Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Renato Braz: Passarinheiro

destino

Uma fantasia qualquer me faz imaginar que um dia farei uma viagem à Grécia, e passarei por aquelas simpáticas costas com casas brancas, que devem ofuscar a vista pelo tanto de luz que refletem. É um destino turístico que promete qualquer coisa como paz, descanso e tranquilidade — sem adjetivos gregos. Naturalmente, há bovarismo neste post, assim como em planos de viagem.

domingo, 22 de dezembro de 2013

sobre "Barton Fink" (delírios de hollywood)

AQUI.

trecho de conversa: o pulsar da vida

“Sinto que tem coisas para as quais a gente tem de dar um bom desconto, pois somos muito rigorosas, não é? Eu sou...  Quero sempre eu mesma estar melhor, falar coisas melhores, observar mais, contribuir mais para o bem estar dos outros, mas o tempo corre, os segundos pulsam junto com as palavras que brotam segundo uma lógica que não controlamos e os acontecimentos são da conta de...  diria Deus, mas tenho escrúpulos... 

shine on you crazy diamond

sábado, 21 de dezembro de 2013

narrativas

“[...] as histórias são sempre maiores que nós, aconteceram conosco e sem ter delas consciência fomos seus protagonistas, mas o verdadeiro protagonista da história que vivemos não somos nós, é a história que vivemos.” (Antonio Tabucchi, O tempo envelhece depressa. Trad. Nilson Moulin. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 95.)

"Já é Natal na Leader"

Come January

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

não conforme

L E G-I (N)T I M I D A D E
                                D E   U M A  V O Z

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Walt Whitman — "but offer the value itself"

Não trago grana ou amores ou roupa ou comida .... mas é bom também ;
Não envio nenhum agente ou médium .... não ofereço nenhum representante  de valor — mas ofereço o valor em si.

WHITMAN, Walt. Folhas de relva. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 137. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Paulo Henriques Britto

BIODIVERSIDADE

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo, 
que não requerem prática, oficina, suor. 
Maneiras mais simpáticas de pagar mico 
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor. 

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo, 
como há quem não se vexe de ler e decifrar 
essas palavras bestas estrebuchando inúteis, 
cágados com as quatro patas viradas pro ar. 

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica, 
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez, 
do outro lado da linha formigando de estática, 
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três, 

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos, 
incapazes de reassumir a posição natural, 
não são na verdade uma outra forma de vida, 
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Paulo Henriques Britto. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 9.

um rabisco no papel

Bem disse quem disse que são as palavras que suportam o mundo, não os ombros. Mesmo os ombros mais fortes recorreram à poesia.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

o tecido delicado da vida

É tudo muito delicado, tão delicado que eu sinto, às vezes, uma imensa responsabilidade em viver, falar, estar em relação com o outro. Digo “eu” sabendo dos limites necessários do “eu”, limites que preservariam o que é delicado.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Edifício Master (2002) - Eduardo Coutinho

futebol brasileiro

Ia falar da última rodada do campeonato brasileiro, a propósito de uma cena vista ontem no documentário “Edifício Master”, quando a internet traz a notícia – e as imagens – de uma briga tribal entre torcedores de dois dos times que estão duelando, conforme linguagem empregada pela própria mídia para caracterizar os embates da última rodada. Tratava-se, inicialmente, voltando ao documentário de Eduardo Coutinho, da fala do ex-jogador e ex-treinador Paulo Mata, que quando técnico do Itaperuna entrou nu em campo em protesto contra o resultado na partida contra o Vasco. Paulo Mata, perguntado sobre o motivo de seu protesto, disse ao diretor-entrevistador: “o futebol brasileiro...

walt whitman: a saudável anarquia da poesia

.... Um grito no meio da multidão,
Minha própria voz, redonda e arrebatadora e definitiva.

WHITMAN, Walt. Folhas de relva. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 111. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

palavra peregrina

Enfim eu voltei para a análise, depois de praticamente desacreditar do método e sofrer os reveses do discurso pouco hábil de uma analista pouco profissional. Mas isso, a mistura entre o profissional e o pessoal, eu só vi depois, e nem adianta pensar que a fluidez desses limites é prerrogativa da psicanálise, ou sua vantagem. Eu estava sufocando nos limites estreitos daquele “consultório”... Agora voltei, depois da re-volta. Voltei mas para outro lugar, o que significa uma fronteira que se alcança. Voltei para a busca de uma escuta, uma escuta que ouça a palavra peregrina que levo e não se apresse a encaixotá-la num texto que não me pertence nem me diz respeito. Às vezes é preciso ficar com os fragmentos, os cacos do texto, porque foi isso que se conseguiu produzir como imagem — representação — de um turbilhão, de um excesso. Vamos ver o que vai, ou não, acontecer.