Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 26 de julho de 2023

um poema de Paulo Mendes Campos

Em noite tropical 

 

A noite se perfumava 

Da brisa do roseiral. 

Respirei o ar de Deus 

No sono do vegetal, 

Mas não gostava da lua 

Com seu brilho mineral 

Porque sem dizer a ela 

Me fazia muito mal 

Temer a todo momento 

A voz de um policial. 

Inês despida na relva 

Era uma Inês irreal. 

O claro-escuro do ventre 

Luzia na noite nua 

Como as luzes de um punhal. 

Quando depois se vestia 

A aurora amadurecia 

As copas do pinheiral. 

 

A palavra escrita (1951)  

 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

poesia

“Devo aos poetas de todos os tempos a sobrevivência de minha alma. [...] A Baudelaire, em cujo túmulo depositei uma rosa, a fulgurância do raciocínio, a elegância corrosiva de seu sentimento trágico; a Shakespeare, a iniciação a todas formas humanas [...]. A Pablo Picasso, a reacomodação do nervo óptico.”

Paulo Mendes Campos. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.18.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Paulo Mendes Campos: Sombra

[imagem obtida aqui]

Sombra, explicava Emília, não sei se para tranquilizar o marquês ou o visconde, é ar preto.
Criança, não me tranquilizei: do escuro só podiam surgir fantasmas, apagar a lâmpada era dar uma oportunidade aos duendes e demônios do quarto. Só a luz possuía o dom confortante de tocar deste mundo os habitantes do outro.
No ginásio, estudante de Física, não me tranquilizei. Sombra é o resultado da interposição de um corpo opaco entre o observador e o corpo luminoso?
Não nasce de definições a tranquilidade. A qualquer hora, há muita sombra em nós, sinal de que muitos corpos luminosos deixam de banhar-nos com a sua luz desejável, sinal de que nos faltam felicidades, de que muitos sóis necessários se interromperam em sua viagem até nossos olhos.
Não perguntar o que um homem possui mas o que lhe falta. Isto é sombra. Não indagar de seus sentimentos mas saber o que ele não teve a ocasião de sentir. Sombra. Não importar com o que ele viveu mas prestar atenção à vida que não chegou até ele, que se interrompeu de encontro a circunstâncias invisíveis, imprevisíveis. A vida é um ofício de luz e trevas. Enquadrá-lo em sua constelação particular, saber se nasceu muito cedo para receber a luz da sua estrela ou se chegou ao mundo quando de há muito se extinguiu o astro que deveria iluminá-lo. No light, but rather darkness visible.
Chamamos de sombrias as criaturas que não recebem luz. Passam sob o sol, as estrelas, através das iluminações cambiantes da cidade, elevam-se a monumentos da terra, contemplam as criações humanas, cruzam por almas que pegam fogo, e não recebem a luz. Entre tais criaturas e a luz, um corpo opaco de vários nomes, duros e prosaicos. Rage, rage against the dying of light.
Sombra é ar preto. Ao meio-dia, e este é o meu tempo, a sombra se abraça a nós e se confunde conosco. A vida e a morte no mesmo corpo. O sol fulgura sobre a minha cabeça, o fim se aproxima de meus pés, ponto final de meu domínio, ponto de partida para a solidão. Continuamos a caminhar, e a sombra cresce de nossos pés à nossa frente, enquanto o sol, perdendo-se atrás, resplandece inútil em nossas costas opacas. O homem, disse um que partiu há vinte e cinco séculos, é o sonho de uma sombra.
Ontem vi uma menininha descobrindo a sua sombra. Ela parava de espanto, olhava com os olhos arregalados, tentava agarrar a sombra, andava mais um pouco, virava de repente para ver se o (seu) fantasma ainda a seguia. Era a representação dramática de próprio poema infantil de Robert Stevenson:

I have a little shadow that goes in and out with me,
And what can be the use of him is more than I can see.

Indo e vindo, seguindo, rodeando, saltando, gesticulando com os seus bracinhos ternos, tropeçando, caindo, levantando-se, murmurando sua surpresa, implorando por uma explicação impossível, a menina começou a dançar o ballet que vai chamar-se a (sua) vida.

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.97-98.
 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Pablo Picasso

[imagem obtida aqui]

A Pablo Picasso, [devo] a reacomodação do nervo óptico.
 Paulo Mendes Campos, idem, p.18.

aos poetas de todos os tempos


Devo aos poetas de todos os tempos a sobrevivência de minha alma.

Paulo Mendes Campos. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.18.

domingo, 19 de junho de 2011

Paulo Mendes Campos: crepúsculo

O sol é viril, a noite é feminina, e eu não sei de onde me chega tanta incompetência de viver a hora do crepúsculo.

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.67.

Paulo Mendes Campos: quadros da insônia

A minha insônia é um vasto mural no tempo, composto de quadros díspares e desordenados, cuja unidade em todo o cosmos é um fiozinho mínimo e invisível dentro da Noite: eu. Quando esse eu desaparecer, os quadros terão desaparecido para sempre do Universo, e isso não será um acontecimento positivo ou negativo; porque não terá a menor importância. 

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.67.

O meu soño é um vasto
adentrar no cosmos,
quando surgem
quadros díspares
e caóticos, 
quadros em que
o que em mim
atende por eu
se reconhece,
tenuamente,
na grande 
Noite cósmica.

Um fiozinho,
mínimo,
invisível,
insignificante.

Ao amanhecer,
quase tudo
desapareceu,
e o eu de novo
se adensa
na ilusão do eu,
que um dia,
como na Noite
de que voltou, 
irá para todo
o sempre
desaparecer,
deixando, talvez,
vestígios que
a ilusão do dia,
outrora,
à Noite
outorgou.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

escrita

Escrevo a um amigo: estou sonhando intensamente coisas difíceis. Uma outra vida se inaugura quando fecho, temporariamente, os olhos para esta, uma vida cuja intensidade até então desconhecia. Onde eu andava não sei. A cada noite um novo capítulo de uma novela desconexa, mas com feixes de contiguidade (ai, a psicanálise!) com o sonho anterior. O caos de uma noite retoma o da noite passada, e quando acordo tenho a sensação de que fui bombardeada por imagens cuja compreensão e discernimento são sempre precários. Durante o dia componho um rosto ordenado, uma expressão calma. Ao contrário do que vivi até então, começo a ansiar, sem pressa ou susto, pela noite, porque sei que alguma coisa muito importante, uma transformação de monta, está se passando. Entrevejo nisso tudo a leitura do Paulo Mendes Campos. Uma leveza a cada manhã, a noite consistindo em purgar fantasmas que talvez não sejam de todo mal. A minha força só pode estar em mim, e foi a partir de uma necessidade muito intensa de visitar essas regiões inexploradas, que a experiência de Paulo Mendes Campos descortina, que comecei a sonhar de outra forma, não de imediato, mas como camadas que foram descortinando novas possibilidades. Então este trecho em particular me fascinou pelo desejo que se apoderou de mim, o desejo de acessar a delicadeza:


“Essa delicadeza não apresentava a mais leve analogia com sensações por mim conhecidas. Como se dentro da delicadeza houvesse uma segunda delicadeza, e dentro desta uma terceira, uma quarta, uma quinta, e só lá no fundo de não sei qual película sutil estivesse, intacta, a verdadeira delicadeza. Mas esse imprevisível tesouro não implicava a menor nuança de medo: estava inocente por demais para que o mal e a violência me atingissem. Meus próprios erros e brutalidades não me tocavam. Só não me agradava a possibilidade de ser reconduzido para trás, ao meu estado habitual, ao universo convencional dos conceitos, das palavras, dos apetites e das ansiedades. Como que justificando a sutileza de minha relação íntima com os outros, escrevi sempre inseguro das palavras: ‘Eu me afasto, mas não é solidão.’ Não estava sozinho naquela hora; os outros talvez estivessem.” [AQUI]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Paulo Mendes Campos: frases

“Devo aos poetas de todos os tempos a sobrevivência de minha alma.”

“Nunca tive cachorro nem gato; só tive árvore.”

“Nunca poderei ser mais do que sou  nem desejarei!”

“A constrição constante da morte me ajudou a ganhar a vida.”

“Abaixo da minha gana graciosa pela justiça, minha desesperançada e doce indiferença.”

“A aspiração precoce a uma velhice respeitável foi uma constante de todos os muros honrados que vi nascer e viver.”

CAMPOS, Paulo Mendes. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 18; 139-140.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Paulo Mendes Campos: infância

A história do LSD me levou à busca do relato de Paulo Mendes Campos. Comprei o livro (Cisne de feltro) e foi a primeira coisa que li, assombrada com tanta revelação, que ainda não assimilei. O relato é longo, riquíssimo, diria mesmo imperdível, e a tentação de postá-lo aqui é grande. Mas o meu momento é de muito trabalho, não posso me dar esse luxo. De forma que, naquele meu ritmo meio dispersivo de leitura, vou lendo as outras crônicas do livro, às vezes no ônibus, e me reencontrei com esse autor ímpar de nossa literatura, que me causou tanto assombro com a crônica O cego de Ipanema. Paulo Mendes Campos é mineiro, e fez parte dos desatinos da rapaziada, mas não é Fernando Sabino, Carlos Drummond Andrade ou Otto Lara Rezende. Paulo Mendes Campos é uma flor melancólica e cheia de humor que brota do tédio do asfalto

"Ruim na infância é a incompreensão dos mais velhos. Estes são mais infelizes ainda e sofrem de tédio ao medo, à perplexidade, à agressividade da criança. Decidem do destino infantil com palavras lacônicas, nessa mesma reserva cruel que Deus mantém para com os homens. Há uma razão para tudo: o horror é não sabermos distingui-la, e só encontrarmos alívio na resignação ou no desespero. Assim respondíamos com ressentimento à naturalidade egoísta com que os mais velhos nos viam seguir para o purgatório, onde íamos expiar lentamente um crime que ainda não tínhamos cometido."

CAMPOS, Paulo Mendes. O colégio na montanha. Cisne de feltro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 57.  

sábado, 1 de janeiro de 2011

alucinógenos, misticismo, literatura, ciência...

Eu não sei se entendo isso que li, nem mesmo se deveria levar tão a sério uma revista de divulgação científica, haja vista que divulgar traz em si a incômoda palavra vulgar. Mas é que o tema é pertinente, e num certo sentido caro a todos que prestaram minimamente atenção à palavra espiritualidade: a possibilidade da experiência mística, de que sempre receio falar, por perceber estar adentrando terreno delicado. Mas já que comecei, vou adiante, pois comecei justamente porque iria adiante. Então reproduzo o trecho final da matéria, relatando experiências científicas com alucinógenos que teriam produzidos estados místicos. A ciência penetrando o imponderável:

A visualização das áreas do cérebro envolvidas nas emoções e pensamentos intensos que as pessoas têm sob a influência das drogas dará uma janela para a psicologia por trás das experiências místicas produzidas pelos alucinógenos. Pesquisas adicionais também poderão trazer abordagens não farmacológicas mais eficientes se comparadas às práticas espirituais tradicionais, como meditação ou jejum para produzir experiências místicas e mudanças comportamentais desejadas. [...] As experiências místicas podem originar um senso profundo e duradouro da interconexão entre pessoas e coisas ― perspectiva que está por trás dos ensinamentos éticos das tradições religiosas e espirituais. Assim, uma compreensão da biologia dos alucinógenos clássicos poderia ajudar a esclarecer os mecanismos por trás do comportamento ético e cooperativo humano ― conhecimento que, acreditamos, poderá vir a ser crucial para sobrevivência da nossa espécie.” A matéria é da edição de janeiro de 2011, e pode ser encontrada aqui.

O problema, a meu ver, está, como sempre, não nos meios, mas nos fins de tais pesquisas, que podem jogar na direção da domesticação de algo potencialmente libertador: o que estaria pressuposto em “mudanças comportamentais desejadas”? Outros termos e expressões também não deixam de levantar suspeita. Mas...

Mas há um depoimento do escritor Paulo Mendes Campos, uma espécie de Clarice Lispector em trajes masculinos, em que ele relata justamente a experiência libertadora que conheceu com os alucinógenos ― não tão longe da ciência, perto de coisas de que talvez eu pouco suspeite. Essa experiência do escritor foi divulgada pelo próprio: “No Brasil, foi Paulo Mendes Campos quem melhor descreveu o efeito de drogas alucinógenas na percepção individual. Influenciado por Adouls Huxley, que havia publicado o célebre As portas da percepção, o poeta mineiro tomou ácido lisérgico sob supervisão médica de um amigo e escreveu um límpido relato sobre o evento, descrevendo suas alterações de tempo, sua capacidade de observar cores e a tonalidade das vozes das pessoas. ‘Experiências com LSD’, de 1962, foi republicado em vários livros do autor e tem algumas conclusões psicológicas que são poesia pura. Por exemplo: “Não existem ruídos lancinantes. Nós é que somos lancinantes” (do site Tanto). Vou procurar... o relato!

sábado, 18 de setembro de 2010

Sérgio Buarque de Holanda e Vinicius de Moraes: episódios de uma amizade

Retrato de Vinicius

(entrevista a Sérgio Buarque de Holanda por Caio Túlio Costa)


Conheci o Vinicius, mesmo, fora de qualquer ligação intelectual literária; bom, ele já tinha publicado livros, eu não tinha publicado nenhum, embora fosse mais velho que ele. Tenho o segundo livro dele com uma dedicatória de 1935, e não era de um sujeito conhecido na hora não, era de uma pessoa que já conhecia antes. Pelo jeito da dedicatória se vê que não era novidade. De modo que pelo menos há 45 anos o conhecia. Eu ia muito ao Rio, durante algum tempo morei no Rio e ele vinha muito a São Paulo; no estrangeiro também nos encontramos várias vezes. Encontrei com ele na Itália, ele vinha em casa todas as noites tocar violão. Tenho a impressão que o Chico daí que pegou a coisa da música, ele ia escutar o Vinicius, e escondido, na hora em devia estar dormindo. Tinha oito anos (o Chico foi para a Itália com oito anos e voltamos quando ele tinha dez anos), ficava muito aceso, o Vinicius pensava que ele ia dormir, mas ele vinha escondido e mais de uma vez eu vi o Chico escondido para ouvir as músicas do Vinicius.
Vinicius foi a única pessoa que batizou uma das filhas do Chico, a mais velha, Silvia; que nasceu quando ele estava mais ou menos exilado na Itália. Ele não podia voltar para cá, foi em 1969. Lá nasceu a Silvia, tenho até uma gravação feita pelo poeta Ungaretti, que foi à casa de saúde:
 Sérgio, tu nipottina é bella!...
Faz um bruta elogio. Foi o Vinicius quem me trouxe a gravação do Ungaretti, eles estavam juntos lá.
A poesia dele é uma poesia coloquial... Ainda outro dia ouvi o Carlos Drummond falando. A gente não pode recitar a poesia dele assim com um tom poético, tem de ser uma coisa quase coloquial. Mas ele não começou assim. Na faculdade de direito, no Rio, ele tinha uma turma de colegas que depois ficaram importantes e numa posição totalmente diferente da dele, eram o Santiago Dantas que depois foi integralista; o Américo Jacobina Lacombe, o Octavio de Faria (este fez um livro sobre um livro de poemas de Vinicius); o Hélio Viana, todos do grupo chamado Caju. Mas ele logo se emancipou disto e foi para o lado oposto, até. A partir daí ele entrou para o lado da boemia. Começou a não ligar para a direita, era contrário, e conseguiu uma popularidade que raras pessoas hoje possuem. Ele tinha aquele jeito de tratar todo mundo com um certo charme pessoal.
Eu me lembro quando morávamos na Itália, tinha um amigo nosso que era Cônsul Geral em Roma, a mãe dele estava lá. Então ele deu uma reunião para vários cineastas. Tinha muitos, inclusive estudantes de cinema como o Rudá, filho do Oswald de Andrade. Convidaram o grupo para ir lá à noite. Para jantar convidaram-nos o Vinicius, minha mulher e eu porque a mesa era pequena para todo aquele pessoal. A mãe do anfitrião pediu por isso, que nós três fôssemos mais cedo. Já passava das nove horas quando o Vinicius chegou, atrasado, e sentou ao lado da senhora, e num instante quebrou-se o gelo.
― Mas que homem... ― ela dizia, esquecida do atraso. Ele agradava às pessoas, mas não agradava de propósito, era a maneira dele, naturalmente assim.
Depois ele passou para música, aí foi demitido do Itamaraty, no tempo do Costa e Silva; pediram que ele não fizesse mais shows, ou então largasse o Itamaraty.
― Então eu largo ― ele disse. Não, não foi cassado, foi uma coisa individual: não poder tocar a música que ele gostava.
O Vinicius passou dois meses em Roma, antes de assumir em Paris e ia todo dia em casa, eu era professor, dei curso na universidade. Ele ficou num hotel da Via Vittorio Veneto, onde se reuniam os atores, eu conto neste prefácio [do Operário em construção e outros poemas, Nova Fronteira] que cheguei um dia lá e o encontrei ao lado de Irene Papa (aquela do filme Z).
Numa dessas ocasiões apareceu um camarada mineiro, filósofo, que morreu agora. Era um sujeito muito diferente do Vinicius, muito sério. Ele e o Vinicius não davam certo. Não sei bem por que, pois o Vinicius tinha uma facilidade de se dar bem com as pessoas. Eu disse ao camarada: “Não o convido hoje porque já tenho compromisso”; era o Vinicius. “Vamos deixar para amanhã”.
― Não, amanhã vou jantar com o Cristiano Machado, embaixador no Vaticano, pode ser para depois de amanhã? ― foi a resposta. Eu disse que em princípio podia ser.
Aí chegou o Vinicius e eu disse que o camarada estava com vontade de vir, mas achei que os dois não combinavam bem, tão diferentes que eram, o outro era um sujeito brigão, tinha sido até boxeur. O Vinicius disse que eu tinha razão:
― Não vou com aquele sujeito não.
É raro ele ficar assim com outras pessoas. No dia seguinte o Vinicius apareceu e eu o lembrei que o camarada viria no outro dia. Disse ao Vinicius: se você quiser vir, venha, mas eu estou avisando: ele vem amanhã. No dia seguinte aparece o Vinicius. Aí eu disse: ah! você veio, né? Tá bem. O outro chegou tarde, às 9 horas, e jantamos juntos. Ele falando o tempo todo, metendo o pau numa moça que trabalhava num escritório comercial em Paris, onde ele teve que fazer qualquer coisa. E o Vinicius num silêncio mortal. Depois que ele saiu perguntei a razão daquele silêncio:
― Eu estava aqui, só não dei nele porque ele estava na sua casa.
― Mas por quê? ― eu perguntei.
― Porque ele estava falando mal de uma mulher.
― Mas você conhece a mulher?
― Não, eu não conheço, mas falar mal de mulher é coisa que não suporto.
Ele não admitia que ninguém falasse mal de mulher, fosse quem fosse. De modo que ele era assim um pouco desse jeito. Estávamos certa ocasião na casa de um dos grandes amigos dele daqui em São Paulo, o Zequinha Marques da Costa. Certa hora ele se levantou e foi lá para dentro. Nesse momento o Zequinha me convidou para ver alguns quadros que tinha lá. Entramos, vi um quarto.
― Ali deve estar dormindo o Vinicius ― disse o Zequinha ― evitemos falar alto quando passarmos por lá.
Passamos então pelo quarto enorme, uma cama de casal, e o Vinicius no meio dormindo. Eu disse: olha aqui, vamos fechar essa luz. E o Zequinha respondeu:
― Não, não, não, o Vinicius não quer. Ele quer a luz acesa porque assim fica com a impressão de que tem gente.
Ele morreu assim, com quantidade de gente em volta. Dizem que só no apartamento dele foram mais de mil pessoas sem estar avisadas. Havia toda aquela gente chorando, amigos...
Mas os médicos achavam que ele não ia durar muito não. Tinha diabete, inclusive; não parava de beber. Quando fiz essa coletânea [Operário em construção e outros poemas, Nova Fronteira] fui ao Rio, estava no hotel, o Vinicius foi lá para ver. Aí eu pedi um uísque e disse: eu não peço para você porque você não pode tomar.
― Uísque não ― respondeu ―, mas tomo vinho branco.
― Mas não faz mal?
― Não, o médico disse que não.
Sabe, enquanto nós estivemos lá (a última mulher dele, Gilda de Queirós Mattoso, também estava) ele tomou cinco garrafas de vinho branco. Bom, eu tomei um bocadinho, mas o grosso foi ele quem tomou.
Quanto aos poemas eu gosto de muita coisa dele. Quando comecei a fazer esta antologia ele queria tirar as poesias que têm música. Mas depois ele mesmo achou uma como este Samba em prelúdio. Às vezes eu gosto de uns poemas dele, às vezes gosto de outros. Gosto muito do Soneto da fidelidade, onde ele fala do amor, que “não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Ele costumava dizer de brincadeira que mulher para ele dura três anos. Depois tem que mudar...
Este livro da Nova Fronteira foi quem pediu (sic) que eu fizesse uma antologia, uma introdução crítica. Agora não estou fazendo crítica literária, então resolvi fazer uma coisa sobre ele, a pessoa dele. Destas poesias faltam algumas que numa certa hora se perderam, em parte. Eu não sabia nem como construir e pedi que o Vinicius completasse, não incluí exatamente o Soneto da fidelidade. Fiz a seleção e este estava na outra lista, que se perdeu. Escolhi de diversos lugares, tem um soneto dedicado ao Neruda, foi o Vinicius quem me deu para sair aí, mas este não é um soneto novo, é antigo. Ele fez para o Neruda depois que ele chegou aqui. Havia perdido o soneto, de modo que não incluiu nos outros livros dele; é uma resposta ao Pablo Neruda. Ele o encontrou pouco depois e disse:
― Vamos publicar por causa disso.
É uma coisa inédita. Depois ele fez outro soneto para o Neruda, diferente deste. Queria publicar este aí porque era praticamente inédito. A outra parte disto foi uma antologia que saiu em Portugal, ele achava muito boa. Foi dali que eu tirei muita coisa, mas devolvi-lhe o volume português porque ele não tinha outro exemplar. Foi ele quem escolheu o título do livro. Eu ia fazer uma escolha, Antologia, qualquer coisa assim. Por ocasião da greve em São Bernardo ele foi lá e recitou isso para os operários. A letra tem algumas coisas sutis, muito sutis, como a história da tentação de Cristo pelo diabo. Mas o Lula, pelo menos, gostou muito.
No começo de sua carreira Vinicius jamais se indispôs pessoalmente com o grupo Caju, mas encontrou amigos do outro lado, grandes amigos, como o Rubem Braga, o Fernando Sabino, o Paulo Mendes Campos e o Otto Lara Resende ou os mais velhos, como Manuel Bandeira e Drummond. A poesia dele começou com a influência desse grupo, espiritualista. Não chegava a ser fascista não, embora alguns se fizessem integralistas, mas ele nunca foi isto não, foi até o contrário.
Os primeiros dois livros têm este lado individualista e meio espiritual, Caminho para a distância e Forma e exegese. Ele era muito moço ainda. Depois tem Ariana, a mulher, aí ele já estava mudando, foi tomando um tom mais lírico, mais amoroso, mais material talvez.
Os primeiros livros são desta fase espiritualista, depois ele descobriu que não era aquilo não, que gostava era de mulher. No meio dos primeiros tem muita coisa bonita, mas eram muito diferentes. Esta poesia lírica, junto com o Drummond e o Bandeira, formou uma espécie de trindade na poesia brasileira. O Murilo Mendes também tem um pouco. Uma tendência assim um pouco coloquial. A marca da experiência inglesa de Oxford parece-me ter sido decisiva para ele.
O traço social é visível em Operário em construção, é um pouco. Acho que ele estava caminhando para este lado, mas tinha muito o lado lírico, mulher no meio. Tinha as duas formas. Só as duas?

SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA: Encontros. Org. Renato Martins. Beco do Azougue, 2009, p. 168-173. (Publicado originalmente em Leia Livros, 1980)