Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 11 de agosto de 2012
o lado mais frágil da existência
Tenho
uma amiga que tem o dom da palavra, o que é menos comum do que se imagina. A
cada vez que a encontro consigo saber um pouco mais de mim, o que é outro modo
de dizer que consigo saber mais do mundo. E não posso deixar de considerar um
achado, um privilégio, ter conseguido construir uma amizade assim. Da última vez em
que estivemos juntas, conversávamos sobre o ritual dos aniversários, porque eu
completava anos naquele dia, e havia decidido fazer diferente. Atenta a um
movimento subjetivo que não é recente, a data ― que é uma passagem, a cada ano diferente ― foi perdendo para mim a
necessidade de estar em cena, na cena dos outros, para melhor exprimir. Foi deixando
de ser encenação de um “eu” que... ― tudo isso é muito complicado de dizer, e
há sempre o perigo de as palavras não alcançarem aquele ponto delicado em que
as coisas fazem enorme sentido para nós mesmos. E por isso pude perceber a
força expressiva do que minha amiga disse, me compreendendo mais do que eu
mesma: a gente já passou dessa fase mais frágil da existência.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Magro Waghabi (†) - Canto dos Homens (MPB4)
nota de falecimento no site do grupo. o lamento é de todos.
sobre a(s) experiência(s)
A nossa civilização vive um momento de, digamos, um
liberalismo excessivo, uma overdose de liberalismo. No plano individual, é
mais do que sabido que todo mundo ― e qualquer um ― faz o que bem entender da própria
vida, apenas assumindo o pressuposto básico de que isso é ao mesmo tempo uma
prerrogativa individual e de todos. Mas, como a gente às vezes acaba senso mais
indivíduo que coletivo, mais solidão que multidão, é bom saber que na hora de cair
pode não haver qualquer rede, ou haver, mas frágil, e não sustentar a queda.
Em tempo: estou reencontrando o prazer de ler, o
prazer da boa literatura, no romance de Ricardo Piglia, Respiração artificial.
bob dylan: the 30th anniversary concert
a versão tupiniquim não traz o excelente momento da belíssima my back pages...
no blog enquanto o youtube permitir... a gangue toda em grande estilo
terça-feira, 7 de agosto de 2012
ricardo piglia: respiração artificial
“Estou convencido de que nunca nos acontece nada que
não tenhamos previsto, nada para o que não estejamos preparados. Couberam-nos
tempos ruins, como a todos os homens, e é preciso aprender a viver sem ilusões.”
Ricardo Piglia. Respiração
artificial. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia de Bolso, 2010, p.22.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
domingo, 5 de agosto de 2012
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
os excessos do saber
O lado delicado da palavra pode ser o silêncio, mas isso é só quando a pessoa sabe.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
terça-feira, 31 de julho de 2012
intensidade
Um poema, um verso, uma palavra ― qualquer traço que, na ponta
extrema dos dedos, possa (aqui falha o
verbo...), possa dar conta da intensidade do dia que ora finda. Coisas que
não se dizem impunemente, mas que pedem para ser ditas, nem que seja através do
ruído. É preciso fazer respirar
profundamente o verbo, para que ele possa reverberar para além dos circuitos da
razão.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
lendo clarice lispector antes de dormir
“Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera,
aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e
porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir
apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.”
Clarice Lispector. A
descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.141. Da crônica “Eu sei
o que é primavera”.
domingo, 29 de julho de 2012
clarice lispector, macacos, rio de janeiro
Vou ao dicionário
saber mais sobre os saguis (agora sem trema) antes de começar, para não correr
o risco de falar do primata errado. Descubro-os,
entre outras coisas, pertencentes à família dos calitriquídeos: pequenos primatas, florestais, da família
dos calitriquídeos, com cerca de 20 espécies, encontradas nas Américas Central
e do Sul; com até 37 cm de comprimento do corpo, cauda longa e não preênsil,
pelagem macia e densa, de colorido variável, unhas em forma de garra e polegar
não oponível; vivem em pequenos grupos e se alimentam principalmente de insetos
e frutas. Então, são mesmo saguis os pequenos
primatas que ouço e vejo (mais ouço que vejo) todo dia nas imediações de onde
moro. Pequenos, delicados, reúnem-se nas árvores do outro lado da rua. Já me
acostumei a ouvi-los, principalmente pela manhã. A memória imediata despertada
foi o sítio de minha irmã em Domingos Martins. É como se pudesse ter um torrão
de lá aqui, no andar alto de um prédio localizado em via bastante movimentada.
E foi talvez pela súbita familiaridade com os saguis, com sua companhia
benfazeja, que a notícia da morte por envenenamento de seis macacos no bairro Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, ancorou mais que outras
notícias, afinal sequer moro no bairro. Mas moro na mesma cidade, e se
já havia lido outras vezes a crônica “Macacos” de Clarice Lispector, agora a cidade
enveredou-se ao texto: “Meus sentimentos desviavam o olhar. A inconsciência
feliz e imunda do macacão-pequeno tornava-me responsável pelo seu destino, já
que ele próprio não aceitava culpas. Uma amiga entendeu de que amargura era feita
a minha aceitação, de que crimes se alimentava meu ar sonhador, e rudemente me
salvou: meninos do morro apareceram numa zoada feliz, levaram o homem que ria,
e no desvitalizado Ano Novo eu pelo menos ganhei uma casa sem macaco.” (Os melhores contos de Clarice Lispector.
3.ed. São Paulo: Global, 2001, p.99).
Orides Fontela
A CHUVA
lavou-me
toda
sem deixar
vestígios
de ontem.
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify:
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.234.
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