Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

DECLARAÇÃO DE AMOR - Clarice Lispector

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.100-101.

domingo, 14 de outubro de 2012

dessemelhanças

Apenas num plano abstrato somos todos iguais, e isso já seria suficiente para que a diversidade humana fosse entendida como condição de sobrevivência da espécie. A tentativa de abolir as diferenças, tornando-nos insuportavelmente semelhantes, constrói o fascismo dos valores padronizados, estereotipados. Na própria palavra “valor”, a armadilha. “Nenhuma acusação a quem não quer perder seu mundo (qualquer disputa cansa mesmo), mas simplesmente outra velocidade, outros gostos.”

Lino Machado

BESTIÁRIO

Homens-pomba
podem
ganhar um Nobel
porém
eles nem sempre
conseguem impor
alguma paz.
Homens-pomba:
quase nunca
implodem
injunções e suspeitos
edifícios
inter
nacionais.
Homens-pomba,
ao menos
não se percam
nos percalços
entre cães, falcões
e bichos mais.

Lino Machado. Sob uma capa. Vitória: Secult, 2010, p.40.

igual / diferente

entre o sono e a vigília

Há um momento, entre o sono e a vigília, que tem me surpreendido ultimamente. Estou caindo de sono, com um livro nas mãos no momento A lua vem da Ásia ―, e ainda penso que leio. Então os olhos começam a cerrar-se sobre um parágrafo que nunca mais termina, enquanto imagens estranhas atravessam minha mente como se fossem choques, pois volto a despertar imediata e instantaneamente, surpreendida, embora tenha demorado a percebê-lo assim, pelo conteúdo dos sonhos que está a penetrar a vigília. Os sonhos cabem na inconsciência do sono, e por isso a sensação de choque. São imagens e sensações estranhíssimas, que não conseguem encontrar expressão e vazão na linguagem e em sua arquitetada sintaxe. Vencida pelo sono, deixo o livro e procuro uma posição confortável para dormir, imaginando o que irei vivenciar enquanto o eu da vigília estiver ausente, praticamente sem conseguir ter acesso a isso, pois que vigilante, pela manhã, o eu volta e intercepta o que poderia chocar.

sábado, 13 de outubro de 2012

Paulo Leminski

Transar bem todas as ondas
a Papai do Céu pertence,
fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense.
A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada.

Os melhores poemas de Paulo Leminski. 6.ed. São Paulo: Global, 2002, p.108.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

chuva antiga

A chuva que agora cai
com força
não conhece história.
Cada gota traz condensados,
em alta densidade,
o anonimato e os grandes feitos
da História.
A mesma água
a vagar em círculos pelo mundo,
sem geografia ou passado,
no eterno presente
das coisas sem vida.
Mas quanta vida em cada chuva!

onde foi parar a cuca dos caras que aguentaram a barra

"Chove longínqua e indistintamente,/ Como uma coisa certa que nos minta,/ Como um grande desejo que nos mente."

A previsão do tempo vem anunciando uma chuva imprecisa para o fim de semana que começa antecipadamente amanhã. Como sói acontecer com previsões, as oscilações dão o tom. Parece certo que amanhã choverá. Há uma semana espero por essa chuva. E antes que a secura se insinue como convergência da razão, até pelo caminho mais óbvio, há uma necessidade mais premente e pueril, quase inocente: poder escutar em paz o barulhinho da chuva. São também as saudades de Fernando Pessoa.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

dois meninos - Clarice Lispector

― Mas agora vamos brincar de outra coisa. Quero saber se o senhor é inteligente. Este quadro é concreto ou abstrato?
― Abstrato.
― Pois o senhor é burro. É concreto: fui eu que pintei, e pintei nele meus sentimentos e meus sentimentos são concretos.
― É, mas você não é todo concreto.
― Sou sim!
― Não é! Você não é todo concreto porque seu medo não é concreto. Você não é completamente concreto, só um pouco.
― Eu sou um gênio e acho que tudo é concreto.
― Ah, eu não sabia que o senhor é um pintor famoso.
― Sou. Meu nome é Bergman. Maurício Bergman, sou sueco e sou um gênio. Nota-se pela minha fisionomia, olhe: eu sofro! Agora quero saber se o senhor entende de pintura. Aquele quadro é concreto?
― É, porque se vê logo que é um mapa, pelas linhas.
― Ah, ééé? e aquele?
― Abstrato.
― Errado! Então aquele também tinha que ser concreto porque também tem linhas.
― Vou explicar ao senhor o que é concreto, é...
― ... está errado.
― Por quê?
― Por que eu não entendo. Quando eu não entendo, é porque você está errado. E agora quero saber: isto é compreto?
― O senhor quer dizer concreto.
― Não, é compreto mesmo. É porque sou um gênio e todo gênio tem que pelo menos inventar uma coisa. Eu inventei a palavra compreto. Música é compreta?
― Acho que é, porque a gente ouve, sente pelos ouvidos.
― Ah, mas o senhor não pode desenhar!
― O senhor acha que o teto é concreto?
― É.
― Mas se eu virasse essa parede e botasse ela na posição do teto, ela ia ficar uma parede-teto, e essa parede-teto ia ser concreta?
― Acho que talvez. Fantasma é concreto?
― Qual? O de lençóis?
― Não, o que existe.
― Bem... Bem, seria supostamente concreto.
― Mas é concreto ou abstrato?
― Concreto, é claro, que burrice.
No quarto ao lado a mãe parou de coser, ficou com as mãos imóveis no colo, inclinando um coração que este batia todo concreto.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.432-433.

inverno (a coincidência de uma música casual)

domingo, 7 de outubro de 2012

Miguel Marvilla

ESTE SER DA MINHA SOMBRA

Ruge o ser da minha sombra, quieta e indelével,
que se postou em mim, e eis que urge
amá-lo ou amordaçá-lo.

E eis que geme e grita e se debate.

Eu, por mim, me apavoro em que possam ouvi-lo
e em que lhe deem tato,
a este ser que me delata.

Miguel Marvilla. Lição de labirinto. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1989, p.54.

isto é simplesmente perfeito:

“As flores têm o perfume que a terra lhes dá sem ser perfumada. Assim, também nós devemos dar a nossos atos aquilo que não trazemos em nós mas de que somos realmente capazes, e que não morrerá com a nossa morte.”

Campos de Carvalho. A lua vem da Ásia. 4.ed. Rio de Janeiro: José Oympio, 2008, p.37.

a lua vem da ásia

“À noite a lua vem da Ásia, mas pode não vir, o que demonstra que nem tudo neste mundo é perfeito.”

Campos de Carvalho. A lua vem da Ásia. 4.ed. Rio de Janeiro: José Oympio, 2008, p.37.

sábado, 6 de outubro de 2012

amor suspeito

Depois da aula de pilates, entretive uma não tão breve ― e aqui já vai um sinal de enfaro ―conversa com uma das colegas, como sempre deflagrada por uma banalidade qualquer, no caso a cor dos meus olhos. Quando vi, estava recebendo uma aula de conquista amorosa, nada mais pedante e maçante. Dei graças a Deus quando minha interlocutora finalmente se despediu. Chego em casa e me lembro no átimo de que esta noite sonhei com este espaço, e também que me encontrava, no sonho, vasculhando o lixo, o da rua mesmo, e atrelado a ele encontrava um amor suspeito, estranho. Será que preciso continuar vasculhando meus recantos pouco limpos para escrever? O que esta travessia do desagradável está encenando? 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ex-centricidade

Quando se toma certa distância, não há mais como voltar. Mas então torna-se possível quer dizer, as condições de possibilidade surgem ―, torna-se possível descobrir que a distância foi a proteção que o corpo e tudo que nele vai pediu para se resguardar de qualquer coisa muito violenta, farejada antes de tudo pela intuição. A distância pode até parecer exílio para quem admite um centro para tudo. Mas quando não há mais centro, e a única realidade tangível é o corpo que se possui, então argumentar em termos de distância é apenas uma forma de demarcar uma nova geografia dos sentimentos e afetos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Lino Machado

Comunicado:

“Urgente, amigos.
(A hora é grave.)

Agora
como está evidente
que o mundo
começou a morrer ― depressa!
precisamos correr
se pretendemos
exterminar
o máximo de gente.”

Lino Machado. Sob uma capa. Vitória: Secult, 2010, p.101.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

a ficção do se

Tudo aquilo que não se vive, que alguém não vive, comporá outra vida? Como seria essa vida paralela, essa outra vida a que não cedo meu corpo? Não existe. O “se” é uma ficção. E se... Não é possível: então não existe. A ilusão consiste em vislumbrar uma espécie de universo paralelo, enquanto cria-se outra ilusão, da vida adiada. O que existe, mesmo, são estas palavras, em que a vida em mim vive. Uma pena eu não ter recursos para dizer isso com mais fidelidade ao que sinto.