Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
domingo, 23 de setembro de 2012
Nuno Júdice
POÉTICA
Evitem o modelo grego: a perfeição das
linhas,
a limpidez do mármore, o azul do mar. No
fundo, é
onde o corpo se deixa contaminar pelas
cores
baças do amor que a luz nasce, como um
caule
de inverno; e é por dentro do fruto que
a chuva
apodrece que a vida insiste.
Nuno Júdice. Por dentro do fruto a
chuva. São Paulo: Escrituras, 2004, p.83.
sábado, 22 de setembro de 2012
Mário Quintana
DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis...
ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não
fora
A mágica presença das estrelas!
Mário Quintana. Nova antologia poética. São Paulo:
Globo, 2007, p.134.
amizade
Numa aula sobre algumas das figuras de linguagem mais
conhecidas, o exemplo dos olhos metonímicos levou um aluno a dizer que os meus estavam
me entregando. Eu disse que meus olhos são meus amigos.
Nuno Júdice
METAFÍSICA
Às vezes, um verso transforma o modo
como
se olha para o mundo; as coisas
revelam-se
naquilo que imaginação alguma as supôs;
e
o centro desloca-se de onde estava,
desde
a origem, obrigando o pensamento a
rodar
noutra direcção. O poema, no entanto,
não
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A
sua
essência reside no fragmento de um
absoluto
que algum deus levou consigo. Olho para
esse vestígio da totalidade sem ver
mais
do que isso — o desperdício da antiga
perfeição — e deixo para trás o caminho
da ideia, a ambição teológica, o sonho
do
infinito. De que eternidade me esqueço,
então, no fundo da estrofe?
Nuno Júdice. Por dentro do fruto a
chuva. São Paulo: Escrituras, 2004, p.82.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Cacaso
TÁXI
O poeta
passa de táxi em qualquer canto e lá vê
o amante
da empregada doméstica sussurrar
em seu
pescoço qualquer podridão deste universo.
Como será
o amor das pessoas rudes?
O poeta
não se conforma de não conhecer
todas as
formas da delicadeza.
CACASO. Lero-lero. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p.16.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Miguel Marvilla
TODAS AS
COISAS DIFÍCEIS
Ninguém
pensa impunemente
numa escrita
permanente
da vida
que se levou.
Há sempre
sob o lençol
um corpo
irreconhecível
em seu
próprio imaginário:
um aquário
cheio de bile,
peixes
nadando ao contrário.
Resvalando
nos silêncios,
o que
aflora à superfície,
depois do
mundo acabado,
é noite
sem lua dentro:
todas as
coisas difíceis
que foram
postas de lado.
A parte que nos toca: literatura brasileira feita no Espírito Santo (Org. Miguel Marvilla e Reinaldo Santos Neves). Vitória: Florecultura,
2000, p.157.
domingo, 16 de setembro de 2012
rituais
Minha polidez foi esculpida sobre material resistente.
Daí, amiúde, a sensação de que ela é frágil e precisa de atenção constante. Não
que eu seja artificialmente educada. A educação é sempre um artifício, uma
batalha que se trava contra o corpo e a natureza. É que não domino todos os
traquejos das pessoas ditas civilizadas e, ao primeiro vinho, a franqueza inadvertidamente, sem querer, por vezes transborda. A vida é feita de rituais, e a civilização é apenas um deles. Ou
terá sido construída sobre o recalque de outros rituais, a ponto de ter-se a
impressão de vivermos uma vida desritualizada?
sensibilidade
Eu tento escutar, mas
é difícil, porque depende de minha sensibilidade também, e esta precisa ser
ensinada.
fragmentos
Sonhei com flores ― rosas vermelhas ―
esquartejadas pela minha mãe. Outras coisas, importantes, compuseram o enredo,
e pela manhã senti, ao me lembrar, por relances, dos fragmentos ― das
rosas, do sonho, dos afetos ―, senti alívio.
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