Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

vida de passarinho

Numa turma de 6º ano, quando fui introduzir mitos, comecei por esboçar uma espécie de diferença entre realidade e ficção, me valendo de tudo que lembrava disso, mas usando linguagem própria. Tentava dizer que a relação com a "realidade" é, em maior ou menor grau, mediada, e com isso perpassada por algum componente de fantasia. Isso o que recordo da minha fala. Então um garotinho, que eu particularmente estimava, me interrompeu e disse: "Professora, não fala essas coisas não que eu fico nervoso" (e foi engraçado o jeito com que ele disse isso, impossível traduzir aqui na escrita). Parei na hora e olhei para ele curiosa, afinal "essas coisas" era o conteúdo que eu estava explanando. Ele disse então alguma coisa sobre sentir medo à noite, na hora de dormir, ficar agitado, nervoso, e mais outras coisas que eu achei melhor não entender. O que eu entendi, da voracidade de leitura e filmes daquela turma, é que eles estavam alimentando intensamente a imaginação com coisas que iam além da capacidade de assimilar. O imaginário infantil é delicado, mas eles vinham me contar sobre filmes que eu mesma não consigo assistir, e alguns relatavam inclusive "verem coisas". De modo que certa feita perguntei-lhes se os pais deles tinham conhecimento do que eles estavam assistindo. Tratava-se de uma espécie de hiper mediação, na falta de termo melhor. Se este post diz muito do meu tatear/hesitar ao lidar com o público infantil, na condição de professora acostumada ao ensino médio e ao terceiro grau, percebo, pelo menos, que não se apresenta uma obra, um filme, um autor para uma criança sem pensar nas consequências. As aves que hoje gorjeiam na infância não são aquelas que pontificavam na minha, no sítio de pica-pau amarelo. Talvez esta a maior dificuldade: as aves não podem ser as mesmas, pois as narrativas são outras.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um conto de Monteiro Lobato

Meu conto de Maupassant

Conversavam no trem dois sujeitos. Aproximei-me e ouvi:
― "Anda a vida cheia de contos de Maupassant; infelizmente há pouquíssimos Guys..."
― "Por que Maupassant e não Kipling, por exemplo?"
― "Porque a vida é amor e morte, e a arte de Maupassant é nove em dez um enquadramento engenhoso do amor e da morte. Mudam-se os cenários, variam os atores, mas a substância persiste – o amor, sob a única face impressionante, a que culmina numa posse violenta de fauno incendiado de luxúria, e a morte, o estertor da vida em transe, o quinto ato, o epílogo fisiológico. A morte e amor, meu caro, são os dois únicos momentos em que a jogralice da vida arranca a máscara e freme num delírio trágico."
― "?"
― "Não te rias. Não componho frases. Justifico-me. Na vida, só deixamos de ser uns palhaços inconscientes a mentirmos à natureza quando esta, reagindo, põe a nu o instinto hirsuto ou acena o ‘basta’ final que recolhe o mau ator ao pó. Só há grandeza, em suma, e ‘seriedade’, quando cessa de agir o pobre jogral que é o homem feito, guiado e dirigido por morais, religiões, códigos, modas e mais postiços de sua invenção – e entra em cena a natureza bruta."
― "A propósito de que tanta filosofia, com este calor de janeiro?..."
O comboio corria entre São José e Quiririm. Região arrozeira em plena faina do corte. Os campos em sega tinham o aspecto de cabelos louros tosados à escovinha. Pura paisagem europeia de trigais.
A espaços feriam nossos olhos quadros de Millet, em fuga lenta, se longe, ou rápida, se perto. Vultos femininos de cesta à cabeça, que paravam para ver passar o trem. Vultos de homens amontoando feixes de espigas para a malhação do dia seguinte. Carroções tirados a bois recolhendo o cereal ensacado. E como caía a tarde e a Mantiqueira já era uma pincelada opaca de índigo a barrar a imprimadura evanescente do azul, vimos em certo trecho o original do "Angelus"...
― "Já te digo a propósito de que vem tanta filosofia."
E, enfiando os olhos pela janela, calou-se. Houve uma pausa de minutos. Súbito, apontando um velho saguaraji avultado à margem da linha e logo sumido para trás, disse:
― "A propósito dessa árvore que passou. Foi ela comparsa no ‘meu conto de Maupassant’".
― "Conta lá, se é curto."
O primeiro sujeito não se ajeitou no banco, nem limpou o pigarro, como é de estilo. Sem transição, foi logo narrando.
― "Havia um italiano, morador destas bandas, que tinha vendola na estrada. Tipo mal-encarado e ruim. Bebia, jogava, por várias vezes andou às voltas com as autoridades. Certo dia – eu era delegado de polícia – uns piraquaras vieram dizer-me que em tal parte jazia o ‘corpo morto’ de uma velha, picado à foice.
Organizei a diligência e acompanhei-os. ‘É naquele saguaraji’, disseram ao aproximarem-se da árvore que passou. Espetáculo repelente! Ainda tenho na pele o arrepio de horror que me correu pelo corpo ao dar uma topada balofa num corpo mole. Era a cabeça da velha, semi-oculta sob folhas secas. Porque o malvado a decepara do tronco, lançando-a a alguns metros de distância.
Como por sistema eu desconfiasse do italiano, prendi-o. havia contra ele indícios fortes. Viram-no sair com a foice, a lenhar, na tarde do crime.
Entretanto, por falta de provas, foi restituído à liberdade, mau grado meu, pois cada vez mais me capacitava da sua culpabilidade. Eu pressentia naquele sórdido tipo – e negue-se valor ao pressentimento! – o miserável matador da pobre velha."
― "Que interesse tinha no crime?"
― "Nenhum. Era o que alegava. Era como argumentava a logicazinha trivial de toda a gente. Não obstante, eu o trazia de olho, certo de que era o homicida.
O patife, não demorou muito , traspassou o negócio e sumiu. Eu do meu lado deixei a polícia e do crime só me ficou, nítida, a sensação da topada mole na cabeça da velha.
Anos depois o caso reviveu. A polícia obteve indícios veementes contra o italiano, que andava por São Paulo num grau extremo de decadência moral, pensionista do xadrez por furtos e bebedices. Prenderam-no e remeteram-no para cá, onde o júri iria decidir da sua sorte."
― "Os teus pressentimentos..."
O sujeito sorriu com malícia e continuou.
― "Não resistiu, não reagiu, não protestou. Tomou o trem no Brás e veio de cabeça baixa, sem proferir palavra, até São José; daí por diante (quem o conta é um soldado de escolta), metia amiúde os olhos pela janela, como preocupado em ver qualquer coisa na paisagem, até que defrontou o saguaraji. Nesse ponto armou um pincho de gato e despejou-se pela janela fora. Apanharam-no morto, de crânio rachado, a escorrer-lhe a couve-flor dos miolos perto da árvore fatal."
― "O remorso!"
― "Está aqui o ‘meu conto de Maupassant’. Tive a impressão dele nas palavras do soldado da escolta: ‘veio de cabeça baixa até São José, daí por diante enfiou os olhos pela janela até enxergar a árvore e pinchou-se’. No progresso ingênuo da narrativa, li toda a tragédia íntima daquele cérebro, senti todo um drama psicológico que nunca será escrito..."
― "É curioso", comentou o outro, pensativamente.
Mas o primeiro sujeito acendeu o cigarro e concluiu sorridente, com pausada lentidão:
― "O curioso é que mais tarde um dos piraquaras denunciadores do crime, e filho da velha, preso por picar um companheiro a foiçadas, confessou-se também o assassino da velhinha, sua mãe..."
― "?"
― "Meu caro, aquele pobre Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde disse muita coisa, quando disse que a vida sabe melhor imitar a arte do que a arte imitar a vida."

LOBATO, Monteiro. Meu conto de Maupassant. Urupês. 37.ed.  São Paulo Brasiliense, 1994, p.83-86.