Sonhei com flores ― rosas vermelhas ―
esquartejadas pela minha mãe. Outras coisas, importantes, compuseram o enredo,
e pela manhã senti, ao me lembrar, por relances, dos fragmentos ― das
rosas, do sonho, dos afetos ―, senti alívio.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
domingo, 16 de setembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
Caê Guimarães
QUARTO DE
TORQUATO
Por vezes ando assustado, como os pombos.
Porque corro,
concordo com o boicote ao estado normal das coisas.
Tiro do meu afeto todos meus segredos
- quinhões de coragem e medo -
olho desatento para os lados,
e impaciente não me percebo em lugar nenhum.
Não acredito mais no amor de múmias.
Elas também fedem sob as gazes encardidas.
Múmias podem até ser divertidas.
Por vezes ando assustado, como os pombos.
Porque corro,
concordo com o boicote ao estado normal das coisas.
Tiro do meu afeto todos meus segredos
- quinhões de coragem e medo -
olho desatento para os lados,
e impaciente não me percebo em lugar nenhum.
Não acredito mais no amor de múmias.
Elas também fedem sob as gazes encardidas.
Múmias podem até ser divertidas.
Instantâneo: poesia e prosa. Vitória: Secretaria de Estado da
Cultura do Espírito Santo, 2005, p.82.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Paulo Leminski
Transar bem todas as ondas
a Papai do Céu pertence,
fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense.
A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada.
Os
melhores poemas de Paulo Leminski. 6.ed. São
Paulo: Global, 2002, p.108.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
cristo mais certo que os cristãos
De algumas coisas (e leituras) não vale sequer a pena tentar se defender.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
vida amanhecendo
A aragem da manhã tornou-se vento forte, impetuoso. Quando cedo se
acorda, o dia ainda é embrionário ― acordar cedo, por um deslizamento de
sentidos, torna-se entrar em contato com as próprias promessas, o frescor que
palpita na vida amanhecendo.
Clarice Lispector
POESIA
― Fiz hoje na escola uma composição sobre o Dia da Bandeira, tão
bonita, mas tão bonita... pois até usei palavras que eu nem sei bem o que
querem dizer.
Clarice Lispector. A
descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.316.
Clarice Lispector
SEGUIR A FORÇA MAIOR
É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que
se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma
grande liberdade em se ter um destino. Esse é o nosso livre-arbítrio.
Clarice Lispector. A
descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.140.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Alexei Bueno: livro de haicais
Entre o sol e as flores
Como é difícil às vezes
Desdenhar tal mundo.
BUENO, Alexei. Livro de
haicais. Poesia reunida. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.214.
roberto arlt, do conto "escritor fracassado"
“Sou um burguês
egoísta. Reconheço. E é por isso que nada chega a me indignar de verdade. Seja bom
ou mau. Também não experimento um desejo ardente de deslumbrar meus
semelhantes. Se eu disse em alguma ocasião que sofria quando não conseguia
escrever, é mentira. Afastei-me da verdade para enfeitar minha personalidade
com um atributo capaz de torná-la interessante.”
Roberto Arlt. As feras. Trad. Sérgio Molina. São
Paulo: Iluminuras, 1996, p.63.
domingo, 9 de setembro de 2012
UMA NOITE EM 67 (documentário completo)
entrevistas e vídeos com chico buarque, caetano veloso, roberto carlos,
Orides Fontela
Inútil a ternura
pelo leve
momento a
desprender-se do infinito:
frágil, a
construção do tempo é morte
do que se atualiza.
Mais fecundo
é secundar o
pássaro buscando
o momento possível,
voo pleno.
Mais fecundo é
voar. Mas a ternura
(este pássaro morto
abandonado
como forma perdida
de nós mesmos)
nos alimenta em sua
sombra. Torna-nos
em sombras sem
alento. E sofremos
como pássaros
frágeis: desprendidos
do voo pleno nos
cristalizamos
realizando a morte
que vivemos.
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify:
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.266.
vagando alto
Uma palavra, redonda. Outra palavra, torta. Uma terceira, áspera. A quarta, inquietação. Na sequência: O torturado exaspera-se em silêncio.
ponte aérea para os sonhos
O sonho de viver no sonho que reproduz a vida ― dia ou noite, qual deles é nossa
verdade? Ou seremos um compósito dos dois, sabendo de si o pouco que o dia dá e
tomando a noite como recalque? O sonho, absurdos por vezes inaceitáveis, mas
que estão lá, manifestando-se pela manhã como restos da noite. E o que a
lembrança não acessa, e por isso sequer imagina ou supõe? Existirá?
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