Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
domingo, 16 de fevereiro de 2014
sábado, 15 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Raimundo Correia
MAL SECRETO
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
Roteiro da poesia
brasileira: Parnasianismo. São Paulo: Global,
2006, p.32-33.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
escrever
"A harmonia
secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda
se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por
acrobáticas e aéreas piruetas — escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever
só esteja me dando a grande medida do silêncio.”
Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.12-13.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Não verás país nenhum
O forte calor que está fazendo há dias faz pensar
na atualidade de um livro de 1981, de Inácio de Loyola Brandão, “Não verás país nenhum”, cujo título altera substancialmente o sentido do conhecido verso de
Olavo Bilac, “Não verás país nenhum como este.” O tom laudatório cede à imagem
apocalíptica de uma terra devastada: não verás país nenhum. E, de fato, alguém
está vendo alguma coisa, algum país (nação) a que se sente efetivamente
pertencendo? Não, a não ser que consiga chamar de nação uma geografia hostil.
Emily Dickinson
Púrpura
– é moda duas vezes –
Nesta época do ano
E quando uma alma se percebe
Como Soberana.
Purple – is fashionable
twice –
This season of the year,
And when a soul perceives
itself
To be an Emperor.
DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira.
São Paulo: Iluminuras, 2008, p.118-119.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Sebastião Uchoa Leite
INSÔNIA RESPIRATÓRIA
Antes nunca
Ouvira o invisível poema
Do respirar: não
Ouvia nada
Só o silêncio dos órgãos
Mas o segredo da vida
Era isso
Quando ninguém
Se lembra do corpo
Que de fato
É feito da mesma matéria
Do sono
LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras,
2008, p.38.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Sebastião Uchoa Leite
DUAS OU TRÊS COISAS
É ríspida
Respira o ar amargo
Arisca
Secreta
Nada fala
Xiita do oculto
Tal Emily Dickinson
Dura e pura
Ou insônia crítica
Da língua irônica
LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras,
2008, p.52.
Sebastião Uchoa Leite
FOCOS
Poesia é a sombra
Em guarda atrás de alguém
Ou na frente
Abrindo o caminho
Diminui ou alonga o vulto
Conforme o foco solar
Abre-se ou estreita-se
No jogo hiperrealista
Entre o eu e a margem
LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras,
2008, p.22.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
sobre a beatitude (Clarice Lispector)
“A
beatitude começa no momento em que o ato de pensar liberou-se da necessidade da
forma. A beatitude começa no momento em que o pensar-sentir ultrapassou a
necessidade de pensar do autor — este não precisa mais pensar e encontra-se
agora perto da grandeza do nada. Poderia dizer do ‘tudo'. Mas ‘tudo’ é
quantidade, e quantidade tem limite no seu próprio começo. A verdadeira
incomensurabilidade é o nada, que não tem barreiras e é onde uma pessoa pode
espraiar seu pensar-sentir.”
Clarice
Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.90.
Assinar:
Postagens (Atom)


