Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 5 de junho de 2026

Cristina Peri Rossi

OS FILHOS DE BABEL 

Deus está dormindo 

e em sonhos balbucia. 

Somos as palavras desse Deus 

confuso 

que em eterna solidão 

fala para si mesmo. 

 

ROSSI, Cristina Peri.  Nossa vingança é o amor. Antologia poética (1971-2024). Org. e trad.  Aylén Medail e Cide Piquet. São Paulo: Ed. 34, 20025, p. 81. 

André Dahmer - “Língua braço armado do coração”

por último 

lembrem-se sempre dos que morreram 

buscando a felicidade 

americanos em parques de diversão 

alpinistas no everest e 

empresários cansados de ganhar dinheiro 

em seus helicópteros  

a caminho de angra dos reis 

essa gente não faz mágica 

 

DAHMER, André. Impressão sua: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p. 105.  

quinta-feira, 4 de junho de 2026

ZELIG - Renato Rezende

Como se não bastasse 
ser gente 
é preciso ser também 
médico, professor, gerente. 
Tudo bem. O Sr. Souza 
é gerente de compras. 
A Dona Raimunda 
tem como profissão 
alugar o corpo. 
Me perguntam o que sou. 
Poeta e pintor, eu digo, 
ou aprendiz de mendigo. 
(Algo que de si mesmo 
duvida.) 
Meu nome é Zelig 
e às vezes São Francisco. 
Indefinível, sem qualidades 
disassocio-me do meu corpo 
que alguns chamam de veículo. 
Me despeço do meu destino. 
Sou metade vazio 
e oco no meio 
(a melhor parte de mim mesmo 
onde sou mais inteiro). 
Me espero no que restará 
do fundo do meu próprio abismo. 
  

O sol no mar infinito.     

                                                      


Rio de Janeiro, 7 de março de 1997 
 

 REZENDE, Renato. Passeio. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001, p. 35-36. 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

"para o céu dos passarinhos"

O PARDALZINHO

O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.185.

Imagem daqui.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Orides Fontela: "Policial"

POLICIAL 

Culpados 

ou  

cúmplices 

nunca temos  

álibi: 

 

por força, estamos 

aqui. 

 

FONTELA, Orides.  Poesia completa. Org. Luis Dolhnikoff. São Paulo: Hedra, 2015, p.329.

sábado, 22 de novembro de 2025

Leonardo Fróes (1941-2025)

BEM SECRETO
 

Nem saudade nem pressa: paciência.  

Aprender essa arte,  

conjugá-la com a sorte.  

 

Nem mesmo a sede inextinguível  

de inventar necessidades  

para satisfazer-se à larga.  

 

Somente a paciência dos anjos  

que entoam cantos em louvor.  

Somente a paciência dos doidos.  

 

FRÓES, Leonardo. Trilha. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2015, p.126.