Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

corsário


escrever

"A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas — escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.”

Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.12-13.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Não verás país nenhum

O forte calor que está fazendo há dias faz pensar na atualidade de um livro de 1981, de Inácio de Loyola Brandão, “Não verás país nenhum”, cujo título altera substancialmente o sentido do conhecido verso de Olavo Bilac, “Não verás país nenhum como este.” O tom laudatório cede à imagem apocalíptica de uma terra devastada: não verás país nenhum. E, de fato, alguém está vendo alguma coisa, algum país (nação) a que se sente efetivamente pertencendo? Não, a não ser que consiga chamar de nação uma geografia hostil.

Emily Dickinson

Púrpura – é moda duas vezes –
Nesta época do ano
E quando uma alma se percebe
Como Soberana.


Purple – is fashionable twice –
This season of the year,
And when a soul perceives itself
To be an Emperor.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.118-119.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sebastião Uchoa Leite

INSÔNIA RESPIRATÓRIA

Antes nunca
Ouvira o invisível poema
Do respirar: não
Ouvia nada
Só o silêncio dos órgãos
Mas o segredo da vida
Era isso
Quando ninguém
Se lembra do corpo
Que de fato
É feito da mesma matéria
Do sono

LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.38.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sebastião Uchoa Leite

DUAS OU TRÊS COISAS

É ríspida
Respira o ar amargo
Arisca
Secreta
Nada fala
Xiita do oculto
Tal Emily Dickinson
Dura e pura
Ou insônia crítica
Da língua irônica

LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.52.

Sebastião Uchoa Leite

FOCOS

Poesia é a sombra
Em guarda atrás de alguém
Ou na frente
Abrindo o caminho
Diminui ou alonga o vulto
Conforme o foco solar
Abre-se ou estreita-se
No jogo hiperrealista
Entre o eu e a margem

LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.22.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

luto

Morre Eduardo Coutinho (PS: um depoimento sobre a última entrevista).

quase invisível

sobre a beatitude (Clarice Lispector)

“A beatitude começa no momento em que o ato de pensar liberou-se da necessidade da forma. A beatitude começa no momento em que o pensar-sentir ultrapassou a necessidade de pensar do autor — este não precisa mais pensar e encontra-se agora perto da grandeza do nada. Poderia dizer do ‘tudo'. Mas ‘tudo’ é quantidade, e quantidade tem limite no seu próprio começo. A verdadeira incomensurabilidade é o nada, que não tem barreiras e é onde uma pessoa pode espraiar seu pensar-sentir.”

Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.90.

tudo que alguém consegue ser... sem medo...

ilhas

As pessoas estão disponíveis... para fazer o que elas querem.

esta canção é mesmo muito linda, mais ainda na voz forte-suave de neil young

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

four strong winds

água viva

"Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar e vejo as espessas espumas mais brancas e que durante a noite as águas avançaram inquietas. Vejo isto pela marca que as ondas deixam na areia. Olho as amendoeiras da rua onde moro. Antes de dormir tomo conta do mundo e vejo se o céu da noite está estrelado e parece azul-marinho porque em certas noites em vez de negro o céu parece azul-marinho intenso, cor que já pintei em vitral. Gosto de intensidades. Tomo conta do menino que tem nove anos de idade e que está vestido de trapos e magérrimo. Terá tuberculose, se é que já não a tem. No Jardim Botânico, então, fico exaurida. Tenho que tomar conta com o olhar de milhares de plantas e árvores e sobretudo da vitória-régia. Ela está lá. E eu a olho.
Repare que não menciono minhas impressões emotivas: lucidamente falo de algumas das milhares de coisas e pessoas das quais tomo conta. Também não se trata de emprego, pois dinheiro não ganho por isto. Fico apenas sabendo como é o mundo.
Se tomar conta do mundo dá muito trabalho? Sim. Por exemplo: obriga-me a me lembrar o rosto inexpressivo e por isso assustador da mulher que vi na rua. Com os olhos tomo conta da miséria dos que vivem encosta acima.
Você há de me perguntar por que tomo conta do mundo. É que nasci incumbida.”

Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.60-61.