Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 22 de outubro de 2011

obedecer desobedecer

Você obedece, instintivamente obedece, até que um dia não concorda, aprende a não concordar, desobedece, arca com a desobediência até não poder mais, volta a obedecer com a sensação de ser um desobediente rendido, obediente tendo latente em si a desobediência, experimenta de novo a desobediência, sente frio, sente dor, percebe que os limites testam o próprio corpo, a alma é agreste mas o corpo é civil, deseja então um outro corpo, um corpo apto para a desobediência, mas percebe que ce n’est pas possible, é com esse pobre e frágil corpo que terá que se haver, sabendo que as duas coisas, obediência e desobediência, têm endereço certo no corpo, pois que precisam dele para sustentar seu movimento. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

lados

Do lado de cá há muito o que falar ― falta apenas encontrar o idioma. 

sábado, 17 de setembro de 2011

minimalismo

Releio a parte final do meu texto de abertura. Este blog não pretende nada. Um camarada me escreveu há cerca de dois meses dizendo coisas supimpas do meu texto de abertura, Lacan e tal. Lisonjeada. Mas é o seguinte: este meu mar costuma ser bem caprichoso ― o que de fato busco aqui obedece a demandas muito próprias. Tenho vontade de escrever, simplesmente, pelo prazer de escrever, de alinhar palavras e frases umas após as outras e ver o que sai. E não me esqueço de uma entrevista lida há bastante tempo com Raduan Nassar, então com dois livros publicados, que disse com todas as letras que tinha abandonado as letras para criar galinhas, além de outras temeridades. Poucas vezes vi tanta força no discernimento de um destino. Aquela entrevista me ajudou a saber mais de mim.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

canção do exílio

O exílio da infância está na origem de todos os outros; é quando se aprendeu a língua mãe, pátria que se confunde com o rincão em que se nasceu. Se por acaso este lugar se chamar Espírito Santo, o exilado pode sentir-se íntimo de qualquer coisa que assume o aspecto de uma distância impossível: “Quando tudo passou a ser infinito e nada terra”.  O Espírito Santo continua ali, no mapa ― “Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa” ―, ao alcance de um telefonema, de uma passagem de ônibus, mas o mapa dos afetos confundiu as possibilidades, e viver tornou-se um verbo imperativo. A infância, tempo primevo da estreia num palco exclusivo, quando ainda não se sabe o que é palco ou improviso ou personagem, e está-se ali, brincando de aprendizagem, sob os mais diferentes disfarces, para mais tarde, embora isso dificilmente pudesse ser pressentido, desejar reencontrar no espelho a face, escondida por muitos e por vezes difusos papeis, da infância. Eu não sabia nada da infância, até percebê-la acabando... Ainda e sempre, o poema que abre o filme Asas do Desejo, "Song of Childhood": “When the child was a child, / it did not know that it was a child.” 


Versos citados de Vinicius de Moraes, respectivamente “Pátria Minha” e “Mensagem a Rubem Braga”. Vinicius de Moraes. Nova antologia poética. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

sintonia fina

Chegar em casa, demitindo o barulho da rua, o dia, as pessoas, o excesso, o cansaço, menos valia do trabalho. Então apenas o despretensioso que pudesse ser esta combinação de palavras: l e v e z a. Gosto de músicas antigas.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Rio de Janeiro

Escrevo mentalmente um post, familiar à declaração de amor à outra cidade, enquanto, dormindo, me aproximo de você. Você me recebe com seu calor infernal de janeiro, me desnorteando, e eu, do alto dos meus 40 anos, ponho firme os pés em seu solo, fazendo-o um pouco mais meu, o coração pacificado por força de estar chegando em casa.