Tateando,
tateando, se chega a um lugar de liberdade. Eu reconheço muitos senhores subjacentes aos movimentos que faço, o que
já é uma forma de driblá-los, destituí-los do lugar que ocupam. Da soberania
nacional pouco sei, não sou muito de acreditar em ficções políticas. Já a
ficção de ter um contorno subjetivo a que denomino “eu”, dessa ficção eu
preciso até mesmo para poder escrever esta frase.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
hoje a lembrança dessa música veio como água mansa
alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho...
para o dia de hoje
Ah, que penitenciária os desejos!
Que manicômio o sentido da vida!
Álvaro de
Campos
respiração da palavra, respiração da vida
Ler, sem um
qualquer desdobramento, traz uma sensação de intoxicação. Cada um precisa
encontrar sua maneira de desintoxicar-se das leituras que fez/faz. De uma palavra a
um livro. Não importa quantas camadas irão permear o movimento, aliás contínuo,
de produção de algum tipo de saber. É preciso estar atento a esse movimento,
deixá-lo respirar, deixar que as palavras brotem, ganhem corpo, vida. Só assim
a própria vida pode respirar ― sem travas e amarras.
desejo da chuva
Esta noite choveu nos meus sonhos. Estava quase tudo
lá, numa sucessão fantástica de imagens.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Sebastião Uchoa Leite
INSÔNIA
RESPIRATÓRIA
Antes
nunca
Ouvira
o invisível poema
Do
respirar: não
Ouvia
nada
Só
o silêncio dos órgãos
Mas
o segredo da vida
Era
isso
Quando
ninguém
Se
lembra do corpo
Que
de fato
É
feito da mesma matéria
Do
sono
LEITE,
Sebastião Uchoa. Ciranda de poesia. Org. Franklin Alves Dassie. Rio
de Janeiro: EdUERJ, 2010, p.63.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Orides Fontela
NOTÍCIA
Não mais sabemos do
barco
mas há sempre um
náufrago:
um que sobrevive
ao barco e a si
mesmo
para talhar na
rocha
a solidão.
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify:
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.41.
um acontecimento quase vazio
Ontem vivi
algo insólito. Ao abrir a carteira para pagar um kit de escovas de dente numa
farmácia, tomei um susto ao não encontrar o dinheiro que deveria estar ali ―
seria o secreto receito de ficar de repente sem ele? A caixa da farmácia ouviu
minha exclamação, viu meu desconcerto, e deve ter engendrado lá suas hipóteses.
Tentei
ainda procurar, mas o dinheiro não estava em nenhum lugar diferente do usual,
de forma que alguma coisa tinha acontecido. Enquanto vasculhava mentalmente as
possibilidades e pagava no débito, comecei a rememorar meus passos para tentar
flagrar o momento em que o dinheiro tinha sumido. Tinha sido um dia corrido,
naquela tentativa de fazer várias coisas numa viagem só, de ida e volta ao
centro e à zona sul.
Fui
rememorando e, de imediato, descartei a possibilidade de ter sido assaltada,
afinal o primeiro lugar em que procurei o dinheiro foi a carteira, que estava
dentro da bolsa, e bolsa e carteira continuavam ali. Então poderia ter
simplesmente perdido, ao, na pressa, colocar o dinheiro em lugar diferente do
usual. Mas em que situação eu tinha manuseado o dinheiro pela última vez antes da
farmácia? Quanto dinheiro afinal estava faltando? Havia ainda quatro reais na
carteira, além do cartão do metrô e do bilhete único, que garantiam transporte
de volta até o centro, pelo menos.
Ainda
na zona sul, veio o estalo, a única possibilidade que fazia mais sentido em
relação aos meus movimentos: a atendente do caixa do lugar em que tinha
almoçado havia se esquecido de me dar o troco, ou eu me esquecido de pegar. Eu
não cheguei a colocar o dinheiro na carteira. Tentei me lembrar do momento do
almoço, montando o prato (customizando
a salada, como disse um dos funcionários) e depois estendendo a nota de
cinquenta reais para a atendente do caixa, antes do meu prato ficar pronto.
Nesse momento, pedi também uma água mineral. De fato, não me era totalmente
certa a lembrança de ter recebido o troco, embora também fosse possível tê-lo
recebido e, na distração do momento, tê-lo perdido no momento de me encaminhar
para mesa. Nunca vou conseguir ter certeza, mas foi ali que perdi a grande
fortuna de trinta reais.
Então,
antes de aceitar que eu, tão cuidadosa, tenha me distraído e perdido de bobeira
o dinheiro, ocorreu-me a ideia delirante de voltar ao estabelecimento e dizer
que meu troco não tinha sido devolvido. A ideia relampejou no meu cérebro, e
foi logo descartada, pela evidente inviabilidade e falta de sentido. Em adição,
por que se preocupar tanto com uma (pequena) importância perdida? Explicitamente perdida? Primeiramente
porque há muitas outras formas de perder dinheiro, sob a forma aparente de troca,
via consumo: dinheiro vai, mercadoria vem. Segundo que é preciso aceitar que
também se perde, inclusive dinheiro. Mas ainda não tinha acabado.
Já
no centro da cidade veio o estalo decisivo, e que é a justificava desse texto, da
narração de um fato em si sem importância. Ainda pensando na minha distração,
percebi que não tinha sido tão ruim assim a atendente não me ter dado o troco.
Quantas vezes dei e recebi o troco? Afinal essa tem sido a praxe, dar o troco,
não deixar de revidar, de devolver na mesma moeda. Então se alguém deixa de me
dar do troco, talvez esteja me fazendo um bem, assim como eu, a mim e ao outro,
quando desisto de revidar, de mostrar que sou inteligente e percebi muito bem a
ofensa, faça-me o favor etc. etc. Não só quero ter o desprendimento de poder
deixar de dar o troco como, se puder e conseguir, dar a outra face, para não
cair nas armadilhas dos acontecimentos vazios.
de corpo e alma
Há poucos lugares mais ridículos, se é que há, que uma
academia de ginástica. Pessoas submetendo-se cegamente ao espelho (um
paradoxo?). No entanto, um médico mandou-me fazer atividade física, porque o
colesterol subiu. Um outro constatou tendência para a perda de cálcio, e
remeteu-me para o mesmo lugar. Sempre fui sedentária, de forma que qualquer
atividade física que vá fazer a essa altura da vida envolve uma ampla e
paciente negociação com o corpo ― perder dores cuidando para não
ganhar outras. É o mínimo que se pode tentar fazer, e talvez seja suficiente.
Comecei falando do corpo, mas agora, aqui, já é outra coisa.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
kafka
Um
livro precisa decantar no leitor, precisa, nas suas muitas camadas, permear-se àquelas
que encontrar no leitor. Desse encontro nascerá talvez uma nova subjetividade,
ou novas possibilidades subjetivas. Ler continua sendo tão enigmático quanto
escrever.
diz o filósofo tardewski em respiração artificial:
"Prefiro ser um fracassado a ser um cúmplice." (p.184)
lua azul
Sonhei com a lua azul. Azul mesmo, bonita, atipicamente
próxima, quase ao alcance das mãos. Quando me ocorreu apanhar a máquina para
registrar, complicações afetivas familiares (ou familiares afetivas) retardaram
ou truncaram meu movimento, de forma que, de posse da máquina, a lua já era
outra, ou a mesma de sempre, pairando distante no céu. Bastidores: pensei tanto
em escrever sobre a lua azul por esses dias que uma imagem onírica acabou me
impelindo a fazê-lo.
Murilo Mendes
TEMAS ETERNOS
Há sempre um amor procurando seu nome
Na solidão do livro dos tempos.
Há sempre uma veste nupcial
Pendendo da guilhotina da noite.
Há sempre restos do Minotauro
A escurecer os campos tranquilos.
Há sempre um olhar espiando o horizonte,
Um olhar que não foi visto.
MENDES,
Murilo. Poesia completa e prosa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.345.
domingo, 2 de setembro de 2012
à moda de orides fontela
MAIS
DO QUE JOGO DE PALAVRAS
O
que eu sinto eu não ajo.
O
que ajo não penso.
O
que penso não sinto.
Do
que sei sou ignorante.
Do
que sinto não ignoro.
Não
me entendo
e
ajo como se me entendesse.
(Clarice
Lispector, A descoberta do mundo)
gratidão do corpo
Ontem fui a uma aula de alongamento seguida de pilates, um
bem-estar inédito, diferente. A professora, maravilhosa. Alguma coisa ali se
fazendo, diferente da ordem da razão, como se o corpo agradecesse por essa
forma de carinho. Essa semana o médico me falou sobre a questão dos meus ossos,
e pediu que eu levasse a sério o lance da atividade física. Em casa não consigo
muito, mas na academia, espaço coletivo, eu me animo. Essa coisa da gratidão do
corpo é diferente de tudo: e é também uma espécie de limiar. Estou divagando,
mas são coisas que gostaria de entender.
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