Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

love and war

rebelião íntima

Às vezes, muitas vezes, mais vezes do que se desejaria, é melhor aceitar, sem discutir, obstar, argumentar... É que acaba cansando menos. Aceitar, obedecer, acatar, não contestar ― qualquer verbo que com a submissão puder se alinhar. E, bem no íntimo, naquele terreno evasivo do quase não saber, saber que esse aceitar é apenas um modo de continuar a se rebelar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

lembrando um poema de bertold brecht

Lutar, lutar, lutar ― como uma coisa imperiosa, absoluta, que se impõe.
canção de Silvio Rodriguez

outra lembrança da infância é a gripe geni

histórias para não dormir

Pensando bem, nem é estranho que a literatura (vale dizer, o que se encontra pressuposto neste termo) tenha se tornado um destino para mim: na infância, o conto da carochinha que me foi contado foram histórias de assombração de variado calibre ― o espírito da mata que assustava caçadores noturnos; o caixão que pesava sobre um carro passando, à noite, diante de um cemitério à beira da estrada; o diabo que veio pessoalmente dar uma surra, com suas poderosas línguas de fogo, num homem que havia duvidado de sua existência; mortos que apareciam a seus parentes... Fora a história da “fera da Penha”. 

tom jobim, imprescindível

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Alberto Caeiro

Duas horas e meia da madrugada. Acordo e adormeço.
Houve em mim um momento de vida diferente entre sono e sono.

Se ninguém condecora o sol por dar luz,
Para que condecoram quem é herói?

Durmo com a mesma razão com que acordo
E é no intervalo que existo.

Nesse momento, em que acordei, dei por todo o mundo ―
Uma grande noite incluindo tudo
Só para fora.

Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.139.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

leveza

E se o meu ser pudesse se repartir a cada momento, como se não houvesse um único eu? Os momentos sucedendo-se não linearmente, uma espécie de bifurcação contínua da vida. Haveria essa coisa chamada tempo? Este constante instante existe, mas parece que uma única possibilidade é trilhada, fazendo da vida uma linha imaginária e perceptível pela memória. Mas e se por exemplo agora, quando a inquietação me invade, eu conseguisse, ainda que com os andrajos rotos do eu que reconheço como eu, eu conseguisse ir na direção da desintegração do átomo do eu? A noite ficaria mais leve. Uma justificativa para se contar / ler histórias antes de dormir: diminuir a densidade do eu, para que ele consiga flutuar nas águas do sono.

Claro!? Clarice.

"Angústia pode ser o desamparo de estar vivo."

Emily Dickinson

Uma noção de coisa finda
Nas Covas é captada
Um não ligar para o Futuro
Um Ermo de Medida.

Ao exibir-se audaz a Morte
O que a rigor nós somos
E a nossa serventia Eterna
Afinal inferimos.


There is a finished feeling
Experienced at Graves -
A leisure of the Future -
A Wilderness of Size.

By Death's bold Exhibition
Preciser what we are
And the Eternal function
Enabled to infer.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.138-139.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Fernando Pessoa

Agita as árvores um vento
Sob o plácido azul do céu,
O que agita meu pensamento
É que hoje deixo de ser meu.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.74.