Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
pensar contra si
"Somos
adestrados durante um tempo excessivamente longo na estupidez, e no fim ela se
transforma numa segunda natureza... A primeira coisa que pensamos está sempre
errada... é um reflexo condicionado. É preciso pensar contra si mesmo e viver na terceira pessoa." (Respiração artificial, Ricardo Piglia)
terça-feira, 21 de agosto de 2012
respirando profundamente na linguagem
A
palavra que vence e atravessa a resistência da linguagem ― é o que hoje
me ocorreu, por analogia ao esforço que fazia dentro da água. Incomparável o
bem-estar de uma aula de natação... Ainda assim, imperando o corpo e o esforço
físico, eu divagava sobre a resistência que a linguagem oferece a quem quiser dela
mais que a superfície movente do pensamento.
Fernando Pessoa
Que dia este! Quantas coisas foram
Irregulares no acontecer!
Fernando Pessoa. Poesia: 1931-1935. São Paulo: Companhia
das Letras, 2009, p.358.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
domingo, 19 de agosto de 2012
«Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão»
Este post deu-me, por pura necessidade de começar de
algum lugar, o ensejo de perfilar
palavras que me inquietam há cerca de dois dias. Trata-se de uma intuição em
aparência simples: é sexta-feira e estou voltando, já no final do dia, para
casa, vindo do dentista. Estou descendo a Grajaú-Jacarepaguá. O motorista é
rápido. É quando percebo que o horário e o contexto receitariam o
percurso inverso, já que estou dando as costas aos inúmeros e cheios de apelo
signos culturais da cidade, anunciados com bastante eloquência na primeira
edição do telejornal, para tão somente vir (ou voltar) para casa, à qual finalmente,
e convicta, chego, o que não implica qualquer conclusão.
lobos
Ontem dormi durante o dia, o que é garantia de insônia
à noite. À noite, o sono teimava em não vir, enquanto eu ia lendo trechos avulsos
de Deleuze, até não poder mais. A dada altura, comecei a ouvir uma espécie de grito intermitente,
desconfortável. Havia acabado de ler um trecho sobre o homem que sonha com
lobos, em “Cinco proposições sobre a psicanálise”: “(...) quando o Homem dos
lobos sonha com seis ou sete lobos, o que é por definição uma matilha, a saber,
um certo tipo de grupo, Freud só pensa em reduzir esta multiplicidade, em
reconduzir tudo a um só lobo, que será forçosamente o pai.” Qualquer que seja a
riqueza sugestiva do trecho e suas implicações interpretativas, o fato é que a
própria contiguidade de tudo deu-me os lobos: os gritos intermitentes que ia
ouvindo, no limite do estridente, vinham da rua: tratava-se de um grupo que
voltava, vindo muito lentamente e em passos errantes, e um deles gritava a
intervalos curtos. Por que o fazia? A quem queriam atingir, aqueles gritos? Ou
não queriam nada, apenas eco do insuportável silêncio da madrugada vazia? Nunca
poderei saber. Insone ou não, a madrugada é um campo em que lobos correm
uivando violentamente. Voltando a dormir, sonhei com outra espécie de lobos, mais
familiares e perigosos.
pausa para respirar
O cotidiano é o lugar por excelência da vida. Certa
recorrência, as tarefas rotineiras e a ausência de brilho são traços do viver
miúdo. Um outro traço seria a aleatoriedade da ação, no sentido de que não há
urgência, pressa ou mesmo uma ordenação hierárquica que obrigue as coisas a
serem dessa e não daquela maneira. E é nessas brechas, na disponibilidade para
o imprevisto, que o cotidiano pode surpreender ― ou ser surpreendido ― no sentido de que o próprio
imprevisto pode irromper. Dá-se a coincidência de uma pausa com uma música, por
exemplo, ou uma música que leva a uma pausa, e alguma coisa começa a acontecer:
está-se respirando, respirando, respirando... E no movimento da respiração
percebe-se, finalmente, o cansaço, cansaço do contínuo sem pausas para respirar.
sobre as ilhas desertas (deleuze)
“A ideia de uma segunda origem dá todo seu sentido à ilha
deserta, sobrevivência da ilha santa num mundo que tarda para recomeçar. No
ideal do recomeço há algo que precede o próprio começo, que o retoma para
aprofundá-lo e recuá-lo no tempo. A ilha deserta é a matéria desse imemorial ou
desse mais profundo.”
DELEUZE, Gilles. A ilha deserta e outros textos.
Org. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Iluminaras, 2006, p.22.
sábado, 18 de agosto de 2012
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
João Cabral de Melo Neto
A VIAGEM
Quem é alguém que
caminha
toda a manhã com
tristeza
dentro de minhas
roupas, perdido
além do sonho e da
rua?
Das roupas que vão
crescendo
como se levassem nos
bolsos
doces geografias,
pensamentos
de além do sonho e
da rua?
Alguém a cada momento
vem morrer no longe
horizonte
do meu quarto, onde
esse alguém
é vento, barco,
continente.
Alguém me diz toda a
noite
coisas em voz que
não ouço.
Falemos na viagem,
eu lembro.
Alguém me fala na
viagem.
MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1997, p.33.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
foucault citando um historiador
“Nos nossos dias ― disse em 1960 ― a
saúde substituiu a salvação.” FOUCAULT,
Michel. Nietzsche, Freud e Marx. Theatrum
Philosoficum. Trad. Jorge Lima Barreto. Porto: Anagrama, 1980, p.34.
caminho, desvio, atalho?
Preciso encontrar (reencontrar?) a trilha das palavras, uma após outra... com ou sem sentido.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
respiração artificial
Respiração artificial,
de Ricardo Piglia, é diferente de tudo que já li: posso dizer mesmo uma grata
surpresa. É um romance político, e embora certos nomes citados possam não ser
familiares ao leitor não argentino, isso não impede, de forma alguma, perceber e
apreciar a intrincada trama literária que o escritor arma para tenta capturar
a história, ou melhor, as águas da história, como uma das personagens diz. Há
passagens memoráveis, como esta:
“E
então? Um círculo. Uma morte atrás da outra. Muito bem: onde começa essa cadeia
que encadeia os anos para vir se encerrar comigo? Como começa? Não deveria ser
essa a substância de meu relato? A origem? Porque se não, para que contar? De que serve,
jovem, contar, se não for para apagar da memória tudo o que não for a origem e
o fim?” (p.50). “(...) porque tudo que contamos se perde, se afasta. Contar, então, é para mim uma maneira de
apagar dos afluentes de minha memória aquilo que quero manter para sempre
afastado de meu corpo.” (p.48) Ricardo Piglia. Respiração artificial. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das
Letras, 2010.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
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