Assisti ao filme que faltava da trilogia das cores,
"A Igualdade é Branca". As fronteiras separando os diferentes, a
própria língua como uma barreira. Gostei muito de "A Fraternidade é
Vermelha", achei até mais forte, mas este, voltado para a igualdade (pelo
menos na tradução do título), é igualmente espinhoso, ou pelo menos
incômodo. O cinema tem alguma coisa de sonho: quando consigo me lembrar do
que sonhei, enquanto me lembro tudo parece fazer sentido; depois aquilo foge,
vai embora, às vezes sem deixar qualquer vestígio consciente. Até pela
simbologia das cores, essa trilogia talvez se aproxime da região não discursiva
dos sonhos: o que fica dessas cores? O branco abre espaços (em especial quando
o protagonista volta para sua terra), mas a última cena se dá dentro de uma
prisão...
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
domingo, 31 de março de 2013
sábado, 30 de março de 2013
onde está a obra?
Em visita recente a um museu de arte contemporânea,
feita um pouco sem itinerário, logo a primeira obra me causou uma sensação
singular de susto e medo (sobre a obra há um comentário interessante aqui), e tudo o mais que tentei ver ficou impactado por essa experiência inicial, mesmo os
trabalhos antológicos de Cildo Meireles, que revisitava, ou talvez porque os revisitasse. Porque, ao me
encontrar sozinha na instalação ― o casal de amigos encontrava-se em outra ― eu
de repente me assustei com os sons e ruídos daquele espaço constituído de
barreiras físicas, que transmitiam, pelo menos a mim, uma sensação de clausura
e desconhecimento. Eu não consegui perceber a obra, ou por não conseguir apreendê-la, ou por estar demais dentro dela. Então, ao juntar elementos soltos
da sinopse lida rapidamente à entrada, pareceu-me, por não ter percebido a
obra, que alguma coisa estranha e misteriosa ia acontecer, já que durante o curto intervalo de tempo em que me encontrei lá nada (ou quase nada) eu percebia como acontecendo, por exemplo alguém
saltar do palco coberto para o espaço em que me encontrava. Só ruídos e sons num espaço pouco iluminado separado do exterior por sucessivas barreiras. Saí de lá o mais
depressa que pude, assustada e ao mesmo tempo constrangida pelo sentimento de medo. Dentro da obra, eu não a vi, e me assustei com o descompasso entre o que
prometia a sinopse e o que não consegui entrever ou perceber. Mesmo
acompanhada, não quis voltar.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Orides Fontela
MÃO ÚNICA
― é proibido
voltar atrás
e chorar.
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio
de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.296.
se?
É muito difícil limitar o espectro de ação do outro
sobre o que se configura como “eu”, como subjetividade ― sobre nós, na falta de pronome mais adequado.
Mas é preciso. Porque senão a sensação de desencontro, de descompasso, fará
mais companhia que o próprio outro, e então vai ser mesmo difícil saber quem se
poderia ter sido, o que poderia ter acontecido, porque o “se” ficará a
perturbar: e se... Algumas situações valem como aprendizado, mas outras parecem
valer mesmo apenas como incômodo. Sei que essas divagações correm o grande
risco do equívoco, mas são nestas palavras ― dentro de uma necessidade de escrita ― que o “se”
encontra hoje, para mim, formulação. É claro que mesmo o passo equivocado é
necessário, e que não há “se”.
esquecimento (efetivamente um sentimento mínimo)
Esquecer é uma dádiva que se alcança, em parte pelo
esforço e vontade, em parte pela disciplina. A percepção do esquecimento é algo
muito curioso: lembra-se, aparentemente de forma fortuita, de que algo está
sendo esquecido, está em processo de esquecimento, e então se percebe o próprio
esquecimento, pelo qual se sente gratidão e alívio. Na verdade, é o velho dando
lugar ao novo, e o lampejo da memória pode até ser uma forma de recompensa pelo
esforço em criar um novo modo de vida.
quinta-feira, 28 de março de 2013
quarta-feira, 27 de março de 2013
João Cabral de Melo Neto
NA MORTE DE JOAQUIM CARDOZO
Creio que Joyce é
que dizia
que a Irlanda dele
se comia
comendo os filhos,
como a porca
que as crias melhor
devora.
Estamos tão
desenvolvidos
que já podemos esse
estilo
de fazer Dublin,
Irlanda, Europa?
e um novo imitá-las,
em porca?
MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1997, p.122.
quarta-feira, 20 de março de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
náusea
Desci para
comprar uns complementos para o almoço, cheia de disposição para preparar meu
alimento (em vez de sair e comer fora). Mas, já na saída, deparo-me com o amor
contrariado, negado, interditado. Ao chegar ao mercado, a fila estava grande, e
deduzi que pelo horário todos haviam ido lá no mesmo intento. Foi então que a
náusea foi vindo, fazendo-se perceptível aos poucos, náusea da própria
humanidade em suas entranhas e de fazer parte delas, dessas entranhas, e a
imagem do amor interditado acentuando tudo, a náusea, o sentimento de asco, de
nojo, de recusa. Impossível almoçar depois disso. As palavras que poderiam me
salvar também estão interditadas, e então eu entro batendo o portão com alarde,
impotente diante da vida.
Orides Fontela
MIGRAÇÃO
Do leste vieram pássaros
rápidos leves
nem sombra nem rastro
deixam:
apenas passam. Não pousam.
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio
de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.187.
segunda-feira, 18 de março de 2013
teatro dos vampiros
Sonhos, sonhos, sonhos... Imagens noturnas que, à
moda de teatro, encenam conflitos ― melhor seria dizer contradições ― que a
epiderme da consciência mal suporta. Se os conflitos se deixam elaborar pelos
sonhos é incógnita. Conseguir externá-los em imagens que sobrevivem ao
esquecimento do sono é, no entanto, saber que as contradições não são meros
fantasmas: elas agitam o corpo enquanto fazem de cenário a alma.
Fernando Pessoa
As
formigas do ardor
Mato-as
sem regas nem pós,
E não
sei o que é pior ―
Se
ter por alguém amor
Ou
alguém tê-lo por nós.
Fernando
Pessoa. Poesia 1918-1930. São Paulo, Companhia
das Letras, 2007, p.403-404.
domingo, 17 de março de 2013
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