A cara traz no nome uma metáfora (messias) e uma metonímia
(bolso). Geral foi de metáfora. Sinto uma espécie de horror cotidiano, cujo
sintoma mais imediato é o álcool e a depressão. O Brasil acabou. Depois dessa distopia virá outra e outra e outra...
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
terça-feira, 20 de agosto de 2019
terça-feira, 13 de agosto de 2019
quarta-feira, 24 de julho de 2019
hacker?
O Brasil
entrou de vez no circuito mundial da realidade paralela. Com o Supremo, com tudo.
Terra arrasada é o que viramos. O nível de ficção é tal que faz do jornalismo
brasileiro hegemônico uma espécie de bolha. Zero credibilidade. Impossível qualquer prognóstico, a não ser a continuação da histeria coletiva, que nos levará só Deus sabe onde.
domingo, 7 de julho de 2019
Herberto Helder: a paixão grega
Li algures que os gregos antigos não escreviam
necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega
Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo. Assírio & Alvim, Lisboa: 2008. (daqui)
sábado, 6 de julho de 2019
de vez
Professor de português
perde a cabeça de vez.
Nada há a fazer
a não ser um poema
sobre frutos ainda
de vez.
Ana Cristina César: "Psicografia"
Também
eu saio à revelia
e
procuro uma síntese nas demoras
cato
obsessões com fria têmpera e digo
do
coração: não soube e
digo
da
palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na
vida) e demito o verso como quem acena
e
vivo como quem despede a raiva de ter visto
CÉSAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras,
2013, p.193.
sábado, 15 de junho de 2019
quinta-feira, 23 de maio de 2019
sábado, 18 de maio de 2019
A responsabilidade de cada um na luta contra a destruição do Brasil
"Como pesquisa o estudante sem bolsa? Como ensina o professor sem
condições de trabalho? Como se mantém a universidade sem recursos?" (Eliane Brum, aqui).
quinta-feira, 16 de maio de 2019
quarta-feira, 15 de maio de 2019
o desgoverno da azêmola em prints (1)
Tomo
emprestado de Luiz Antônio Simas o termo azêmola, para fazer referência ao ser
que, na campanha presidencial de 2018, chamava de "inominável".
quarta-feira, 1 de maio de 2019
domingo, 21 de abril de 2019
exílio às avessas
Já faz um tempo
que o que sinto é cansaço, da vida mesmo. Chegar aos 50 anos inevitavelmente
evoca a célebre fala de Glauber Rocha, de que aos 43 já tinha vivido tudo o que
tinha pra viver. Mesma sensação, sem a contraparte das realizações. Mas isso
não é uma carta de suicida. Suicídio é ter nascido no Brasil, vivido a abertura
política e a redemocratização, acreditado em alguma espécie de futuro (crença
fatal a qualquer jovem com alguma saúde mental) e agora encontrar o passado.
Não vou sair, é certo, porque sei que não há saída, e aqui é a luta. Entendo os
que precisaram ou escolheram sair. Mas acho desrespeitoso que, tendo condições
para tal, fiquem mandando selfies de
sua nova vida no exterior. Porque muitos não conseguem sequer sair da favela em
que nasceram. Então tudo isso dá um enorme cansaço, e não há o que fazer, a não
ser continuar.
domingo, 30 de dezembro de 2018
O que é um FDP?
Ainda vou escrever um artigo sobre o real significado
do xingamento “filho da puta”. Não é a mãe que está sendo xingada, mas a
própria pessoa. Prostitutas fazem sexo em troca de dinheiro: a função da
procriação, prevista na Bíblia para a atividade sexual desde Adão e Eva, não
está contemplada. Se prostitutas engravidam, trata-se de um acidente, de um desvio de
função. Logo, se alguém é filho da puta, esse alguém é um equívoco, porque em
princípio não era para ter sido concebido. É alguém que não deveria existir,
considerando, como se colocou acima, a prostituição como uma atividade
comercial. O fdp é um equívoco. É disso que se trata o xingamento.
possessão
O PT e o PSOL não vão na cerimônia de posse, ou na possessão, como tem sido chamada no twitter? Não, não vão. Não vão
bater palma para maluco fascista dançar.
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