Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
memória sutil das coisas esquecidas (ou a ser)
Hoje, na
natação, quanta coisa pedida a uma simples porção de água! No entanto é lá que
meus monstros, em silêncio, vão aos poucos se desprendendo de mim. Talvez por
isso a sensação de que nada está acontecendo. Mas está: pela terceira vez
consecutiva, eu esqueci lá minha roupa de natação.
João Cabral de Melo Neto
O POEMA E A ÁGUA
As vozes líquidas do
poema
convidam ao crime
ao revólver.
Falam para mim de
ilhas
que mesmo os sonhos
não alcançam.
O livro aberto nos
joelhos
o vento nos cabelos
olho o mar.
Os acontecimentos de
água
põem-se a repetir
na memória.
MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1997, p.17.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
domingo, 2 de dezembro de 2012
pensando dentro da lógica
Conversava com meu fisioterapeuta sobre a necessidade
de praticar exercícios físicos regularmente. Ele disse então que frequenta
academia desde os 18 anos, enquanto eu passei a frequentar os livros nesta
idade. Agora o corpo está se ressentindo do meu descaso, mandando recados
através de dores nada agradáveis, e limitadoras, já que preciso escolher onde
vai doer. A conversa transcorria devagar, e versava, assim, sobre as escolhas. Então ele disse: “Mas você
é mais culta que eu.” “Sim ― respondi ― mas você, por exemplo, não tem nenhuma
dor no cérebro.”
conforto espiritual (ou perdoando Deus, como a Clarice)
Uma amiga me escreve: “Entretanto, se você tiver um olhar
diferente para isso tudo, perceber como um grande aprendizado que vem ao teu
auxílio permitido por Deus e, enfim, relevar, será você
alguém mais feliz...”
não negociável
Tive uma amiga, pessoa ímpar, além de ser uma mulher bastante bonita e atraente, do tipo que os homens param para olhar na rua, pela beleza
não muito convencional. Isso, a palavra é esta: não convencional. Pois um dia,
e esta é uma das poucas falas que recordo dela, de nosso intenso convívio e
amizade, ela disse algo dessa ordem: “Separo do marido, mas não me separo de
meus livros.”
sábado, 1 de dezembro de 2012
Mário Quintana
DA
HUMANA CONDIÇÃO
Custa o
rico a entrar no Céu
(Afirma
o povo e não erra).
Porém muito
mais difícil
É um
pobre ficar na terra...
Mário
Quintana. Eu passarinho. São Paulo:
Ática, 2006, p.41.
culpa
A literatura tem uma força de iniciação na vida que
não pode ser subestimada. Ela age em camadas nem sempre disponíveis ao estoque
consciente de conexões possíveis. Esta noite eu sonhei com o conto “Lacuna”, de
que falei ontem antes de dormir. Sei que o sonho foi deflagrado pelo
enredo que as imagens do sonho acabaram por assumir, quem sabe sugeridas, em nível
consciente, pelo próprio conto. E daí? Daí que fiquei sabendo um pouco mais
sobre culpa, a minha.
escrita
Graciliano
Ramos é-nos obrigatório. Infância, um
livro magnífico. “Leitura”, um capítulo primoroso ― porque dificilmente alguém
torna-se o que é à toa...
“Julgo
que estive meio louco. E amparei-me ansioso às figurinhas de sonho que me
atenuavam a solidão.”
Graciliano
Ramos. Infância. Rio de Janeiro:
Record, 1995, p.98.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
lacuna
Neste fim de dia, de rotina, de fechamento do ciclo da semana de trabalho, alguma coisa nova, como uma fronteira, se desenha. Se,
como quer Moacyr Scliar neste conto, há uma lacuna entre palavra e vida,
isso não precisa ser uma advertência à palavra, mas pode ser um senão à vida. Se não é possível saber onde termina uma e onde começa a outra ― desconfio mesmo que
são a mesma coisa ―, a verdade é que se tem pouco com que dar conta da imensidão
da vida. Palavras traem. Mas e o silêncio, não seria mais traiçoeiro?
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Mário Quintana
POEMINHO DO CONTRA
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!
Mário Quintana. Eu passarinho. São Paulo: Ática, 2006,
p.67.
Mário Quintana
VELHO TEMA
Chove.
Cada gota é uma rima pobre.
Sabes?... Sempre que chove, tudo
faz tanto tempo...
E qualquer poema que acaso eu
escreva
Vem sempre datado de 1899!
Mário Quintana. Eu passarinho. São Paulo: Ática, 2006,
p.88.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
fernando pessoa, sempre
A rudeza do mundo apara as arestas, suaviza os
movimentos. Fernando Pessoa me consola do que em mim é lamento. Qualquer verso
desse homem parece ser maior que a sombra que faz o sofrimento:
Que dia este! Quantas coisas foram
Irregulares no acontecer!
E
não são todos os dias assim?
domingo, 25 de novembro de 2012
murilo mendes - um poema para o fim de tarde quase chuvoso de domingo
NIHIL
Profundo penoso
Das nuvens do inferno
Surgiu meu destino.
Grandeza não tive,
Nem jeito pra vida.
Nesta noite maquinal,
Ouvinte apenas da guerra,
Sem passado nem futuro,
Odiando o presente,
Me encontro face a face
Com a estátua do pó,
À toa, esperando
A mão do Criador
Finalmente me abater.
MENDES,
Murilo. Poesia completa e prosa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.384-385.
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