Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

oxigenação

Respirar, profundamente. Muita gente em volta atrapalha. Escrever ajuda. 

na manhã sadia...

 “Galinha cega”, de João Alphonsus, é qualquer coisa de vertigem à luz do dia.

imagens longínquas

Mas será que eu suportaria o que meus sonhos parecem querer me dizer? 

can't stand the rain (porque a chuva é mais bela que o sol)

acerca da dificuldade do amor

O desamor encerra uma espécie de muro imperceptivelmente erguido apartando sentimentos que seriam, justamente, alimento, e alimentados, pelo amor. Na impossibilidade de transpor simplesmente este muro, há a esperança de que ele possa ser minado, pelo menos um pouco, pela necessidade do amor, em especial o fraterno, sem prejuízo do outro. Quem sabe alguma coisa floresça.

domingo, 18 de novembro de 2012

lido pouco antes de dormir: quando a madrugada chega

No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.130.

lido pouco antes de dormir: quando chega o sono

Mas entre mim e ver há um grande sono,
E sentir é só a janela a que eu assomo.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.130.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

love and war

rebelião íntima

Às vezes, muitas vezes, mais vezes do que se desejaria, é melhor aceitar, sem discutir, obstar, argumentar... É que acaba cansando menos. Aceitar, obedecer, acatar, não contestar ― qualquer verbo que com a submissão puder se alinhar. E, bem no íntimo, naquele terreno evasivo do quase não saber, saber que esse aceitar é apenas um modo de continuar a se rebelar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

lembrando um poema de bertold brecht

Lutar, lutar, lutar ― como uma coisa imperiosa, absoluta, que se impõe.
canção de Silvio Rodriguez

outra lembrança da infância é a gripe geni

histórias para não dormir

Pensando bem, nem é estranho que a literatura (vale dizer, o que se encontra pressuposto neste termo) tenha se tornado um destino para mim: na infância, o conto da carochinha que me foi contado foram histórias de assombração de variado calibre ― o espírito da mata que assustava caçadores noturnos; o caixão que pesava sobre um carro passando, à noite, diante de um cemitério à beira da estrada; o diabo que veio pessoalmente dar uma surra, com suas poderosas línguas de fogo, num homem que havia duvidado de sua existência; mortos que apareciam a seus parentes... Fora a história da “fera da Penha”. 

tom jobim, imprescindível

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Alberto Caeiro

Duas horas e meia da madrugada. Acordo e adormeço.
Houve em mim um momento de vida diferente entre sono e sono.

Se ninguém condecora o sol por dar luz,
Para que condecoram quem é herói?

Durmo com a mesma razão com que acordo
E é no intervalo que existo.

Nesse momento, em que acordei, dei por todo o mundo ―
Uma grande noite incluindo tudo
Só para fora.

Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005, p.139.