Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

"I've been in my mind, its such a fine line, that keeps me searching for a heart of gold"

morrer burocraticamente

“A mentira, essa mentira que lhe era pregada nas vésperas de sua morte, a mentira que devia abaixar esse ato terrível e solene da sua morte até o nível de todas as suas visitas, das cortinas, do esturjão do jantar... era horrivelmente penosa para Ivan Ilitch. [...] Por meio daquela mesma ‘decência’ a que ele servira a vida inteira, todos os circunstantes rebaixavam o ato terrível, horroroso, da sua morte, ele via bem, ao nível de um acaso desagradável, quase uma inconveniência (a exemplo da maneira com que se trata um homem que, entrando numa sala de visitas, passa a exalar um mau cheiro); via que ninguém haveria de compadecer-se dele, porque ninguém queria sequer compreender a sua situação.”

TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Trad. Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009, p.56.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

quando a dor fala...

O que fazer?

Hoje. Nas ruas do centro, o sapato novo esfolando o pé, e então reduzir os movimentos, encontrar uma farmácia, comprar band-aid. Os pés machucados, andar devagar, mesmo com o band-aid, pisar com cuidado. Nunca um sapato novo havia causado tanto desconforto em meus pés. Muito rápido o incômodo nos pés manifestando-se e aumentando, 15 minutos perdidos no centro às voltas com encontrar uma farmácia e comprar o band-aid, para colocar nos pontos machucados do pé, na própria farmácia, encontrar um canto na farmácia porque não dava mais para continuar andando.
Depois, devagar, seguir para o metrô e chegar com 15 minutos de atraso na sessão de análise na zona sul, com a sensação de dia desperdiçado e já pensando: mas era preciso mesmo ter comprado aquele sapato? Não, não era. Foi comprado no impulso, atendendo vagamente à necessidade de um sapato mais fechado para dias de chuva. No início da sessão, o assunto foram os meus pés esfolados. Retirei os sapatos durante a sessão. Por que o incômodo maior era tentar entender como um sapato que ficou tão confortável na loja, no dia em que foi comprado, pôde, em sua primeira vez de uso, produzir um desconforto tremendo, paralisante.
Sapato condenado, mas a sessão de análise não. Como a dor gera desconforto espiritual! Finda a sessão, precisava voltar o mais depressa possível para casa, para aliviar o incômodo nos pés.
Não sei quantas pessoas vi hoje dormindo na calçada, mas a lembrança dos sapatos comprados impulsivamente fazia com que eu me sentisse participando da lógica perversa e cruel que leva pessoas a dormir em calçadas. A esfoladura nos pés me enchia de culpa por aquela compra. Sempre tive poucos, bem poucos sapatos. E é claro, naturalmente, que um dos meus impulsos, quando o incômodo se intensificou, foi tirar os sapatos e seguir o caminho descalça. Mas aí me lembrava de imagens antigas que frequentavam minha noite, em que eu me apanhava descalça em público, e isso equivalia a uma exposição constrangedora de minha pessoa. Era sempre ruim, porque eu precisava me esconder do que experimentava, no sonho, como vergonha. Os sapatos vestem os pés como a roupa veste o corpo.  
Hoje, ao sentir os pés esfolados, machucados, me desconcertei, perdi o rumo. Não me lembro mais em que parte da cidade vi pessoas dormindo na calçada. No centro, certamente. Não sei o que fazer quando as vejo, não sei se devo esquecer um tempo os sapatos ― e as lojas, e o verbo comprar ― para tentar experimentar alguma forma de despojamento que me traga a delicadeza perdida. Ou então esquecer o que tiver de ser esquecido, sem abrir mão dos sapatos, para, quem sabe, renascer. 

João Cabral de Melo Neto

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.84. [de “O cão sem plumas”]

quando o mar encontra o céu

Mário Quintana

DO EXERCÍCIO DA FILOSOFIA

Como o burrico mourejando à nora,
A mente humana sempre as mesmas voltas dá...
Tolice alguma nos ocorrerá
Que não a tenha dito um sábio grego outrora...

Mário Quintana. O aprendiz de feiticeiro seguido de O espelho mágico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.101. 

comentário às pequenas transformações (depois da aula de natação)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

the weight

palavras em silêncio

“Às vezes as palavras se movem rápido demais e precisam de um silêncio para fazer algum sentido.”

Mário Quintana

DA PAZ INTERIOR

O sossego, se queres atingi-lo,
Não deixes coisa alguma incompleta ou adiada.
Não há nada que dê um sono mais tranquilo
Que uma vingança bem executada...

Mário Quintana. O aprendiz de feiticeiro seguido de O espelho mágico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.79. 

gorilões sábios

“A chave é não se levar a sério demais. Foi essa a mensagem antipsicologizante que os Coen passaram no Oscar e essa é a mensagem que está implícita até no título do filme [Queime Depois de Ler]. Assista, divirta-se, ponto.” Uma das formas de não se levar a sério demais, nem ao que acontece a nosso redor, é queimar depois de ler: o que não se sabe não pesa nas decisões. E nem sempre é bom saber.

poeira de água

Na caminhada habitual (hoje matinal), havia uma poeira muito fina de água caindo do céu. Num dado (e por um) momento, enquanto esperava a vez de atravessar a rua, tudo assumiu uma forma singular ― talvez pela circunstância de me encontrar parada, no contrafluxo do movimento que vinha fazendo ―, e aquela poeira de água, intensificando-se muito devagar, emprestava à atmosfera que vinha ao encontro de meu rosto um frescor mágico. Tão pouco, uma poeirinha de água, rarefeita, sobre a vegetação, e o mundo parecia integrar-se ao sentido perdido no exílio do éden.

perspectivas

Não compraria imóvel na planta, porque preciso saber das janelas de onde vou viver.

sentimentos (infinitamente) mínimos

Sem modéstia, da realidade eu sei quase tudo. Quase sufoco de tanto saber. Só que agora estou achando que a realidade é uma das faces do saber,  a mais forte quem sabe, porque é com ela que eu posso escrever coisas como esta, recorrendo a termos consagrados como “face”, “saber” e (inclusive) “realidade”.

"festival" lô borges (onde morre a trilha do meu silêncio)

Armando Freitas Filho (a decisão do azul)

VIAGEM

Pregado no céu, o gavião feito
de paciência e espaço
permanece cruzando, quase único
a estrada que atravessa, e toca
nos possíveis violinos silvestres
que o vento afina lá dentro
da mata veloz que passa
na janela do carro: zás, zap
na paisagem ― a decisão do azul.
Asas paradas e o olhar duro que
o asfalto e a distância alimentam.

Boa companhia: poesia (Org. José Almino). São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.99.

o síndico (de piaget a pinochet): a realidade como funeral das ilusões

Sobre o documentário Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho: “É de Sérgio [o síndico] a frase mais contundente do filme, ao expor o seu exercício do poder: de Piaget a Pinochet. Ou seja, ele administra exercendo primeiro o amor, não dando resultado vem a porrada. Para ele ‘a realidade é o funeral das ilusões’. O dia a dia enterra discursos mais ternos e empurra-nos (a todos) para diálogos concretos, ficando-se assim expostos às verdades cruas, por mais duras que sejam, e as mentiras engendradas perdem-se na própria falta de sentido.” (daqui)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

um mar que não cabe em mim

Oi, .................., não sei se você está muito a fim de papo, aliás, não tem nem mesmo como eu saber isso. O que sei é que as palavras não querem ficar aqui paradas, então escrevo. Acho isso que acabei de dizer bonito: escrever para não deixar as palavras paradas. Hoje eu ouviria qualquer coisa que me soasse minimalista, porque a poeira andou alta. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Howlin' Wolf: Evil

paisagem do silêncio

Atender ao telefone é receber uma visita inesperada. Porque se trata de uma voz, um diálogo, uma interlocução que estão pedindo passagem para a casa-paisagem que o eu ocupa, num momento em que a paisagem pode estar bastante ocupada, inclusive com não ser eu. Quando ouço o telefone tocar, nem sempre estou podendo efetivamente falar ― e secundariamente falar com aquele interlocutor, naquele contexto. Alguma coisa em mim diz não, não posso agora. O silêncio tem-se me tornado sagrado, e acho que o eu precisa respeitar a paisagem de seu silêncio. Isso também é uma forma de arte.
Richard Long, Sahara Line, 1988