"Tirando a mulher, o resto é paisagem."
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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segunda-feira, 9 de abril de 2012
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Dante Milano
ENUMERAÇÃO
Há alguém que dê à vida
Toda a atenção devida?
Há um sol que olha espantado,
Um grande mar parado,
Um vento sem destino,
Um presente não presente,
O espaço que não passa,
As luzes que são cegas,
Um pântano estrelado,
Uma pedra que pensa,
A poeira que é ouro.
Há um monstro que sorri,
Um pássaro que é príncipe,
O oculto no evidente,
As sombras que sã gente,
A gente que é ninguém,
O olhar desconhecido,
A prece não ouvida,
O andarilho deitado,
Uma flor ofendida,
Um boi desiludido,
Um cão desorientado,
Objetos escondidos,
Coisas aparecidas,
E as desaparecidas
Para sempre esquecidas.
MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p.195.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Dante Milano
MÚSICA SURDA
Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.
O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.
Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.
MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p.43.
sábado, 13 de agosto de 2011
sentimento e expressão
“Sentimento é aquilo que só nós sentimos; mas quando o exprimimos, é o mesmo que todos sentem.”
MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p.268.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Dante Milano
TOCATA E FUGA
É tudo aquilo que só existe no ar,
0 que de nós, além de nós, se expande.
É a vertigem para o alto, igual à grande
Tocata e fuga em ré menor de Bach.
É o delírio de um bêbedo num bar...
É um não sair do chão por mais que se ande...
Tudo que em mim, somente em mim existe,
Me transporta, me absorve, me suspende,
Me faz sorrir embora eu esteja triste,
Triste naquele universal sentido
Que a música interpreta e se compreende
Sem que em palavras seja traduzido.
MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p.212.
sábado, 18 de junho de 2011
Dante Milano
GLÓRIA MORTA
Tanto rumor de falsa glória,
Só o silêncio é musical,
Só o silêncio,
A grave solidão individual,
O exílio de si mesmo,
O sonho que não está em parte alguma.
De tão lúcido, sinto-me irreal.
MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p.83.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Dante Milano
O CENTRO DA NOITE
Noite disforme.
Se olhares o céu, o que não vale a pena,
Verás que o brilho das estrelas é uma coisa inútil
E sentirás o frio da vida.
MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p. 88.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Dante Milano (fechando setembro)
Duplo olhar
A visão interior pode ir mais longe
Que a exterior. Isto disse São Tomás.
E há a visão interior de olhos abertos,
A de quando desvio o olhar do livro
Para um lugar mais livre, mais distante,
E me parece uma visão divina
A paisagem que vejo todo dia.
MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p.207.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Dante Milano
Vazio
Este céu que me leva ao fim de tudo,
MILANO, Dante. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Editorial da UERJ, 1979, p. 47.
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