Neste fim de dia, de rotina, de fechamento do ciclo da semana de trabalho, alguma coisa nova, como uma fronteira, se desenha. Se,
como quer Moacyr Scliar neste conto, há uma lacuna entre palavra e vida,
isso não precisa ser uma advertência à palavra, mas pode ser um senão à vida. Se não é possível saber onde termina uma e onde começa a outra ― desconfio mesmo que
são a mesma coisa ―, a verdade é que se tem pouco com que dar conta da imensidão
da vida. Palavras traem. Mas e o silêncio, não seria mais traiçoeiro?
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Mário Quintana
POEMINHO DO CONTRA
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!
Mário Quintana. Eu passarinho. São Paulo: Ática, 2006,
p.67.
Mário Quintana
VELHO TEMA
Chove.
Cada gota é uma rima pobre.
Sabes?... Sempre que chove, tudo
faz tanto tempo...
E qualquer poema que acaso eu
escreva
Vem sempre datado de 1899!
Mário Quintana. Eu passarinho. São Paulo: Ática, 2006,
p.88.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
fernando pessoa, sempre
A rudeza do mundo apara as arestas, suaviza os
movimentos. Fernando Pessoa me consola do que em mim é lamento. Qualquer verso
desse homem parece ser maior que a sombra que faz o sofrimento:
Que dia este! Quantas coisas foram
Irregulares no acontecer!
E
não são todos os dias assim?
domingo, 25 de novembro de 2012
murilo mendes - um poema para o fim de tarde quase chuvoso de domingo
NIHIL
Profundo penoso
Das nuvens do inferno
Surgiu meu destino.
Grandeza não tive,
Nem jeito pra vida.
Nesta noite maquinal,
Ouvinte apenas da guerra,
Sem passado nem futuro,
Odiando o presente,
Me encontro face a face
Com a estátua do pó,
À toa, esperando
A mão do Criador
Finalmente me abater.
MENDES,
Murilo. Poesia completa e prosa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.384-385.
sábado, 24 de novembro de 2012
a perfeição do amor
Há visões ― cenas ― beirando o insuportável. No entanto,
parece ser impossível esquivar-se delas, a não ser que se pudesse retroceder ao
útero materno. O que quer dizer que acaba se encontrando um meio de
suportá-las, porque este é mesmo o preço que se paga para viver. Não são, a
rigor, insuportáveis, embora a consciência procure rápido anestésicos para
lidar com elas. Um deles é o consumo. No entanto, o único consolo para o dado
insuportável da existência é o amor. A redenção possível.
pombos, um incômodo
Preciso falar dos pombos, mas preciso antes conseguir
falar dos pombos. Eles têm me incomodado ultimamente, como muitas outras
coisas, aliás. Muitas outras coisas? Talvez o correto seria dizer algumas outras coisas. Mas saiu “muitas”,
e a escrita não precisa sofrer a repressão ― seria melhor dizer censura, mas
saiu “repressão” ― que timbra outros aspectos da (minha) vida. Por enquanto é
isso: preciso conseguir começar a falar dos pombos. Já é um começo.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
respirando através da escrita
Vem-me, amiúde, um estalo acerca da necessidade de
uma faxina no blog, coisas que precisam ser eventualmente apagadas, ou então
encontrar endereço novo. Cedo ou tarde essa mexida vai acontecer, porque se eu
continuo a escrever para um grande nada, mesmo isso passou por certa
metamorfose. Uma metamorfose profundamente libertadora.
acerca da dificuldade do amor
O desamor encerra uma espécie de muro imperceptivelmente
erguido apartando sentimentos que seriam, justamente, alimento, e alimentados, pelo
amor. Na impossibilidade de transpor simplesmente este muro, há a esperança de
que ele possa ser minado, pelo menos um pouco, pela necessidade do amor, em
especial o fraterno, sem prejuízo do outro. Quem sabe alguma coisa floresça.
domingo, 18 de novembro de 2012
lido pouco antes de dormir: quando a madrugada chega
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.130.
lido pouco antes de dormir: quando chega o sono
Mas entre mim e ver há um grande sono,
E sentir é só a janela a que eu assomo.
Fernando
Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia
das Letras, 2009, p.130.
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