Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Álvaro de Campos (humor cáustico socorrendo a alma)

Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.

Olho analiticamente, sem querer, o que romantizo sem querer...

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.411.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

"é assim como se o ritmo do nada fosse, sim, todos os ritmos por dentro"

lírica transatlântica: o mar a permear experiências intensas

reflexão gratuita

A cosmologia não deixa de ser um sucedâneo do cristianismo: buscar no céu o que não é possível encontrar na terra. Talvez por isso, dentro da mesma lógica, olhemos para o céu, brilhante de fogos de artifício, na passagem de ano. O que então se vê é intensamente belo ― e efêmero. Atributos paradoxais quando se trata do sentimento simbolizado na cor branca que ritualiza a chegada do ano novo. A paz é difícil, mas despojada de artifícios. 

domingo, 30 de dezembro de 2012

Orides Fontela: o poema bate à porta do viver


O estranho
bate:
na amplitude interior
não há resposta.

É o estranho (o irmão) que bate
mas nunca haverá
resposta:

muito além é o país
do acolhimento.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.347.

chuva abrandando o calor

Saí para fazer a habitual caminhada noturna e resolvi tomar outra rota, em direção à casa de minha irmã, por conta da outra irmã que lá esperava, não necessariamente por mim. Ajudei no que pude com minha presença, e depois voltei, também caminhando. Caía uma chuva fresca, leve, quase uma garoa. Um trecho da rua quase vazio de pedestres, só veículos. Depois gente de novo. E bastante gente no bar, já perto de casa, o que fez lembrar do dia que é hoje, certa leveza no ar, a alegria das pessoas que estão já comemorando a chegada do ano novo, nessa falsa véspera de segunda-feira.

não se escapa

Não importa quem você seja, haverá sempre um teórico (que pode ser bem prático) a dizer alguma coisa sobre “você”.

olhos castanhos (daniel peixoto e george m.)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

morgenrot

rilke em tradução de josé paulo paes

Dá a cada um a sua própria morte, Senhor.
O morrer que lhe vem daquela vida onde teve
seu sentido e onde conheceu amor e dor.

Rainer Maria Rilke: poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.75.

Dora Ferreira da Silva

MODOS DE AMAR

Ouço o que dizem, digo.
E a fala nos degreda.
Oram por mim, por eles oro
na igreja abandonada.
Amar se dá contrito
precisando da dor para se dar.
Na alegria só os pássaros nos querem:
perto o canto cordas puras
pequenos corações do ar.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.351.

cansaço

O cansaço finalmente chegou às palavras. Vontade de prolongar indefinidamente o silêncio, para talvez escutar o que em mim é grito, que não poderei escutar sem as palavras, a voracidade de dizer e dizer, sempre mais. 

ainda o tempo

perfeito para hoje, para amanhã, para esse restinho de ano (porque é certo que o mundo não vai acabar por agora)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

trecho de conversa: tentando ouvir

― Vivemos tempos loquazes: todos falam muito, no twitter, no facebook, na blogosfera. Mas ouvir, ouvir é para poucos. 
[...] 
― O barulho em volta é muito grande mesmo e confunde.  Acho que todo mundo precisa desesperadamente, nesses "tempos loquazes" que você interpreta tão bem nessa expressão sintética, desse cuidado, consigo e com os outros.  

Murilo Mendes: "Signo de futura realidade sou"

O ESPELHO

O céu investe contra o outro céu.
É terrível pensar que a morte está
Não apenas no fim, mas no princípio
Dos elementos vivos da criação.

Um plano superpõe-se a outro plano.
O mundo se balança entre dois olhos,
Ondas de terror que vão e voltam,
Luz amarga filtrando destes cílios.

Mas quem me vê? Eu mesmo me verei?
Correspondo a um arquétipo ideal.
Signo de futura realidade sou.

A manopla levanta-se pesada,
Atacando a armadura inviolável:
Partiu-se o vidro, incendiou-se o céu.


MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.443.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

o que será (à flor da pele): obra-prima de chico buarque

olhando para frente

Restou-me, dos grandes ideais com que me construí, trabalhar. Uma canção de Chico Buarque fala da distância entre intenção e gesto. Quase um abismo, se o fator tempo se inserir entre ambos. Que tenho eu em comum com a adolescente que fui, exceto habitarmos um corpo que nem ao menos pode ser chamado de mesmo? Há mais descontinuidades que qualquer coisa na linha imaginária de uma vida. Trabalho não como quem alimenta seus ideais de juventude, mas para obter o alimento com que poderei continuar ― trabalhando, vivendo... num estilo se possível minimalista. Restou-me também escrever, e este é o contraponto que reconheço como pertencimento a mim mesma, e ao mundo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012