Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

coração das trevas

Mergulhei no Congo junto com Marlow, mas o efeito do filme Apocalypse Now fez-se notar: acabei percebendo umas pequenas tintas de romantismo na trama. Ontem, ao comentar por alto a obra numa das turmas, um aluno disse, sem nunca ter ouvido falar do livro ou da sua adaptação cinematográfica: “É o apocalipse”. Reproduzo um trecho digno de nota, na narração de Marlow, que nunca conseguiu esquecer as últimas palavras de Kurtz, seu por assim dizer epitáfio, súmula de sua passagem pela Terra e dum imponderável qualquer que mira o extremo a que pode chegar a dominação do homem pelo homem, se é que entendi o que li: “O horror! O horror!”.

“O destino. O meu destino! Que coisa engraçada é a vida ― esse arranjo misterioso de lógica impiedosa visando algum desígnio fútil. O máximo que dela se pode esperar é um certo conhecimento de si mesmo ― que chega tarde demais ― uma safra de remorsos inextinguíveis. Já lutei contra a morte. É a luta mais desinteressante que vocês podem imaginar. Ocorre numa insubstancial área cinzenta em que não há nada sob os pés, nada à nossa volta, sem testemunhas, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera malsã de morno ceticismo, sem muita confiança no seu próprio direito e menos ainda no da adversária. Se é essa a forma da sabedoria suprema, a vida é um enigma ainda maior do que pensam alguns de nós. Estive a um fio de cabelo da última oportunidade de me pronunciar, e descobri humilhado que provavelmente não teria nada a dizer. E é por isso que afirmo que Kurtz foi um homem notável. Ele tinha alguma coisa a dizer. E disse. Depois que eu próprio tive um vislumbre desse limite extremo, entendo melhor o significado do seu olhar fixo que não conseguia ver a chama da vela mas abarcava todo o universo, capaz de penetrar nos corações que pulsam nas trevas. Ele resumiu ― ele julgou. ‘O horror!’ Foi um homem notável. Afinal, aquela foi a expressão de algum tipo de crença; havia franqueza, havia convicção, havia uma nota vibrante de revolta no seu sussurro, aquela face apavorante revelava uma verdade vislumbrada ― a estranha mescla de desejo e ódio. E não é dos meus próprios momentos extremos que me lembro melhor ― a visão de uma amorfa extensão acinzentada repleta de dor física e de um desdém indiferente pela evanescência de todas as coisas ― e nem mesmo dessa própria dor. Não. São os momentos extremos dele que tenho a impressão de ter vivido. É verdade que ele deu aquele passo derradeiro, foi além da borda, enquanto a mim foi permitido recuar com meus pés hesitantes. E talvez esteja nisso toda a diferença; talvez a sabedoria, e toda a verdade, e toda a sinceridade, só se apresentem comprimidos naquele instante inapreciável de tempo em que ultrapassamos o limiar do invisível. Talvez. Prefiro pensar que o meu resumo não teria sido uma palavra de desdém indiferente. Melhor foi o grito dele ― muito melhor. Foi uma afirmação, uma vitória moral conquistada ao preço de inúmeras derrotas, de terrores abomináveis, de abomináveis satisfações. Mas foi uma vitória. Eis por que permaneci leal a Kurtz até o fim, e mesmo além, quando muito depois tornei a ouvir, não a sua voz, mas o eco de sua magnífica eloqüência que me chegava emitido por uma alma dotada da pureza translúcida de um penhasco de cristal.

CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Trad. Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008, p.110-111. Em tempo: não conheci outras traduções, mas esta de Sérgio Flaksman está muito boa.

domingo, 27 de novembro de 2011

amanheceu chovendo

Amanheceu chovendo, mais que uma poeira fina de água, trazendo um frescor leve e agradável. A chuva sempre acorda o bem em mim, renova alguma coisa difícil de precisar. Além disso, há uns passarinhos cantando, algo que distingui assim que acordei, trazendo-me à memória manhãs antigas. Estou lendo Joseph Conrad, Coração das trevas, mas hoje a leitura terá que ceder espaço ao último conjunto de redações que solicitei aos alunos do 6º ano ― um relato em primeira pessoa focalizando experiências vividas com animais, inspirado em A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector. Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu, anuncia-se (denuncia-se) a autora logo no início da narrativa. Que coisa, mesmo dirigindo-se a crianças essa senhora não evitava a morte. Mas titubeava diante dela ― assim como nos relatos de gente grande, como ela diz ―, e amenizava-a para não impactar as crianças. Não à toa, na quase totalidade das redações que li até agora, os alunos relataram experiências em que os animais morreram. Agora percebo por quê. Também teria algumas experiências com animais para relatar, mas fica para outra ocasião, pois a chuva que cai é vida, pura vida. Enquanto isso, vou deixando aqui alguns rastros do mergulho de Marlow no coração do Congo, atendendo ao chamado do mar:

“Ele era o único entre nós que ainda ‘atendia ao chamado do mar’. E o pior que dele se podia dizer era que não se tratava de um bom representante da sua classe. Era um homem do mar, mas um homem errante também, enquanto a maioria dos homens do mar, se é que se pode dizer assim, leva uma vida sedentária. Têm um espírito caseiro e carregam sempre com eles o seu lar ― o navio ― bem como o seu país ― o mar. Todos os navios são muito parecidos, e o mar é sempre o mesmo. Na imutabilidade em que habitam, são as terras estrangeiras, os rostos estrangeiro, a imensidade cambiante da vida, que se sucedem à frente deles, velados não por um senso de mistério mas por uma ignorância levemente desdenhosa, porque não existe nos homens do mar mistério algum além do próprio mar, senhor de sua existência e tão imperscrutável quanto o Destino.”


CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Trad. Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008, p.12.

LISPECTOR, Clarice. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

as letras

“As letras, vejam bem. Que formulação feliz! Letras, reunidas por fios invisíveis tomados por imponderáveis correntes magnéticas. E toda essa azáfama imposta a um cérebro que deveria funcionar impecavelmente, e trabalhar sem ter trabalho. É uma pessoa, vindo na sua direção, ou só uma mente? Uma mente distribuída por livros, páginas, frases repletas de vírgulas, ponto-e-vírgulas, travessões e asteriscos. Um autor conquista um prêmio ou uma cadeira na Academia por seus esforços, ao outro só cabe um osso roído pelos vermes. Os nomes de alguns são dados a ruas e bulevares, os de outros a prisões e asilos. E mesmo depois que todas essas ‘criações’ tiverem sido finalmente lidas e digeridas, os homens ainda estarão atacando uns aos outros. Nenhum escritor, nem mesmo o maior deles, jamais foi capaz de contornar esse fato duro e frio.”

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaskman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.310. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Henry Miller: a grande pergunta

“A grande pergunta era a de sempre, aparentemente irrespondível: o que afinal eu tenho a dizer ao mundo que seja tão desesperadamente importante? O que eu tenho a dizer que já não tenha sido dito antes, e milhares de vezes, por homens infinitamente mais talentosos do que eu? Seria apenas uma coisa do ego, aquela necessidade coercitiva de ser ouvido? De que maneira eu era singular? Porque se eu não era singular, então tudo aquilo só resultaria em acrescentar mais uma unidade a uma cifra astronômica incalculável.”

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaskman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.166. 

domingo, 11 de setembro de 2011

"Sentir medo é deixar de semear por causa dos pássaros"

"Sabe por que eu nunca virei um escritor?"
"Não", respondi, surpreso de saber que ele sequer já tinha aventado a hipótese.
"Porque eu descobri quase imediatamente que não tinha nada a dizer. Eu nunca vivi de verdade, é esse todo o problema. Se você não arrisca nada, não tem como ganhar nada. Como é mesmo o ditado oriental? 'Sentir medo é deixar de semear por causa dos pássaros.' Explica tudo. Esses russos loucos que você me dá para ler, todos tiveram experiência da vida, mesmo que nunca tenham se afastado do lugar onde nasceram. Para as coisas acontecerem, é preciso haver um clima propício. E quando falta esse clima você cria. Quer dizer, se tem a genialidade. Eu jamais consegui criar nada. Só sei jogar o jogo, e jogar de acordo com as regras. A resposta para isso, se você não sabe, é a morte."

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.35.

sábado, 10 de setembro de 2011

o caos por henry miller

“Falando por mim, devo dizer que se eu jamais tive alguma esperança, seja escatológica ou de outro tipo, foi Dostoievski quem a aniquilou. Ou talvez eu deva modificar o que disse acrescentando que ele ‘tornou fúteis’ as aspirações culturais engendradas em mim por minha formação ocidental. Minha parte asiática, numa palavra, o mongol que há em mim, permaneceu intacta, e continuará para sempre intacta. Esse meu lado mongol não tem nada a ver com a cultura ou a personalidade; ele representa a raiz do ser, cuja seiva vem de algum antiquíssimo ramo ancestral da minha árvore genealógica. Nesse reservatório insondável, todos os elementos caóticos da minha natureza e do legado americano são engolidos como o oceano engole os rios que nele desembocam. Estranhamente, sendo americano de nascença, entendo melhor Dostoievski, ou antes seus personagens e os problemas que os atormentam, do que se eu fosse europeu. A língua inglesa, a meu ver, é mais adequada para expressar Dostoievski (se a pessoa precisa lê-lo em tradução) do que o francês, o alemão, o italiano ou qualquer outra língua não eslava. E a vida americana, do nível dos gângsteres ao nível dos intelectuais, apresenta paradoxalmente uma imensa afinidade com a vida cotidiana multilateral da Rússia de Dostoievski. Que melhor campo de provas se pode desejar do que esta Nova York metropolitana, em cujo solo conglomerado toda ideia irresponsável, ignóbil e louca floresce como uma erva daninha? Basta pensar no inverno daqui, no que significa sentir fome, solidão e desespero neste labirinto de ruas monótonas ladeadas de prédios monótonos habitados por indivíduos monótonos repletos de pensamentos monótonos. Monótonos e ao mesmo tempo ilimitados!
Embora milhões de nós nunca tenham lido Dostoievski e nem sequer reconhecessem o nome caso lhes fosse dito, ainda assim eles são, milhões deles, figuras saídas diretamente de Dostoievski, vivendo aqui na América a mesma vida ‘lunática’ que as criaturas de Dostoievski viviam na Rússia de sua criação. Se ontem eles ainda podiam ser vistos como possuidores de uma existência humana, amanhã seu mundo terá um caráter mais fantasticamente assolado por demônios que qualquer criação de Bosch, ou todas elas. Hoje essas figuras ainda se deslocam ao nosso lado ombro a ombro, sem assustar ninguém, aparentemente, com seu aspecto antediluviano. Alguns continuam de fato a perseguir sua vocação ― pregando o Evangelho, preparando cadáveres, cuidando dos loucos ― como se nada de momentoso tivesse acontecido. Não têm a mais vaga ideia de que ‘o homem não é mais o que era antes’.

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaskman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.26-27.