que seja pelo mero prazer de apreciar um bom curta
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 18 de agosto de 2012
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
João Cabral de Melo Neto
A VIAGEM
Quem é alguém que
caminha
toda a manhã com
tristeza
dentro de minhas
roupas, perdido
além do sonho e da
rua?
Das roupas que vão
crescendo
como se levassem nos
bolsos
doces geografias,
pensamentos
de além do sonho e
da rua?
Alguém a cada momento
vem morrer no longe
horizonte
do meu quarto, onde
esse alguém
é vento, barco,
continente.
Alguém me diz toda a
noite
coisas em voz que
não ouço.
Falemos na viagem,
eu lembro.
Alguém me fala na
viagem.
MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1997, p.33.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
foucault citando um historiador
“Nos nossos dias ― disse em 1960 ― a
saúde substituiu a salvação.” FOUCAULT,
Michel. Nietzsche, Freud e Marx. Theatrum
Philosoficum. Trad. Jorge Lima Barreto. Porto: Anagrama, 1980, p.34.
caminho, desvio, atalho?
Preciso encontrar (reencontrar?) a trilha das palavras, uma após outra... com ou sem sentido.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
respiração artificial
Respiração artificial,
de Ricardo Piglia, é diferente de tudo que já li: posso dizer mesmo uma grata
surpresa. É um romance político, e embora certos nomes citados possam não ser
familiares ao leitor não argentino, isso não impede, de forma alguma, perceber e
apreciar a intrincada trama literária que o escritor arma para tenta capturar
a história, ou melhor, as águas da história, como uma das personagens diz. Há
passagens memoráveis, como esta:
“E
então? Um círculo. Uma morte atrás da outra. Muito bem: onde começa essa cadeia
que encadeia os anos para vir se encerrar comigo? Como começa? Não deveria ser
essa a substância de meu relato? A origem? Porque se não, para que contar? De que serve,
jovem, contar, se não for para apagar da memória tudo o que não for a origem e
o fim?” (p.50). “(...) porque tudo que contamos se perde, se afasta. Contar, então, é para mim uma maneira de
apagar dos afluentes de minha memória aquilo que quero manter para sempre
afastado de meu corpo.” (p.48) Ricardo Piglia. Respiração artificial. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das
Letras, 2010.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
sábado, 11 de agosto de 2012
o lado mais frágil da existência
Tenho
uma amiga que tem o dom da palavra, o que é menos comum do que se imagina. A
cada vez que a encontro consigo saber um pouco mais de mim, o que é outro modo
de dizer que consigo saber mais do mundo. E não posso deixar de considerar um
achado, um privilégio, ter conseguido construir uma amizade assim. Da última vez em
que estivemos juntas, conversávamos sobre o ritual dos aniversários, porque eu
completava anos naquele dia, e havia decidido fazer diferente. Atenta a um
movimento subjetivo que não é recente, a data ― que é uma passagem, a cada ano diferente ― foi perdendo para mim a
necessidade de estar em cena, na cena dos outros, para melhor exprimir. Foi deixando
de ser encenação de um “eu” que... ― tudo isso é muito complicado de dizer, e
há sempre o perigo de as palavras não alcançarem aquele ponto delicado em que
as coisas fazem enorme sentido para nós mesmos. E por isso pude perceber a
força expressiva do que minha amiga disse, me compreendendo mais do que eu
mesma: a gente já passou dessa fase mais frágil da existência.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Magro Waghabi (†) - Canto dos Homens (MPB4)
nota de falecimento no site do grupo. o lamento é de todos.
sobre a(s) experiência(s)
A nossa civilização vive um momento de, digamos, um
liberalismo excessivo, uma overdose de liberalismo. No plano individual, é
mais do que sabido que todo mundo ― e qualquer um ― faz o que bem entender da própria
vida, apenas assumindo o pressuposto básico de que isso é ao mesmo tempo uma
prerrogativa individual e de todos. Mas, como a gente às vezes acaba senso mais
indivíduo que coletivo, mais solidão que multidão, é bom saber que na hora de cair
pode não haver qualquer rede, ou haver, mas frágil, e não sustentar a queda.
Em tempo: estou reencontrando o prazer de ler, o
prazer da boa literatura, no romance de Ricardo Piglia, Respiração artificial.
bob dylan: the 30th anniversary concert
a versão tupiniquim não traz o excelente momento da belíssima my back pages...
no blog enquanto o youtube permitir... a gangue toda em grande estilo
terça-feira, 7 de agosto de 2012
ricardo piglia: respiração artificial
“Estou convencido de que nunca nos acontece nada que
não tenhamos previsto, nada para o que não estejamos preparados. Couberam-nos
tempos ruins, como a todos os homens, e é preciso aprender a viver sem ilusões.”
Ricardo Piglia. Respiração
artificial. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia de Bolso, 2010, p.22.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
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