Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 23 de outubro de 2011

broken mirror

Picasso, Girl Before a Mirror, 1932 (aqui)

Diante do espelho quebrado, a ilusão da ilesa face original. Espelho quebrado ― contingência com que mais cedo ou mais tarde a face vai se defrontar. Não há como restaurar o espelho. Não há como prescindir de uma face. Que nela não se espelhe, qual mosaico tênue, o espelho quebrado (vísceras íntimas) do sujeito. Mas, fugindo à rigidez da armadura quixotesca, possa a face não mentir ao desencontro com o espelho. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Murilo Mendes e Pablo Picasso

PICASSO

Quem pega a vida à unha como tu?
Só mesmo Espanha, tua mãe e mestra.
Paris formou o espaço de tua técnica,
Mas Espanha te deu o estilo de contrastes,
O gosto de regressar ao centro do problema,
De investigar a matéria da vida
E atingir o osso:
Construindo e destruindo ao mesmo tempo.

*

Situas o objeto inimigo,
Súbito assimilado.
As cores são de inventor, não de colorista.
A natureza morta
Retoma a lição espanhola:
Os elementos do quadro são “dramatis personae”
Que se cruzam no silêncio fértil.
Roma, Grécia ou África
Te servem de pretexto plástico:
O corpo extrai da vida
Sua força pessoal e polêmica.

*

Feito à imagem da Espanha, tu, Picasso,
Soube fundir a força e a contenção.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.616-617. Galeria Pablo Picasso AQUI.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

terça-feira, 21 de junho de 2011

Guernica


Jamais poderei esquecer, num verão quente do ES, em que estudávamos nas férias, compensando mais uma greve, que o professor dedicou, no curso de semiótica, três aulas consecutivas, perfazendo cerca de dez horas, a esta tela, de que me ficou, sobretudo, a imagem agônica do cavalo atravessado pela lança como o feminino destroçado (não excluídas outras incursões). O professor se chama Lino Machado e publicou este livro: As palavras e as cores: Guernica (e mais) na caligrafia de Carlos de Oliveira (Vitória: Edufes, 1999). Recentemente apareceu-me em sonho, precocemente envelhecido, e não sei até que ponto fui eu que envelheci neste sonho, haja vista que a pessoa que mais me interessava naquele grupo da UFES, minha querida amiga Maria Fernanda, veio, ou melhor, voltou de vez, para o Rio de Janeiro, trazendo para cá o que em vão eu ainda poderia buscar lá. 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Kafka acerca de Picasso

Femme au Balcon, 1937

"Quando visitava uma exposição de pintura francesa numa galeria de Praga, Franz Kafka ficou diante de várias obras de Picasso, naturezas-mortas cubistas e alguns quadros pós-cubistas. Estava acompanhado na ocasião pelo jovem Gustav Janouch, escritor de quem foi mentor na adolescência e que deixou um dos mais importantes depoimentos sobre o poeta tcheco ― Conversas com Kafka. Janouch comentou que o pintor espanhol distorcia deliberadamente os seres e as coisas. Kafka ponderou que Picasso não pensava desse modo: ‘Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência’.”

CARONE, Modesto. Lição de Kafka. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.37.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Picasso, arte, política e polícia

Prosseguindo no relato, Nicolau Sevcenko brinda o leitor com a seguinte pérola:

"A afinidade de Picasso com as esculturas ibéricas do período anterior ao romano vinha desde suas ligações com o movimento autonomista da Catalunha, também sediado em Barcelona. Escavações recentes haviam descoberto esse material, que foi rapidamente incorporado como evidência de uma cultura catalã autônoma e antiga nos meios irredentistas, ao mesmo tempo que era exibido publicamente em Paris como curiosidade exótica. Picasso possuía algumas dessas estatuetas, compradas de um amigo, um traficante de arte belga, que dividia o aposento com Apollinaire, e que as roubava assiduamente à coleção do Museu do Louvre." (SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 195.) Neste ponto do relato, Sevcenko insere uma nota e remete o leitor às páginas finais do livro: "Esse traficante belga de arte era um típico exemplar da boemia parisiense. Seu nome era Gery Pieret, e trabalhava como uma espécie de secretário para Apollinaire como pagamento por compartilhar o alojamento com o poeta. Ao que parece, ele tinha obscuras origens anarquistas e veleidades artísticas, que o levaram a contínuas visitas ao Louvre. Ali ele se apercebeu da precariedade geral do sistema de vigilância, passando a roubar pequenos objetos. Que ele roubasse precisamente o que interessava a Picasso, em cujas mãos os objetos iam sempre acabar, parece ser indicativo de que suas atividades clandestinas eram orientadas a partir do Bateau-Lavoir. Um belo dia, precisamente no dia 22 de agosto de 1911, Gery Pieret decidiu mudar o curso de sua vida e partiu para um golpe mais ousado: ele roubou a Monalisa. Roubou e sumiu-se de Paris. Logo que iniciadas, as investigações levaram a Apollinaire e Picasso. Os dois tentaram jogar as estatuetas roubadas no Sena durante a madrugada, mas acabaram depositando as obras numa caixa de correio, endereçadas ao diário Paris Journal. Na sequência, Apollinaire seria detido na prisão de Santé, onde ficaria cerca de um mês até ser libertado, enquanto Picasso se refugiava no interior do país, para evitar ser deportado e entregue ao Exército espanhol, em cujas mãos muito provavelmente teria sido executado como anarquista e desertor." (Idem, p. 336, nota 103)

O surgimento do Cubismo em Picasso, narrado por Nicolau Sevcenko

O episódio narra o contexto de criação do quadro Les demoiselles d' Avignon (1907), que instaura o Cubismo. Segue o relato de Sevcenko: 

"Picasso viera de Barcelona entusiasmado com o realismo de denúncia da miséria e desagregação social, que tinha ali um dos seus principais núcleos de difusão. Essa fora a linguagem de seus primeiros anos em Paris, durante as chamadas fases azul e rosa, voltada para a representação dos párias dos arrebaldes a primeira e as personagens das artes populares mambembes a segunda. Foram a boemia parisiense e Jarry [idealizador do balé multiartístico "Parade"] que fundaram a revolução Picasso. // Essa revolução ocorreu em 1907 e se chamou Les demoiselles d' Avignon. Picasso a criou em sua casa-estúdio, chamada Bateau-Lavoir por sua semelhança com as embarcações-residências de madeira das lavadeiras do Sena. O Bateau-Lavoir era um foco da elite boêmia e anarquista, sendo alvo de vigilância e batidas policiais, com a grossa maioria de seus frequentadores, inclusive Picasso, fichados na polícia. Depois de um amplo período de ensaios e experiências, Picasso partiu para criar as "demoiselles", com o objetivo propício de compor uma obra de impacto. (...) As fontes de que Picasso hauriu para compor o quadro foram várias e díspares e a todas ele proviu uma reformulação e um contexto originais. A amplitude de alcance do seu empenho catalítico ia desde um acadêmico festejado, como Jean-Auguste Dominique Ingres, de quem ele absorveu a modelagem anticonvencional dos nus, até as ousadias cromáticas, o chapamento bidimensional das formas assinaladas pelo contorno desenhado e a decomposição do espaço em campos de cores justapostas sem profundidade ou perspectiva dos fauves, sobretudo Matisse. Cézanne, homenageado após sua morte com uma grande exposição retrospectiva em 1906, forneceu principalmente a geometrização elementar das formas, a volumetria do espaço, o adensamento, homogenia e autonomia plástica da composição. A pantomima, o teatro popular, mas acima de tudo o cinema cômico-experimental de Méliès, a coqueluche da população suburbana de Montmartre, sugeriram a mobilidade do foco, a múltipla perspectiva, o desdobramento das imagens, a simultaneidade cronológica e a livre intercambialidade de todos os elementos da composição entre si e com elementos externos. Foi o que propiciou a abertura para a introdução desses dois elementos heteróclitos que implodiriam o gênero pintura tal como se conhecia até então: a arte ibérica arcaica e arte negra africana." (SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 194-195.)