Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

sabedoria, uma amiga pra se ter por perto

fragilidade

Fragilidade é assim: você entra numa farmácia para comprar uma medicação e, encontrado o remédio, resolve conferir outras coisas, perfumaria lato sensu. Aí se depara com um objeto, uma escova de cabelo com espelho no verso, que você ganhou, menina, quando fez sete anos, de seu pai. Pai, espelho, verso. Espelho, verso, pai. Sem remédio. Quem sabe porque eu passei boa parte da vida no verso do espelho. Meu feminino dilacerado pela dúvida.

que o dia hoje amanheceu muito bonito

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

podres poderes (canção e anagrama certeiros de caetano veloso)


imagem daqui

Maria Carpi (poema acidentalmente lido na tarde azul)

O desejo do corpo
no corpo, é diáfano
fogo que a água consome.
O desejo do corpo
na alma, é espesso
rosto que a água carrega.

O desejo da alma
na alma, gota
que o fogo retira do mar.
O desejo da alma
no Corpo, labareda
que a água conduz
ao refrigério
da ardente Árvore.

[Revista Poesia Sempre.  Rio de Janeiro, ano 2, n.3, fev. 1994, p.160] 

A tarde talvez fosse azul, / não houvesse tantos desejos.” Quem se lembrou da tarde azul de Drummond no meio da tarde fui eu, depois de ler o inquietante poema de Maria Capri e sair para dar uma volta na Cinelândia, em busca de um sorvete e algumas outras promessas, enquanto esperava o horário da consulta médica. O sorvete eu estava querendo desde cedo. Já o poema veio parar em minhas mãos sem qualquer cálculo, e me fazia compreender que não era tão simples assim equacionar o que estava sentindo. Já pela manhã, na aula de natação, eu havia notado o belo azul do céu, permeado pelo delicado e suave reticulado das nuvens. Um dia intenso.

é de sonho e de pó /o destino de um só

duas máximas (ou mínimas) para situações de interlocução rarefeita

“Nada a declarar.”
“Fale ao motorista somente o indispensável.”

vitor ramil e ney matogrosso

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Alvaro de Campos (a expressão precisa)

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.391.

ir, prosseguir, seguir a própria intuição

Hoje, na habitual caminhada, a vontade de ser Forrest Gump.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

"Sou o dono de tesouros perdidos no fundo do mar." Mário Quintana

Súbito a saudade de tesouros perdidos, e que eu não percebi como tesouros quando os perdia, entrevendo apenas que alguma coisa se ia. O inexorável movimento do mundo, o adeus a cada passo.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Mário Quintana

O POEMA

O poema
essa estranha máscara
mais verdadeira do que a própria face...

Mário Quintana. A cor do invisível. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.31.

nada será como antes amanhã ... num domingo qualquer qualquer hora

Mário Quintana: terceiras intenções (ou a fratria em perigo)

INTENÇÕES

Os que andam com segundas intenções não conseguem enganar ninguém. Está na cara... O perigo mesmo ― porque é invisível ― está nos que têm terceiras intenções.

Mário Quintana. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.48