfermo, alguém que sofresse de cada parte do corpo, do pescoço, ombros, braços, tórax e joelhos. Isso nunca, disse, e com esforço recompôs as peças desconjuntadas, tornando-se tensa e artificialmente ereto e sólido.
Com magnífica disciplina, recusando-se mesmo a relanceá-los, passou por numerosos restaurantes, e chegando, por fim, a determinado edifício, nele entrou. Um elevador levou-o ao sétimo andar, onde ele, cruzando um vestíbulo e abrindo uma porta, penetrou no escritório de uma agência de empregos. Já uns vinte rapazes se achavam na sala; descobriu um canto onde, de pé, aguardou sua vez de ser entrevistado. Por fim, este grande privilégio lhe foi concedido e foi interrogado por uma magra e estouvada senhorita de uns cinquenta anos.
― Agora me diga ― falou ela ―, o que sabe fazer?
Sentiu-se embaraçado.
― Sei escrever ― disse enfaticamente.
― Quer dizer... sua letra é boa? É isso? ― disse a idosa senhorita.
― Bem... é ― replicou ele. ― Mas o que quero dizer é que sei escrever.
― Escrever o quê? ― disse a moça, quase com raiva.
― Prosa ― respondeu ele simplesmente.
Houve uma pausa. Por fim a moça disse:
― Sabe escrever à máquina?
― Naturalmente ― disse o rapaz.
― Está bem ―  continuou a moça, ficando com seu endereço ―; estaremos em contato com o senhor. Esta manhã não há nada, absolutamente nada.
A mesma coisa aconteceu em outra agência; apenas ele foi interrogado por um rapaz pretensioso, extremamente parecido com um porco. Das agências ele foi à administração das grandes lojas; havia um grande luxo, alguma humilhação de sua parte e finalmente a informação de que não podia ser aproveitado. Não se sentiu aborrecido, e por mais estranho que pareça nem mesmo sentiu que estava pessoalmente envolvido com toda aquela maluquice. Ele era um ser vivo, que tinha necessidade de dinheiro com que continuar a sê-lo, e nenhum meio havia de consegui-lo senão trabalhando para isso; mas não havia trabalho. Tratava-se simplesmente de um problema abstrato que pela última vez tentara resolver. Mas agora se alegrava de ver o assunto liquidado.
Começou a perceber toda a precisão do curso de sua vida. exceto por momentos, ela nunca tivera uma direção definida, mas agora, no último minuto, ele determinara que ela devia ser tão pouco imprecisa quanto possível.
Em seu caminho para a A.C.M., passou por cafés e restaurantes sem conta, e lá arranjando papel e tinta começou a preencher sua inscrição. Durante uma hora preparou esse documento, e depois, devido ao ar abafado e à fome, sentiu subitamente que ia desmaiar. Sentia-se como se nadasse para fora de si mesmo, em grandes braçadas, e precipitadamente abandonou o edifício. No parque Central, enquanto se encaminhava para o edifício da Biblioteca Pública, bebeu quase um litro de água e sentiu-se reconfortado. No centro do passeio de tijolos, um ancião cercado de gaivotas, pombos e pintarroxos tirava um punhado de migalhas de pão de um grande saco de papel atirando-as aos pássaros num elegante movimento.
Secretamente sentiu-se impelido a pedir ao velho uma porção das migalhas de pão mas não deixou mesmo que tal pensamento se tornasse consciente. Entrou na Biblioteca Pública e, durante uma hora, leu Proust. Mas sentindo-se novamente como se nadasse para fora de si, apressou-se em sair. Na fonte do parque bebeu mais água e começou o longo caminho para seu quarto.
“Dormirei um pouco mais”, pensou. “Não há outra coisa a fazer.” Compreendia agora estar muito cansado e fraco para procurar enganar-se a respeito de seu estado. Todavia sua razão parecia ainda, de algum modo, flexível e alerta. Ela persistia, como se fosse uma entidade diversa dele, em inventar impertinentes brincadeiras a propósito de seu sofrimento real. Às primeiras horas da tarde chegou a seu quarto e imediatamente preparou café no pequeno fogareiro a gás. Não havia leite na lata e a meia libra de açúcar comprada uma semana antes se havia acabado; tomou uma xícara de líquido quente e negro, sentando-se no leito e sorrindo.
Da Associação Cristã de Moços ele furtara umas 12 folhas de papel de carta com as quais pensava terminar sua inscrição, mas a simples ideia de escrever lhe era agora desagradável. Nada tinha a dizer. Começou a polir o pêni achado naquela manhã, e esse ato absurdo como que lhe deu um grande prazer. Nenhuma moeda americana se podia fazer brilhar tanto como um pêni. Quantos daqueles precisaria para continuar vivendo? Não haveria mais nada que pudesse vender? Olhou em volta o quarto desguarnecido. Nada. Seu relógio se fora; seus livros também. Todos aqueles belos livros; por nove deles recebera oitenta e cinco cêntimos. Sentiu-se incomodado e envergonhado de se haver separado de seus livros. Seu melhor terno fora vendido por dois dólares, mas isso compreendia. Ele não ligava absolutamente para isso de roupas. Mas os livros... Aí o caso era diferente. Deixava-o exasperado pensar que não havia respeito pelas pessoas que escrevem.
Colocou a reluzente moeda sobre a mesa, contemplando-a com o prazer de um avarento. Quão lindamente ela sorri ― disse. Sem que as lesse passou os olhos sobre as palavras E Pluribus Unun Um Cêntimo ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, e virando-a contemplou Lincoln e as palavras In God We Trust Liberty 1923. “Como é lindo”, pensou.
Começou a ficar sonolento e sentiu um angustiante mal-estar invadir seu sangue, uma impressão de náusea e desintegração. Perturbado, pôs-se de pé ao lado da cama, imaginando que nada lhe restava fazer senão dormir. Já se sentia dando aquelas grandes braçadas através de uma zona fluída do universo, nadando em direção às origens. Caiu de bruços sobre a cama, dizendo: preciso ao menos dar a moeda a alguma criança. Qualquer criança pode comprar um número sem fim de coisas com um pêni.
Então, rapidamente, elegantemente, com a graça do rapaz do trapézio suspenso, afastou-se de seu próprio corpo. Durante um minuto que lhe pareceu sem fim, ele foi todas as coisas ao mesmo tempo: pássaro, peixe, roedor, réptil, homem. Um mar de gravura ondulava diante dele, escuro e sem fim. A cidade ardia. Multidões aglomeradas revoltavam-se. O mundo se afastava girando, e vendo que se afastava também, voltou sua face perdida para o céu vazio e tornou-se sem sonhos, sem vida, perfeito.

Contos norte-americanos: os clássicos. Org. Vinicius de Moraes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p.498-503. * Nota do tradutor: “The daring young man on the flying trapeze.” Famosa canção popular americana.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Uma rosa para Emily (William Faulkner)


O conto “Uma rosa para Emily”, de William Faulkner, integra a coletânea em tela. Uma obra-prima. De minha parte, pensei em conhecida Emily, em secretas homenagens. Por que não? "O poço e o pêndulo", de Edgar Allan Poe, também comparece, e encontrei no volume um conto simplesmente único, magistral, "O ousado rapaz do trapézio suspenso", de William Saroyan, título que alude a conhecida canção popular norte-americana. A tradução de João Cabral de Melo Neto é quase musical: "Saiu a caminhar na manhã, tão desperto quanto podia, dando batidas secas com os calcanhares, recebendo com os olhos a verdade superficial das ruas e das estruturas, a verdade banal da realidade. Sem que o procurasse, viu-se a cantarolar: 'Com a maior facilidade voa no espaço imenso, o ousado rapaz do trapézio suspenso', e depois riu com toda a capacidade do ser. Estava, na verdade, uma esplêndida manhã; nublada, fria e triste, uma manhã para a vida interior; ah, Edgar Guest, murmurou, que fome de tua música.' Esplêndida é a poesia desta tradução, é intuir que há uma verdade banal da realidade.

domingo, 10 de julho de 2011

João Cabral de Melo Neto

O ARTISTA INCONFESSÁVEL 

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.58. 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

João Cabral de Melo Neto

ANTI-CHAR

Poesia intransitiva,
sem mira e pontaria:
sua luta com a língua acaba
dizendo que a língua diz nada.

É uma luta fantasma,
vazia, contra nada;
não diz a coisa, diz vazio:
nem diz coisas, é balbucio.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.72. 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Paul Klee e João Cabral de Melo Neto

The Golgfish, 1925 (imagem obtida aqui)

HOMENAGEM A PAUL KLEE

Nele houve o insano projeto
de envelhecer sem rotina;
E ele o viu, despelando-se
de toda pele que tinha.

Sem medo, lavava as mãos
do que até então vinha sendo:
de noite, saltava os muros,
saía a novos serenos.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.40.

terça-feira, 17 de maio de 2011

João Cabral de Melo Neto

QUESTÃO DE PONTUAÇÃO

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.274. 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

João Cabral de Melo Neto (Miguel Hernández)

ENCONTRO COM UM POETA

Em certo lugar da Mancha,
onde mais dura é Castela,
sob as espécies de um vento
soprando armado de areia,
vim surpreender a presença,
mais do que pensei, severa,
de certo Miguel Hernández,
hortelão de Orihuela.
A voz desse tal Miguel,
entre palavras e terra
indecisa, como em Fraga
as casas o estão da terra,
foi um dia arquitetura,
foi voz métrica de pedra,
tal como, cristalizada,
surge Madrid a quem chega.
Mas a voz que percebi
no vento da parameira
era de terra sofrida
e batida, terra de eira.
Não era a voz expurgada
de suas obras seletas:
era uma edição do vento,
que não vai às bibliotecas,
era uma edição incômoda,
a que se fecha a janela,
incômoda porque o vento
não censura mas libera.
A voz que então percebi
no vento da parameira
era aquela voz final
de Miguel, rouca de guerra
(talvez ainda mais aguda
no sotaque da poeira;
talvez mais dilacerada
quando o vento a interpreta).
Vi então que a terra batida
do fim da vida de um poeta,
terra que de tão sofrida
acabou virando pedra,
se havia multiplicado
naquelas faces de areia
e que, se multiplicando,
multiplicara as arestas.
Naquela edição do cento
senti a voz mais direta:
igual que árvore amputada, 
ganhara gumes de pedra.

MELO NETO, João Cabral. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.129-130.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

João Cabral de Melo Neto: o cante a palo seco



“A PALO SECO”
A R. Santos Torroela

1.1.  
Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;

se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

1.2.
O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.

1.3.
O cante a palo seco
é um cante desarmado:
só a lâmina da voz
sem a arma do braço;

que o cante a palo seco
sem tempero ou ajuda
tem de abrir o silêncio
com sua chama nua.

1.4.
O cante a palo seco
não é um cante a esmo:
exige ser cantado
com todo o ser aberto;

é um cante que exige
o ser-se ao meio-dia,
que é quando a sombra foge
e não medra a magia.

2.1.
O silêncio é um metal
de epiderme gelada,
sempre incapaz das ondas
imediatas da água;

a pele do silêncio
pouca coisa arrepia:
o cante a palo seco
de diamante precisa.

2.2.
Ou o silêncio é pesado,
é um líquido denso,
que jamais colabora
nem ajuda com ecos;

mais bem, esmaga o cante
e afoga-o, se indefeso:
a palo seco é um cante
submarino ao silêncio.

2.3.
Ou o silêncio é levíssimo,
é líquido e sutil
que se ecoa nas frestas
que no cante sentiu;

o silêncio paciente
vagaroso se infiltra,
apodrecendo o cante
de dentro, pela espinha.

2.4.
Ou o silêncio é uma tela
que difícil se rasga
e que quando se rasga
não demora rasgada;

quando a voz cessa, a tela
se apressa em se emendar:
tela que fosse de água,
ou como tela de ar.

3.1.
A palo seco é o cante
de todos mais lacônico,
mesmo quando pareça
estirar-se um quilômetro:

enfrentar o silêncio
assim despido e pouco
tem de forçosamente
deixar mais curto o fôlego.

3.2.
A palo seco é o cante
de grito mais extremo:
tem de subir mais alto
que onde sobe o silêncio;

é cantar contra a queda,
é um cante para cima,
em que se há de subir
cortando, e contra a fibra.

3.3.
A palo seco é o cante
de caminhar mais lento:
por ser a contrapelo,
por ser a contravento;

é cante que caminha
com passo paciente:
o vento do silêncio
tem a fibra de dente.

3.4.
A palo seco é o cante
que mostra mais soberba;
e que não se oferece:
que se toma ou se deixa;

cante que não se enfeita,
que tanto se lhe dá;
é cante que não canta,
cante que aí está.

4.1.
A palo seco canta
o pássaro sem bosque,
por exemplo: pousado
sobre um fio de cobre;

a palo seco canta
ainda melhor esse fio
quando sem qualquer pássaro
dá o seu assovio.

4.2.
A palo seco cantam
a bigorna e o martelo,
o ferro sobre a pedra,
o ferro contra o ferro;

a palo seco canta
aquele outro ferreiro:
o pássaro araponga
que inventa o próprio ferro.

4.3.
A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,

as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.

4.4
Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:

não o de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.


MELO NETO, João Cabral. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.231-235.

sábado, 29 de janeiro de 2011

João Cabral de Melo Neto

Infância

Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem.

Seriam hélices
aviões locomotivas
timidamente precocidade
balões-cativos si-bemol?

Mas meus dez anos indiferentes
rodaram mais uma vez
nos mesmos intermináveis carrosséis.

MELO NETO, João Cabral. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.6-7.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

João Cabral de Melo Neto

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 7.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

João Cabral de Melo Neto: Graciliano Ramos

Graciliano Ramos:

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto de cicatriz clara.

*

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordeste, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.

*

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

*

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.302-303.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

João Cabral de Melo Neto

PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO

I

Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.


II

Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.

Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.

Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;

como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.


III

Neste papel
pode teu sal
virar cinza;

pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.

(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)


IV

O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; romper
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)


V

Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.


VI

Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.


VII

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.


VIII

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
cai, fruto!

Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.60-64.