Há uma semana faz um sol imperioso aqui no Rio de
Janeiro — absoluto, quente, sem nuvens para amenizar. O calor, sem exagero,
está infernal, e as praias, lotadas. Em particular sinto-me refém, saindo de
casa apenas para o necessário e optando por não duelar com o sol — o fim de
tarde e a noite tornaram-se horários alternativos para sair, inclusive ir à
praia e entrar no mar sem sentir que a pele está sendo devorada pelo sol. Acredito
que muitos tenham o mesmo sentimento, e olham as praias lotadas com
indiferença. O ar condicionado é indispensável para dormir. Mas, mas, mas... aqui
não temos a pena de morte — pelo menos oficialmente. Parece hipócrita o que estou
dizendo, e em muitos sentidos talvez o seja. Implica a visão a partir de um
certo lugar social. Mas quando vejo comentários raivosos na internet desejando
a implementação da pena capital no país, me espanto e me pergunto de onde vem
tanto ódio.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
terça-feira, 22 de abril de 2014
sábado, 8 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Rio pós-moderno
O trânsito dessa cidade está muito ruim — péssimo é o
termo adequado. E sua propalada beleza, fonte de divisas na exploração do
turista, anda sofrendo reveses. Há seis anos, quando vinha fazer pesquisas para
a tese na Biblioteca Nacional, sem imaginar que em breve iria transferir minha
vida para cá, apaixonei-me pelo centro da cidade, a arquitetura preservada do
tempo do Império, a elegância da Rio Branco. Mas a geografia do centro do Rio
mudou bastante após o fenômeno das manifestações. Agora os tapumes dominam a
fachada das agências bancárias, bem como de alguns órgãos públicos, e não há
redenção para tamanho mau gosto. Quem te
viu, quem te vê, diria talvez Chico Buarque, se estivesse pontificando na
cena política. O centro do Rio está feioso, perdeu o charme, a elegância da
arquitetura combinada ao traço moderno. No Rio pós-moderno a política tem
deixado dois rastros de destruição: um oficial, configurado no bota-abaixo do furor
obreiro da prefeitura, em conluio com as esferas estadual e federal; um não
oficial, fruto da violência das manifestações, inclusive contra os mandatários
das obras.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
sobre os mortos
Durante um dos passeios em Paraty, o guia explicou
que a praça principal da cidade foi construída sobre um cemitério desativado.
Então ele passou a explicar que nem todos os mortos foram transferidos para
o novo cemitério, restando ali, sob solo frequentado por ávidos vivos. Os guias, mesmo quando pensar estar divertindo, acabam
contando a história da cidade, marcada por inúmeras segregações.
atual cemitério da cidade
sábado, 26 de janeiro de 2013
viajo porque preciso...
Mesmo não sendo o homem do futuro, viajamos no
tempo. Basta frequentar o cinema. Zapeando os canais, detive-me na parte final
do belo filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, Viajo Porque
Preciso, Volto Porque Te Amo. Uma viagem para fora de si mesmo e
para trás, no tempo, para um vilarejo prestes a desparecer no interior do
sertão nordestino, em virtude da construção de um açude.
Quase estava esquecendo o assunto
quando deparei-me com uma reportagem falando dos escombros e ruínas da cidade
emersos em virtude da estiagem. É muita coincidência o município de Piranhas Velhas (PB) aparecer-me
duas vezes no mesmo dia, na crueza da ficção e na mesma crueza da realidade.
Uma das cenas finais do filme é a incursão por uma das construções prestes a
desaparecer (o açude data de 1936), em que constam os seguintes dizeres:
HOMENAGEM DO POVO DO SÉCULO XIX AO POVO DO SÉCULO XX, que não percebeu a
sutileza da homenagem.
No filme, paisagens e amores são deixados para trás (luta-se para deixá-los), enquanto paradoxalmente o passado se faz mais presente, num aceno leve e irônico
para o futuro. Fica para trás sobretudo o eu que habitou as paisagens
desaparecidas (inclusive as interiores), porque não há como separá-lo delas, de
uma geografia. Enquanto isso viaja-se no tempo, passado e futuro construindo um
intrincado onde, enquanto a personagem busca renovar sua vida, um fundo de
ironia insiste em acenar do passado. Não há homem do futuro, mas talvez possa
haver homem do passado, resgatado na delicadeza do traço imagético do filme. A
homenagem é ao passado que resistiu, não ao futuro que o destruiu.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
chuva de verão
A forte
chuva que cai agora, e que para mim é apenas uma agradável paisagem
semibucólica pela janela, para muitos cariocas significa transtorno, morte e destruição, então não dá nem mesmo para ficar
feliz com ela.
domingo, 29 de julho de 2012
clarice lispector, macacos, rio de janeiro
Vou ao dicionário
saber mais sobre os saguis (agora sem trema) antes de começar, para não correr
o risco de falar do primata errado. Descubro-os,
entre outras coisas, pertencentes à família dos calitriquídeos: pequenos primatas, florestais, da família
dos calitriquídeos, com cerca de 20 espécies, encontradas nas Américas Central
e do Sul; com até 37 cm de comprimento do corpo, cauda longa e não preênsil,
pelagem macia e densa, de colorido variável, unhas em forma de garra e polegar
não oponível; vivem em pequenos grupos e se alimentam principalmente de insetos
e frutas. Então, são mesmo saguis os pequenos
primatas que ouço e vejo (mais ouço que vejo) todo dia nas imediações de onde
moro. Pequenos, delicados, reúnem-se nas árvores do outro lado da rua. Já me
acostumei a ouvi-los, principalmente pela manhã. A memória imediata despertada
foi o sítio de minha irmã em Domingos Martins. É como se pudesse ter um torrão
de lá aqui, no andar alto de um prédio localizado em via bastante movimentada.
E foi talvez pela súbita familiaridade com os saguis, com sua companhia
benfazeja, que a notícia da morte por envenenamento de seis macacos no bairro Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, ancorou mais que outras
notícias, afinal sequer moro no bairro. Mas moro na mesma cidade, e se
já havia lido outras vezes a crônica “Macacos” de Clarice Lispector, agora a cidade
enveredou-se ao texto: “Meus sentimentos desviavam o olhar. A inconsciência
feliz e imunda do macacão-pequeno tornava-me responsável pelo seu destino, já
que ele próprio não aceitava culpas. Uma amiga entendeu de que amargura era feita
a minha aceitação, de que crimes se alimentava meu ar sonhador, e rudemente me
salvou: meninos do morro apareceram numa zoada feliz, levaram o homem que ria,
e no desvitalizado Ano Novo eu pelo menos ganhei uma casa sem macaco.” (Os melhores contos de Clarice Lispector.
3.ed. São Paulo: Global, 2001, p.99).
quarta-feira, 11 de julho de 2012
quinta-feira, 5 de julho de 2012
cidade ao anoitecer
Hoje, no Centro, já anoitecendo,
um homem, batedor de carteira, corria em disparada, quando caiu violentamente
no meio da rua e foi dominado por dois policiais, que mediam velocidade com ele
em perseguição desatinada. Os transeuntes pareciam extasiados com a cena. Ouvi
o baque de seu corpo de encontro ao chão. Enquanto isso, as lojas de roupas
femininas estampavam liquidação com preços de três dígitos antes da vírgula. Na
troca de turno dia/noite das ruas do Centro, aos poucos foram rareando os
frequentadores habituais ― exceto nos pontos de happy hour ― e começando a ganhar evidência catadores de papel e
moradores de rua ― criaturas da noite, lembrando o título de uma
canção cujo lirismo passa distante desse mundo desencantado.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
a arte de andar pelas ruas do rio de janeiro
Copacabana, princesinha do mar. Andar pelas ruas de Copacabana, não sendo carioca mas morador(a) do Rio, é sentir-se um turista sem precisar das havaianas ― um turista acidental, para recordar o filme ― se bem que é fácil transmutar-se em turista em qualquer lugar que se esteja. A geografia, no Rio, mistura-se a um tempo, uma cidade, que não conheci, e que me chegou pela música, pela crônica. É estar num presente cheio de passado, passado agredido pelo presente. Então, atraída pelo mar, cheguei até o calçadão da Av. Atlântica e quase me apeteceu um chope. Em vez, mirei ao longe o Leme ― e fui cuidar da vida.
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