Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 17 de maio de 2011

Graciliano Ramos: a escrita no cárcere

De volta. Casa nova. Sentia uma falta difusa do blog, mas ao mesmo tempo voltei-me para a casa, para o novo lar, para os arranjos da mudança, para a leitura. Terminei Memórias do cárcere ― na verdade não conseguia parar de ler. Um livro que encerra um paradoxo: pede leitura cerrada, mas da qual é difícil falar, pois o que fala é a leitura, são os signos dispostos de tal forma que se enceta uma narrativa única. Mas a denúncia do cárcere não deixa de apunhalar o leitor, quando se sabe os horrores a que foram submetidos os presos na Colônia Correcional da Ilha Grande, que quase custou a vida de Graciliano, e levou a vida de tantos outros encarcerados:

Chegamos à cancela. E experimentei de chofre a necessidade imperiosa de expandir-me numa clara ameaça. A desarrazoada tentação era tão forte que naquele instante não me ocorreu nenhuma ideia de perigo:
― Levo recordações excelentes, doutor. E hei de pagar um dia a hospitalidade que os senhores me deram.
― Pagar como? exclamou a personagem.
― Contando lá fora o que existe na ilha Grande.
― Contando?
― Sim, doutor, escrevendo. Ponho tudo isso no papel.
O diretor suplente recuou, esbugalhou os olhos e inquiriu carrancudo:
― O senhor é jornalista?
― Não senhor. Faço livros. Vou fazer um sobre a Colônia Correcional. Duzentas páginas ou mais. Os senhores me deram assunto magnífico. Uma história curiosa, sem dúvida.
O médico enterrou-me os olhos duros, o rosto cortante cheio de sombras. Deu-me as costas e saiu resmungando:
― A culpa é desses cavalos que mandam para aqui gente que sabe escrever.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.516. 

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Memórias do cárcere - IV (o valor de cada um)

“Essa deplorável estreia varreu-me certas nuvens importunas: sempre me excedera em afirmações categóricas, mais ou menos vãs; achava agora uma base para elas. Evidentemente as pessoas não diferiam por se arrumarem numa ou noutra classe; a posição é que lhes dava aparência de inferioridade ou superioridade. Evidentemente. Mas evidentemente por quê? A observação me dizia o contrário. Homem das brenhas, afeito a ver caboclos sujos, famintos, humildes, quase bichos(*), era arrastado involuntariamente a supor uma diversidade essencial entre eles e os patrões. O fato material se opunha à ideia ― e isto me descontentava. Uma exceção rara, aqui, ali, quebrava a monotonia desgraçada: o enxadeiro largava o eito, arranjava empréstimo, economizava indecente, curtia fome, embrenhava-se em furtos legais, chegava a proprietário e adquiria o pensamento e os modos do explorador(**); a miserável trouxa humana, batida  a facão e a vergalho de boi, resistente ao governo, à seca, ao vilipêndio, resolvia tomar vergonha, amarrar a cartucheira à cinta, sair roubando, incendiando, matando como besta-fera(***). Essas discrepâncias facilmente se diluíam no marasmo: era como se os dois ladrões, o aceito e o réprobo, houvessem trazido ao mundo a condição inelutável: pequenas saliências no povo imóvel, taciturno, resignado. Naquele instante a aspereza do estivador me confirmava o juízo. Lá fora sem dificuldade me reconheceria num degrau acima dele; sentado na cama estreita, rabiscando a lápis um pedaço de papel, cochichando normas, reduzia-me, despojava-me das vantagens, acidentais e externas. De nada me serviam molambos de conhecimentos apanhados em livros, talvez isso até me impossibilitasse reparar na coisa próxima, visível e palpável. A voz acre me ofendera os ouvidos, arrancara-me preocupações de espanto, abafadas nas preocupações do Coletivo: ninguém ali estava disposto a lisonjear-me. Aceitei o revés como quem bebe um remédio amargo. Afinal a minha opinião se confirmava.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.234-235.

(*) Fabiano.
(**) Paulo Honório.
(***) Cangaceiros.

Graciliano alude a um episódio em que, designado representante do Coletivo na prisão, teve as propostas, na primeira reunião, quase todas tachadas de besteira por um estivador, sem direito à réplica: “― Conversa. A gente está vendo que isso é bom. Não vale a pena estragar tempo. Vamos adiante.” O mesmo utilitarismo do patrão.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Memórias do cárcere - III

Passados o esgotamento com a escrita da tese e a ressaca da defesa, estou podendo, quando as obrigações do trabalho e outras que, de um modo ou de outro, são aborrecidas, permitem, ler por prazer, ler sem outro compromisso que não seja a satisfação que a literatura traz. Às voltas com Memórias do cárcere, constato que de fato é um livro imperdível. Um verdadeiro manual de sobrevivência, além de tudo. Não é Paulo Honório, não é o narrador impessoal de Vidas Secas: é o homem forjado em Infância, que encontrou na serenidade o antídoto para enfrentar as adversidades: 

“Apesar da confusão, devia aparentar calma, pois o carcereiro me indicou, largou uma frase que me feriu como uma chicotada:
― Este parece um cadeeiro velho.
Estremeci:
― Hem?
― Entra como se estivesse em sua casa.
Cheio de vergonha, nada respondi, pois me faltavam elementos para refutar a opinião do homem. Se ele, observador profissional, me via assim, teria lá suas razões. Ponderei, extingui melindres. Tinha motivo para escandalizar-me? Não. Em duros casos, a observação podia ser considerada elogiosa. Consigo realmente ambientar-me depressa, acomodar-me às circunstâncias. Percorrendo o sertão, muitas vezes, quando a noite descia, amarrei o cavalo a uma árvore, envolvi-me na capa, estirei-me na terra e dormi, tranquilo e só. Não seriam piores que cobras e outros bichos do mato os habitantes da prisão. Mas que teria eu feito para o indivíduo confundir-me com eles? Muitos ali aparentavam serenidade, riam, falavam naturalmente, e a preferência me tocara. Esquisito.”

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.179-180. 

sábado, 30 de abril de 2011

Memórias do cárcere - II (ainda sobre o medo)

“Desumanidade e grosseria deixar de enviar algumas linhas ao rapaz. Refletindo, lembrei-me de que não nos tínhamos obrigado. Capitão Lobo apenas afirmara que nos comprometíamos. Uma ordem, somente. Se decidíssemos transgredi-la? De qualquer modo havia um acordo tácito ― e aí notei pela primeira vez um dos horrores sutis em que é fértil a cadeia: pretendem forçar-nos, sob palavra, a ser covardes. A princípio não distinguimos a cilada. ― ‘Está ali um sujeito com quem o senhor não se pode entender.’ ― ‘Perfeitamente.’ Aceitamos a imposição sem divisar nenhuma inconveniência. Mais tarde um infeliz nos abre a alma e hesitamos em solidarizar-nos com ele. Haverá maior covardia? Obedeceremos à frase a que não demos a necessária atenção ou escutaremos a voz interior?”

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.98.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Memórias do cárcere - I

Das muitas coisas espantosas de Memórias do cárcere, este trecho quase vale a narrativa, se isso não fosse uma contradição por si: “[...] Não tive, porém, consciência de semelhantes baixezas e menciono-as como possibilidades. Sei lá o que se passava no meu interior? Difícil sermos imparciais em casos desse gênero; naturalmente propendemos a justificar-nos, e é o exame do procedimento alheio que às vezes revela as nossas misérias íntimas, nos faz querer afastar-nos de nós mesmos, desgostosos, nos incita a correção aparente. Na verdade, vigiando-me sem cessar, livrava-me de exibir sentimentos indignos. Afirmaria, porém, que eles não existiam? Tudo lá dentro é confuso, ambíguo, contraditório, só os atos nos evidenciam, e surpreendemo-nos, quando menos esperamos, fazendo coisas e dizendo palavras que nos horrorizam. De fato ainda não me assaltara o medo, faltava razão para isto; vinha-me, porém, às vezes o receio de experimentá-lo. Sensação angustiosa e absurda: medo de sentir medo. Aparentemente nada nos ameaça, estamos calmos; súbito chega uma inquietação que nos domina, cresce e nos dá suores frios: ― ‘Se um perigo surgir, de que modo me comportarei? Reagirei como um sujeito decente ou sucumbirei, trêmulo e acanalhado?’ Resistimos a essa dolorosa incerteza fingindo segurança, que realmente conseguimos obter, falamos à toa, largamos opiniões temerárias. Bazófias. Pouco importa que nos julguem nocivos e nos conservem no isolamento. As nossas cogitações afastam-se daí, têm sentido muito diverso: ― ‘Revelei acaso fraqueza, conformismo? Pensarão que me quero vender?’ Essa prostituição nos aterroriza ― e o terror nos força a proceder de maneira razoável. Capitão Lobo é homem direito. Bem. Ficaríamos com ele se as nossas ideias não brigassem com as dele. Mas quais são as ideias de capitão Lobo? Temos certo número de ideias, firmes, e recusamos fórmulas desacreditadas. Boas há um século, hoje nada valem. Vendo-o, escutando-o, precisamos saber que ele está do outro lado e consequentemente é um inimigo. Percebendo-lhe a retidão, ficamos em guarda.”

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.84-85.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Graciliano Ramos: sobre a maledicência

"De fato o que mais nos choca não é a sinceridade, às vezes impertinente: é a arranhadela feita com mão de gato, a perfídia embrulhada num sorriso, a faca de dois gumes, alfinetes espalhados numa conversa."

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro; Record, 2008, p.71.

P.S. O sr. Reinaldo Azevedo (criatura para quem os adjetivos, aqueles que se conseguir imaginar, nunca são suficientes) defende Graciliano Ramos nesta entrevista disponível no youtube, recorrendo para isso ao recurso de taxar Guimarães Rosa de "macaquice vocabular" e ser "metafisicamente primitivo" (sabe-se lá o que isso quer dizer). Metafisicamente sofisticado, o sr. Reinaldo Azedo-Vendo tem lá suas razões: o grupo editorial Record, que edita o jornalista arvorado a crítico, edita também a obra de Gracilano Ramos. Mais uma placa córnea da carapaça do Jabuti 2010, ou quem sabe carapuça. Toda a fala do sr. Reinaldo Azevedo é um exercício lamentável de maledicência, de venenos destilados através de pretensa erudição literária. Um elogio à obra de Graciliano Ramos (e quem ler isso sabe o que estou falando) numa fala eivada de disparates ideológicos soa paradoxal, e é somente assimilável se se admitir que no país dos medalhões machadianos cabe tudo. Mas o próprio Graciliano, em Memórias do cárcere (por que será que ele foi encarcerado?), fala em "Compreensão de que as diferenças não constituem razão para nos afastarmos, nos odiarmos. Certeza de que não estamos certos, aptidão para enxergarmos pedaços de verdade nos absurdos mais claros. Necessidade de compreender, e se isto é impossível, a pura aceitação do pensamento alheio." (p.73) Mais prudente exercitar-se em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Graciliano Ramos: duro, áspero, intratável

"Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze. Contudo é indispensável um mínimo de tranquilidade, é necessário afastar as miseriazinhas que nos envenenam." 

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.12-13.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Memórias do cárcere - Graciliano Ramos

Começo a ler Memórias do cárcere, programa para as férias, e logo nas primeiras páginas dou de cara com o dito famoso de Graciliano Ramos, tão citado:

"Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe a acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. Não será impossível achar nas livrarias libelos terríveis contra a república novíssima, às vezes com louvores dos sustentáculos dela, indulgentes ou cegos. Não caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinambá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse exercício." (RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 12.)

Graciliano alude ao Estado Novo, ditadura instaurada por Getúlio Vargas, e que arbitrariamente o deteve, conduzindo-o à prisão, em março de 1936: "Naquele dia do mês de março de 1936, porém, sem qualquer explicação, fui preso e remetido para o Recife, onde passei dez dias incomunicável. Depois fui metido no porão do Manaus e vim pra cá [Rio de Janeiro]. Tive dez ou doze transferências de cadeia." (SENNA, Homero. República das letras. Entrevistas com 20 grandes escritores brasileiros. 3.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p.204.) 

Isso move Graciliano Ramos a escrever, dez anos depois, as Memórias da prisão, como declara a Homero Senna, obra que só foi publicada postumamente, com o título Memórias do cárcere. Fiquei cogitando do trecho final da fala, qual seria a diferença entre impedir de escrever e suprimir o desejo de escrever. Parece-me, inclusive, que o segundo caso é pior, pois no primeiro ainda se entrevê a possibilidade do desejo, que é a possibilidade da escrita.