Assim entendi chamar minha dor.
mar à vista da ilha
(de um poema de Mário Faustino)
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
quarta-feira, 3 de junho de 2026
quinta-feira, 9 de abril de 2026
"para o céu dos passarinhos"
O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.185.
domingo, 18 de janeiro de 2026
Orides Fontela: "Policial"
POLICIAL
Culpados
ou
cúmplices
nunca temos
álibi:
por força, estamos
aqui.
FONTELA, Orides. Poesia completa. Org. Luis Dolhnikoff. São Paulo: Hedra, 2015, p.329.
sábado, 3 de janeiro de 2026
sábado, 22 de novembro de 2025
Leonardo Fróes (1941-2025)
Nem saudade nem pressa: paciência.
Aprender essa arte,
conjugá-la com a sorte.
Nem mesmo a sede inextinguível
de inventar necessidades
para satisfazer-se à larga.
Somente a paciência dos anjos
que entoam cantos em louvor.
Somente a paciência dos doidos.
FRÓES, Leonardo. Trilha. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2015, p.126.
domingo, 16 de novembro de 2025
Ana Martins Marques
mesa
mais importante que já ter amado um dia é ter
uma mesa sólida
uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor
não meter os pés pelas mãos
mas mais importante é ter uma mesa
porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia
os que ainda não caíram de vez
sábado, 15 de novembro de 2025
Lô Borges (1952 - 2025)
Depois de quase duas semanas, a morte de Lô Borges consegue encontrar um lugar de apaziguamento em mim. Lô Borges e Milton Nascimento criaram, junto a uma trupe de compositores e letristas talentosíssimos, o movimento musical que entrou para a história da MPB como Clube da Esquina, história muito bem contada no livro "Os sonhos não envelhecem". Dentre as muitas canções de Lô Borges, "Trem de Doido" ocupa um lugar especial, por fazer parte do movimento antimanicomial no Brasil. Mas são tantas outras canções que aprecio ouvir que se trata de uma escolha quase arbitrária. Eu não sabia que gostava tanto de você, Lô. Para sempre vou te amar.
domingo, 3 de agosto de 2025
sábado, 3 de maio de 2025
PARTE ALGUMA - Ana Martins Marques
Não te enganes: viajar é aborrecido.
Num ponto, ao menos, todos os lugares
se parecem: neles já se passou
algo terrível.
As viagens cansam
e são tristes.
Viajando apenas constatamos
a repetição tediosa do que existe.
Pois para onde quer que compremos passagem
levamos a nós mesmos na bagagem.
Viajar é conduzir o corpo
— esse comboio imundo —
a um estéril atrito com o mundo
e depois passar o dia inteiro
usando a língua como quem usa dinheiro.
Nem a página em branco dos desertos
nem as savanas e sua promessa de aventura
substituem uma hora de leitura.
Mesmo as longas praias e as montanhas
mesmo os sítios inflacionados de história
mesmo as pirâmides os oráculos a arte
e o lugar preciso para se ver
do melhor ângulo
o sol se pôr como se põe em toda parte
serão depois riscados da memória.
Mais vale afinal ficar em casa
se é que se tem uma
e enviar-te este postal
de parte alguma.
MARQUES, Ana Martins. Risque esta palavra: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p.56-57.
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