Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

o sol


Há uma semana faz um sol imperioso aqui no Rio de Janeiro — absoluto, quente, sem nuvens para amenizar. O calor, sem exagero, está infernal, e as praias, lotadas. Em particular sinto-me refém, saindo de casa apenas para o necessário e optando por não duelar com o sol — o fim de tarde e a noite tornaram-se horários alternativos para sair, inclusive ir à praia e entrar no mar sem sentir que a pele está sendo devorada pelo sol. Acredito que muitos tenham o mesmo sentimento, e olham as praias lotadas com indiferença. O ar condicionado é indispensável para dormir. Mas, mas, mas... aqui não temos a pena de morte — pelo menos oficialmente. Parece hipócrita o que estou dizendo, e em muitos sentidos talvez o seja. Implica a visão a partir de um certo lugar social. Mas quando vejo comentários raivosos na internet desejando a implementação da pena capital no país, me espanto e me pergunto de onde vem tanto ódio.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Rio pós-moderno

O trânsito dessa cidade está muito ruim — péssimo é o termo adequado. E sua propalada beleza, fonte de divisas na exploração do turista, anda sofrendo reveses. Há seis anos, quando vinha fazer pesquisas para a tese na Biblioteca Nacional, sem imaginar que em breve iria transferir minha vida para cá, apaixonei-me pelo centro da cidade, a arquitetura preservada do tempo do Império, a elegância da Rio Branco. Mas a geografia do centro do Rio mudou bastante após o fenômeno das manifestações. Agora os tapumes dominam a fachada das agências bancárias, bem como de alguns órgãos públicos, e não há redenção para tamanho mau gosto. Quem te viu, quem te vê, diria talvez Chico Buarque, se estivesse pontificando na cena política. O centro do Rio está feioso, perdeu o charme, a elegância da arquitetura combinada ao traço moderno. No Rio pós-moderno a política tem deixado dois rastros de destruição: um oficial, configurado no bota-abaixo do furor obreiro da prefeitura, em conluio com as esferas estadual e federal; um não oficial, fruto da violência das manifestações, inclusive contra os mandatários das obras.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

sobre os mortos

Durante um dos passeios em Paraty, o guia explicou que a praça principal da cidade foi construída sobre um cemitério desativado. Então ele passou a explicar que nem todos os mortos foram transferidos para o novo cemitério, restando ali, sob solo frequentado por ávidos vivos. Os guias, mesmo quando pensar estar divertindo, acabam contando a história da cidade, marcada por inúmeras segregações.
atual cemitério da cidade

sábado, 26 de janeiro de 2013

viajo porque preciso...

Mesmo não sendo o homem do futuro, viajamos no tempo. Basta frequentar o cinema. Zapeando os canais, detive-me na parte final do belo filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. Uma viagem para fora de si mesmo e para trás, no tempo, para um vilarejo prestes a desparecer no interior do sertão nordestino, em virtude da construção de um açude.
Quase estava esquecendo o assunto quando deparei-me com uma reportagem falando dos escombros e ruínas da cidade emersos em virtude da estiagem. É muita coincidência o município de Piranhas Velhas (PB) aparecer-me duas vezes no mesmo dia, na crueza da ficção e na mesma crueza da realidade. Uma das cenas finais do filme é a incursão por uma das construções prestes a desaparecer (o açude data de 1936), em que constam os seguintes dizeres: HOMENAGEM DO POVO DO SÉCULO XIX AO POVO DO SÉCULO XX, que não percebeu a sutileza da homenagem.
No filme, paisagens e amores são deixados para trás (luta-se para deixá-los), enquanto paradoxalmente o passado se faz mais presente, num aceno leve e irônico para o futuro. Fica para trás sobretudo o eu que habitou as paisagens desaparecidas (inclusive as interiores), porque não há como separá-lo delas, de uma geografia. Enquanto isso viaja-se no tempo, passado e futuro construindo um intrincado onde, enquanto a personagem busca renovar sua vida, um fundo de ironia insiste em acenar do passado. Não há homem do futuro, mas talvez possa haver homem do passado, resgatado na delicadeza do traço imagético do filme. A homenagem é ao passado que resistiu, não ao futuro que o destruiu.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

chuva de verão

A forte chuva que cai agora, e que para mim é apenas uma agradável paisagem semibucólica pela janela, para muitos cariocas significa transtorno, morte e destruição, então não dá nem mesmo para ficar feliz com ela.

domingo, 29 de julho de 2012

clarice lispector, macacos, rio de janeiro

Vou ao dicionário saber mais sobre os saguis (agora sem trema) antes de começar, para não correr o risco de falar do primata errado. Descubro-os, entre outras coisas, pertencentes à família dos calitriquídeos: pequenos primatas, florestais, da família dos calitriquídeos, com cerca de 20 espécies, encontradas nas Américas Central e do Sul; com até 37 cm de comprimento do corpo, cauda longa e não preênsil, pelagem macia e densa, de colorido variável, unhas em forma de garra e polegar não oponível; vivem em pequenos grupos e se alimentam principalmente de insetos e frutas. Então, são mesmo saguis os pequenos primatas que ouço e vejo (mais ouço que vejo) todo dia nas imediações de onde moro. Pequenos, delicados, reúnem-se nas árvores do outro lado da rua. Já me acostumei a ouvi-los, principalmente pela manhã. A memória imediata despertada foi o sítio de minha irmã em Domingos Martins. É como se pudesse ter um torrão de lá aqui, no andar alto de um prédio localizado em via bastante movimentada. E foi talvez pela súbita familiaridade com os saguis, com sua companhia benfazeja, que a notícia da morte por envenenamento de seis macacos no bairro Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, ancorou mais que outras notícias, afinal sequer moro no bairro. Mas moro na mesma cidade, e se já havia lido outras vezes a crônica “Macacos” de Clarice Lispector, agora a cidade enveredou-se ao texto: “Meus sentimentos desviavam o olhar. A inconsciência feliz e imunda do macacão-pequeno tornava-me responsável pelo seu destino, já que ele próprio não aceitava culpas. Uma amiga entendeu de que amargura era feita a minha aceitação, de que crimes se alimentava meu ar sonhador, e rudemente me salvou: meninos do morro apareceram numa zoada feliz, levaram o homem que ria, e no desvitalizado Ano Novo eu pelo menos ganhei uma casa sem macaco.” (Os melhores contos de Clarice Lispector. 3.ed. São Paulo: Global, 2001, p.99).

quinta-feira, 5 de julho de 2012

cidade ao anoitecer

Hoje, no Centro, já anoitecendo, um homem, batedor de carteira, corria em disparada, quando caiu violentamente no meio da rua e foi dominado por dois policiais, que mediam velocidade com ele em perseguição desatinada. Os transeuntes pareciam extasiados com a cena. Ouvi o baque de seu corpo de encontro ao chão. Enquanto isso, as lojas de roupas femininas estampavam liquidação com preços de três dígitos antes da vírgula. Na troca de turno dia/noite das ruas do Centro, aos poucos foram rareando os frequentadores habituais  exceto nos pontos de happy hour  e começando a ganhar evidência catadores de papel e moradores de rua  criaturas da noite, lembrando o título de uma canção cujo lirismo passa distante desse mundo desencantado.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

a arte de andar pelas ruas do rio de janeiro

Copacabana, princesinha do mar. Andar pelas ruas de Copacabana, não sendo carioca mas morador(a) do Rio, é sentir-se um turista sem precisar das havaianas ― um turista acidental, para recordar o filme ― se bem que é fácil transmutar-se em turista em qualquer lugar que se esteja. A geografia, no Rio, mistura-se a um tempo, uma cidade, que não conheci, e que me chegou pela música, pela crônica. É estar num presente cheio de passado, passado agredido pelo presente. Então, atraída pelo mar, cheguei até o calçadão da Av. Atlântica e quase me apeteceu um chope. Em vez, mirei ao longe o Leme   e fui cuidar da vida.