Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Mário de Andrade - Quarenta Anos

A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar… Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado… Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!… Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.


Poesias completas, vol.1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, p. 437-438. [1933]

terça-feira, 18 de abril de 2017

Cecília Meireles - Neste longo exercício de alma...

Ciência, amor, sabedoria,
— tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)

Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
vence-se o abismo:
— cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.

Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.

Cecília Meireles. Antologia poética. 3.ed. São Paulo: Global, 2013, p.309.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Armando Freitas Filho, na abertura da FLIP:

"A minha poesia, eu a entendo como a que toca todas as coisas, inclusive as mais monstruosas. Que pode tocar um Temer, por exemplo", declarou.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

"amor, essa palavra de luxo"

Em país de traidores, fica difícil rezar o “Pai-nosso”. Bastaria o segundo mandamento, “amar o próximo como a ti mesmo.” Mas o próximo é relativo, mutável, mutante. Num país sem face, amar é um luxo para poucos. 

Citação: Adélia Prado, "Ensinamento".

domingo, 24 de abril de 2016

Augusto dos Anjos

O POETA DO HEDIONDO

Sofro aceleradíssimas pancadas 
No coração. Ataca-me a existência 
A mortificadora coalescência 
Das desgraças humanas congregadas! 

Em alucinatórias cavalgadas, 
Eu sinto, então, sondando-me a consciência 
A ultra-inquisitorial clarividência 
De todas as neuronas acordadas! 

Quanto me dói no cérebro esta sonda! 
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda 
Generalização do Desconforto... 

Eu sou aquele que ficou sozinho 
Cantando sobre os ossos do caminho 
A poesia de tudo quanto é morto! 

Augusto dos Anjos. Eu e outras poesias. Rio de Janeiro: Betrand Brasil, 2010, p.193.


Hediondo. Adjetivo. 1 que apresenta deformidade; que causa horror; repulsivo, horrível. Ex.: rosto h. 2. Derivação: sentido figurado. que provoca reação de grande indignação moral; ignóbil, pavoroso, repulsivo. Ex.: traição h., crime h. 

ode ao cuspe


ODE AO CUSPE
(via textão, do Cronisias)

“Soprar ou cuspir em alguma coisa, dizia Jung, tem um efeito mágico, como, por exemplo, quando Cristo utilizava sua saliva para curar um cego”

por Gilson Iannini
Para Jean

Em sua Psicologia da composição, João Cabral de Melo Neto termina seu manifesto contra a poesia dita profunda do seguinte modo:

Poesia, te escrevo
agora: fezes, as
fezes vivas que és.
Sei que outras

palavras és, palavras
impossíveis de poema.
Te escrevo, por isso,
fezes, palavra leve,

contando com sua
breve. Te escrevo
cuspe, cuspe, não
mais; tão cuspe

como a terceira
(como usá-la num
poema?) a terceira
das virtudes teologais.

Trata-se de um poema programático, contra o lirismo burguês (comedido ou desmedido, tanto faz). O poema começa desconstruindo a metáfora que equivale a poesia e a flor, e prossegue num vertiginoso procedimento metonímico que consiste em constituir uma série que vai das fezes ao cuspe. Na última estrofe, a terceira das virtudes teologais – o amor ou a caridade – é evocada através de sua “descrição definida”, sem que seu nome possa sequer ser enunciado. Como se um novo mandamento poético se impusesse: “poesia, não evocarás o santo nome do amor em vão”! Uma descrição definida é um conceito lógico que designa o conteúdo semântico ou o valor cognitivo de um nome próprio. A estratégia do poeta visa denunciar o abuso banal da palavra “amor”, ubíqua na poesia ingênua.

Poesia, portanto, é flor, apenas quando flor pode significar outra coisa que um desabrochar puro da natureza. Poesia é, na verdade, fezes, cuspe. Impossível não lembrar de Jung, que escreve: “soprar ou cuspir em alguma coisa tem um efeito mágico, como, por exemplo, quando Cristo utilizava sua saliva para curar um cego”.  Dizer que a poesia é cuspe, lembra-nos Tenório, é “admitir que ela pode curar alguém, ou melhor ainda, fazê-lo ver”. Em alguns casos, portanto, cuspir é um ato de amor, uma caridade, uma virtude teologal. Em algumas circunstâncias, nas quais reina a infâmia e a desonra, apenas um cuspe foi capaz de repor o sagrado no seio do profano, a verdade no meio da falação dos fariseus.

Enquanto impera a mentira e o ódio, para que a verdade possa falar, é preciso, de alguma forma, interromper a farsa, suspender o regime discursivo que instalara a infâmia como regra do jogo. Apenas um ato, no sentido lacaniano do termo, seria capaz de estancar o fluxo regrado da farsa. Não adianta, para isso, contrapor argumentos ou apontar contradições ou inconsistências. A farsa não é sensível à argumentação lógica. Interessado em investigar as consequências psíquicas da guerra, Freud escreve: “logo, argumentos lógicos seriam impotentes perante os interesses afetivos e, por isso, a contenda com fundamentos, que segundo Falstaff são tão comuns como as amoras, é tão infrutífera no mundo dos interesses. (…) A cegueira lógica que esta guerra magicamente provocou, justamente nos nossos melhores concidadãos, é, portanto, um fenômeno secundário, uma consequência da excitação dos sentimentos que esperamos poder ver desaparecer junto com ela”.

Pois todo o universo que orbita em torno de Cunha, naquele momento, é regido pela farsa e pela hipocrisia. Num universo presidido pela hipocrisia, tudo é permitido. A palavra “hipocrisia” vem do grego. Segundo registra o Houaiss, designa a “ação de desempenhar um papel, uma peça, uma pantomima; desempenho teatral, declamação; simulação, dissimulação, falsa aparência”. A conotação de “dissimulação” consolida-se apenas na baixa Idade Média, depois que um dos principais tradutores da Bíblia para o latim, São Jerônimo, emprega o termo para designar os falsos cristãos, aqueles devotos, muitas vezes fervorosos, que pregam a palavra de Deus, mas que agem contrariando aquilo que pregam.

Quando uma sessão solene do Congresso nacional é instalada, ironicamente no horário da missa dominical, sob o signo da hipocrisia, regida por um corrupto contumaz, capaz de evocar a misericórdia divina, naquele instante tudo é corrompido, tudo é corrupção: corrupção das palavras e dos gestos, corrupção das instituições e pantomima dos ritos. Não custa lembrar o sentido filosófico da palavra corrupção: corrupção, por exemplo, é fazer com que algo que existe passe a não existir, ou algo que não existe passe a existir.

Não há decoro possível em nenhuma palavra, em nenhum procedimento. Por isso, palavras como, “Deus”, “justiça”, “liberdade” e “nobreza” estavam completamente esvaziadas de conteúdo semântico ou corrompidas: “em nome de Deus”, “em prol da justiça”, “para libertar o Brasil”, “meus nobres deputados aqui presentes” etc. são expressões que designam, no melhor dos casos, nada; no pior dos casos, o contrário do que dizem. Não custa também lembrar que, como demonstrou Freud, às vezes, quando vigora a lógica inconsciente, palavras podem reativar sentidos antitéticos, significando justamente o contrário de seu valor de face. Aliás, o poeta Schiller lembrava que a insistência com que uma época fala da moralidade e de façanhas morais singulares seria um sintoma inequívoco de debilidade cultural.

Tudo ali era vilania e desprezo. Tudo ali era exceção. Nada ali emana do decoro. Quantos nobres deputados, sabidamente corruptos, não levantaram a voz, dedo em riste, para bradar em nome de Deus, da justiça e da liberdade, contra a corrupção? Não custa lembrar que a sessão plenária do último domingo sequer tinha por objeto analisar corrupção, de que a presidente nunca foi formalmente acusada. É de deixar pasmo qualquer ser humano pensante que apenas uma ou duas dúzias de deputados (de um lado ou de outro) tenham se referido ao objeto em pauta: uma dúzia disse que a presidente cometeu crime de responsabilidade, outra dúzia que não cometeu. Esses não faltaram com o decoro. Também não faltaram com o decoro aqueles que denunciaram o caráter farsesco do processo. Os demais fizeram o voto Xuxa: “queria mandar um beijo para minha mãe, meu pai e para você”, como rapidamente o povo percebeu. Mas nada disso deveria nos espantar. Na verdade, a votação no Congresso espelha a verdade de nossa sociedade: a absoluta maioria das pessoas, de um lado como de outro, é incapaz de meditar, de refletir, de pensar criticamente e de se ater a alguma coisa perto da sensatez ou dos fatos, agindo por ódio surdo ou por amor cego.

Nesse contexto, que um deputado possa dedicar seu voto à memória de um torturador não deveria chocar. Ao contrário, trata-se de uma consequência inevitável. O coronel Brilhante Ustra, louvado por Bolsonaro, como “o pavor de Dilma Roussef”, não é um torturador qualquer. É um dos mais conhecidos, não apenas por sua crueldade, mas também por seu papel de comando. Quando um “nobre deputado” evoca seu nome no instante em que vota pelo impedimento de uma de suas vítimas, não há humanidade, nem decoro, apenas vilania. Quando este nobre deputado confessa a similaridade entre 1964 e 2016, ele diz a verdade que outros tentam encobrir com um véu. Mais ainda. Bolsonaro foi um dos poucos que elogiou entusiasmadamente a condução do processo por Eduardo Cunha. Nada mais consistente. Nada mais significativo.

Como interromper tal espetáculo da infâmia? Quando a palavra se descobre esvaziada, escassa, flatus vocis, impossível não lembrar de Goethe: “No princípio era o ato.” No momento em que, depois da aviltante declaração de obediência ao mais hediondo dos crimes, os nobres deputados se calam diante da infâmia, “as pedras gritam”. Esta metáfora remonta ao episódio da descida do monte das Oliveiras e da triunfal entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-9; Mc 11,1-10). Enquanto a multidão louvava, alguns fariseus pediram a Jesus que repreendesse o fervor de seus discípulos. Ao que ele respondeu “se eles se calam, as pedras gritam”. Jean Wyllis não se calou. Foi o poeta da educação pela pedra, no sentido poético de João Cabral. O cuspe contra a bala, já que a palavra não tem valor nenhum.

Mas o cuspe de Jean Wyllis acabou ferindo a fina e seletiva sensibilidade da burguesia nacional. O cuspe seria um ato de alguém sem caráter, de um veado desqualificado, que não recebeu educação em casa e coisas que tais. É mais ou menos o que se lê nos comentários de internautas nos grandes jornais. Curioso. Essa sensibilidade escandalizada pelo cuspe, todavia, acolhe com indiferença, ou até mesmo com fingido escândalo, o elogio proferido por Bolsonaro ao torturador Brilhante Ustra. Não basta dizer que ele foi um torturador e que, por mimese, Bolsonaro também sonha em sê-lo. Se fizermos uma “descrição definida” desse nome, essa descrição tinha que conter coisas como: cadeira do dragão, choques na genitália, mamilos dilacerados, crânios apertados com torniquete, unhas arrancadas, ossos quebrados, assassínios cruéis em nome do Estado etc. Tinha que conter nomes como Auroras, Amélias, Claras, Dilmas, entre tantos outros. Quando Bolsonaro refere aquele nome, ele evoca tudo isso. Ele traz para dentro do Congresso Nacional o elogio à tortura e a apologia ao crime. Com um sorriso no rosto e com o benemérito da elite financeira de nosso país.

Alguém pode dizer que Bolsonaro é um caso isolado. Não é. Ele figura com algo entre 6% e 8% das intenções de voto, em quarto lugar em todos os cenários pesquisados pelo Datafolha. Não é pouco, para alguém que é declaradamente fascista. Mas o pior não é isso. Como notou recentemente Fernando de Barros e Silva, “entre os que têm renda familiar mensal superior a 10 salários mínimos (…), Bolsonaro lidera a corrida presidencial. Num dos cenários, chega a ter 23% das preferências dos eleitores mais aquinhoados.” (Veja aqui). Quer dizer que quase um quarto da elite econômica brasileira gostaria de ver um fascista, que faz apologia da tortura mais cruel, na presidência da República. Não espante que batam panelas, que inflem patos, que presenteiem seus filhos com bonecos infláveis de Lula presidiário. Tudo isso embrulhados na bandeira nacional e entoando o hino.

Jean Wyllis não quebrou o decoro parlamentar. Porque o decoro não havia sequer sido instalado. Não há como quebrar algo que não existe. Eduardo Cunha, sim, quebrou o decoro com sua primeira frase, com o simples gesto de sentar-se à cadeira e de presidir o processo. Na falta de decência, foi seguido por muitos. Segundo, outra vez, o Houaiss, decoro designa não apenas decência, acatamento das normas e seriedade nas maneiras, mas também “adequação do tema ao estilo literário”. Neste sentido, a imensa maioria dos deputados quebrou o decoro. Quantos observaram alguma decência, alguma seriedade, alguma adequação ao tema? Uma irrisória minoria, tanto de sins, quanto de nãos.

Nesse sentido, o gesto de Jean Wyllis é um ato poético, um ato de caridade e de amor. Um ato verdadeiramente cristão. Tanto mais quanto não foi apenas obra do calor do momento, mas foi efeito de um cálculo político rigoroso. Ele interrompe a razão desvairada e repõe a verdade em seu devido lugar: mostra que infâmia é infâmia, que farsa é farsa, que violência é violência, que guerra é guerra. Sem mais. Ele redime todos os brasileiros que repudiam a tortura e o golpe, qualquer que seja sua face.

Obtuso, o nobilíssimo deputado Bolsonaro talvez não tenha percebido o verdadeiro significado do cuspe que recebeu em pura dádiva. Ele foi presenteado com um raro ato de caridade cristã. Ele foi presenteado com uma flor de saliva, que devolveu com poesia as fezes que esgotam e abundam em cada uma de suas palavras infames (e também nos gestos de seus descendentes e fiéis). A saliva de Jean faz ver seu rosto ainda mais Brilhante, faz l’Ustrar seu verdadeiro eu.

O cuspe pode curar, como faz uma mãe zelosa ao passar um pouquinho de saliva no dodói de sua criança. O cuspe pode ensinar a ver que em seu espelho, no lugar do seu rosto, figuram a cadeira do dragão, os choques nas genitais, os olhos saltados, as crianças pequenas obrigadas a presenciar o suplício de suas mães. Pode ensinar a seus fãs que seu amor às crianças, evocado em seu pronunciamento, não passa de uma piada de mau gosto. Deus permita que a saliva de Jean Wyllis possa lavar seu rosto, salvar sua alma, desarmar seu coração e seu cinturão. Recebe, Jair, essas flores cuspidas com carinho.

Na noite da infâmia, só o cuspe me representa.

http://revistacult.uol.com.br/home/2016/04/ode-ao-cuspe/

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Murilo Mendes

LAMENTAÇÃO

Nenhum homem tem mais saída:
Antes de nós o dilúvio.
Durante, o tédio no caos.
Depois, o épico escuro.
A esperança desespera,
Os olhos não são para ver
Nem os ouvidos para ouvir.

O diálogo virou monólogo,
Meio-dia é meia-noite.
Todos curvados constroem
Suas próprias algemas.
O longo ai das criaturas
Sobe para o céu
Forrado de espadas.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.386.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Armando Freitas Filho

MARÇO

O verão ainda atira
com todos os canhões:
chumbo, céu e chão
e as chuvas não quebram
o teto do ar livre
de um negro tão preto
que só pensando
num branco absoluto
para obtê-lo, sem nuvens
para registro nesta folha
enquanto um rio que não molha
mas agulha
passa e arrepia tudo
com suas águas que são pontas
― pregos ― por favor
não olhe o que só quer sofrer
a seco, sem lágrimas.

FREITAS FILHO, Armando. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.449-450.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Orides Fontela

PARTILHA

Partilharemos somente
o que em nós se
continua:
a singeleza
a luta
a esperança.

Partilharemos somente
esta maior intensidade:
absoluta palavra
que nos pertence integralmente.

Partilharemos somente
o pão unificado
e a água sem face.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.258.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade

POEMA DA NECESSIDADE

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião. 10 livros de poesia. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.47.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

João Cabral de Melo Neto

DUPLICIDADE DO TEMPO

O níquel, o alumínio, o estanho,
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injeta em cada um seu veneno.

A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejetos,
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.105.

domingo, 29 de novembro de 2015

Manuel Bandeira

CANTIGA

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d’alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar. 

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.152.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Paulo Leminski

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.84.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

José Paulo Paes

canção de exílio facilitada

lá?
ah!

sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...

cá?
bah!

PAES, José Paulo. Meia palavra [1973]. ___. Poesia completa: São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.194. 

sábado, 26 de setembro de 2015

Paulo Henriques Britto

SONETILHO DE VERÃO

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.

A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

Paulo Henriques Britto. Trovar claro. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.81.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Orides Fontela

PORTA

O estranho
bate:
na amplitude interior
não há resposta.

É o estranho (o irmão) que bate
mas nunca haverá
resposta:

muito além é o país
do acolhimento.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.347.