Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

João Cabral de Melo Neto

A VIAGEM

Quem é alguém que caminha
toda a manhã com tristeza
dentro de minhas roupas, perdido
além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
como se levassem nos bolsos
doces geografias, pensamentos
de além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
vem morrer no longe horizonte
do meu quarto, onde esse alguém
é vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.33. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

respiração artificial

Respiração artificial, de Ricardo Piglia, é diferente de tudo que já li: posso dizer mesmo uma grata surpresa. É um romance político, e embora certos nomes citados possam não ser familiares ao leitor não argentino, isso não impede, de forma alguma, perceber e apreciar a intrincada trama literária que o escritor arma para tenta capturar a história, ou melhor, as águas da história, como uma das personagens diz. Há passagens memoráveis, como esta:  

“E então? Um círculo. Uma morte atrás da outra. Muito bem: onde começa essa cadeia que encadeia os anos para vir se encerrar comigo? Como começa? Não deveria ser essa a substância de meu relato? A origem?  Porque se não, para que contar? De que serve, jovem, contar, se não for para apagar da memória tudo o que não for a origem e o fim?” (p.50). “(...) porque tudo que contamos se perde, se afasta. Contar, então, é para mim uma maneira de apagar dos afluentes de minha memória aquilo que quero manter para sempre afastado de meu corpo.” (p.48) Ricardo Piglia. Respiração artificial. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

sábado, 11 de agosto de 2012

caetano veloso: não identificado

o lado mais frágil da existência

Tenho uma amiga que tem o dom da palavra, o que é menos comum do que se imagina. A cada vez que a encontro consigo saber um pouco mais de mim, o que é outro modo de dizer que consigo saber mais do mundo. E não posso deixar de considerar um achado, um privilégio, ter conseguido construir uma amizade assim. Da última vez em que estivemos juntas, conversávamos sobre o ritual dos aniversários, porque eu completava anos naquele dia, e havia decidido fazer diferente. Atenta a um movimento subjetivo que não é recente, a data ― que é uma passagem, a  cada ano diferente ― foi perdendo para mim a necessidade de estar em cena, na cena dos outros, para melhor exprimir. Foi deixando de ser encenação de um “eu” que... ― tudo isso é muito complicado de dizer, e há sempre o perigo de as palavras não alcançarem aquele ponto delicado em que as coisas fazem enorme sentido para nós mesmos. E por isso pude perceber a força expressiva do que minha amiga disse, me compreendendo mais do que eu mesma: a gente já passou dessa fase mais frágil da existência.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Magro Waghabi (†) - Canto dos Homens (MPB4)

nota de falecimento no site do grupo. o lamento é de todos.

sobre a(s) experiência(s)

A nossa civilização vive um momento de, digamos, um liberalismo excessivo, uma overdose de liberalismo. No plano individual, é mais do que sabido que todo mundo e qualquer um faz o que bem entender da própria vida, apenas assumindo o pressuposto básico de que isso é ao mesmo tempo uma prerrogativa individual e de todos. Mas, como a gente às vezes acaba senso mais indivíduo que coletivo, mais solidão que multidão, é bom saber que na hora de cair pode não haver qualquer rede, ou haver, mas frágil, e não sustentar a queda.

Em tempo: estou reencontrando o prazer de ler, o prazer da boa literatura, no romance de Ricardo Piglia, Respiração artificial.

bob dylan: the 30th anniversary concert

a versão tupiniquim não traz o excelente momento da belíssima my back pages... 
no blog enquanto o youtube permitir... a gangue toda em grande estilo

terça-feira, 7 de agosto de 2012

segunda-feira, 6 de agosto de 2012