Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 30 de dezembro de 2018

O que é um FDP?

Ainda vou escrever um artigo sobre o real significado do xingamento “filho da puta”. Não é a mãe que está sendo xingada, mas a própria pessoa. Prostitutas fazem sexo em troca de dinheiro: a função da procriação, prevista na Bíblia para a atividade sexual desde Adão e Eva, não está contemplada. Se prostitutas engravidam, trata-se de um acidente, de um desvio de função. Logo, se alguém é filho da puta, esse alguém é um equívoco, porque em princípio não era para ter sido concebido. É alguém que não deveria existir, considerando, como se colocou acima, a prostituição como uma atividade comercial. O fdp é um equívoco. É disso que se trata o xingamento.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

sexta-feira, 18 de maio de 2012

hermeneutas

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria. 
― Os hermeneutas estão chegando! 
― Ih, agora que ninguém vai entender mais nada… 
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto. 
― Alô...
― O que é que você quer dizer com isso? 

Luis Fernando Verissimo. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.111.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

domingo, 29 de abril de 2012

dansa ligeira

“E aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E êles negaceavam e pulavam, numa dansa ligeira, de sorriso na bôca e faca na mão.”

Rosa, João Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga. Sagarana. 6.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, p.362-363.

Uma coisa são os acordos ortográficos, com as modificações na norma de grafia das palavras; outra é a criação lexical de um autor como Guimarães Rosa, infelizmente desrespeitada nas sucessivas edições de sua obra. A edição da Nova Fronteira é bem irregular. Na edição de 2001 de Sagarana lê-se assim o trecho citado:

“E aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E eles negaceavam e pulavam, numa dança ligeira, de sorriso na boca e faca na mão.” (p.410)

O que é lamentável, pois em Guimarães Rosa as palavras querem dansar, na frase e no universo do leitor, insinuar, no ‘s’, o movimento que elas vivificam...

sábado, 10 de março de 2012

o poder da palavra

Esta noite sonhei com vermes, aqueles mesmo, que dão em barriga de menino ― e menina. Sonhei que tinha vermes, e via-os, numa cena que me causou profundo nojo. Também sonhei com outras coisas, talvez o fundo indizível de onde brotaram os vermes, talvez já metafóricos. Mas não estava entendendo, até que me lembrei de uma conversa casual que tive ontem à tarde com um colega de profissão. Falávamos de astronomia, do modo como ela ressignificou nossa insignificância ― de um modo totalmente sem precedentes. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

anedota doméstica

Sei que de qualquer jeito que eu contar o ocorrido um pouco da graça será perdida. A graça está no modo como certas coisas despretensiosas ganham um sabor (ou saber) novo. O episódio é simples: estando minha sobrinha comigo, levei-a a um shopping perto de casa, a que se vai a pé. No caminho, enquanto explicava-lhe sobre faixa de pedestres e simbologia do sinal vermelho e verde, comentei que a calçada, um tanto sofrível, não estava muito propícia para andar ― um buraco aqui, um cocô de cachorro ali, um fio solto de poste acolá. Ou seja: várias irregularidades das quais uma pessoa adulta se desvia com facilidade, e mesmo podem passar despercebidas, mas que com os passos tateantes e hesitantes de uma criança ganham mais proeminência e visibilidade. Disse-lhe então que a calçada estava cheia de armadilhas. Ela gostou da palavra, reteve-a, mas repetiu-a pronunciando “amardilha”, inclusive quando relatou a aventura para a mãe. Para escapar das amardilhas, optei por voltar de táxi para casa, aventura que minha sobrinha também apreciou. Há muita vida e encanto pela frente, está cedo para ela conhecer, fora do contexto lúdico e linguístico, qualquer coisa parecida com armadilha. E, protegida pelo amor, pode brincar bastante com as palavras, projetando, sem saber, a palavra amar na palavra armadilha. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"penso que deve existir para cada um / uma só palavra..."

O poema de Herberto Helder falava de uma palavra, para cada pessoa, intransferível, deixada virgem pela inspiração dos povos. Eu quero a palavra “orvalho”. Estava a ler isto, do mesmo Herberto: “Havia um homem que corria pelo orvalho dentro. / O orvalho da muita manhã.” Foi quando me dei conta de que moro na cidade, num apartamento situado num edifício-condomínio, cidade que me aconselha a voltar em segurança para casa, de preferência cedo, e que estas não são condições para se perceber o orvalho, nem mesmo para ele se manifestar ― tudo isso num instantâneo de pensamento, em que já lia também o outro poema e descobria a palavra "orvalho". O orvalho pede outra espécie de experiência com a noite. Migrei para antigas manhãs, noites silenciosas, o aviso para tomar cuidado com o sereno. A suprema leveza do orvalho, o frescor derramando sobre o dia findo um manto que ao espírito acalmava. Orvalho, palavra que tomei para mim.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

sem disfarce

“Entrou numa sorveteria e comprou um sorvete. Passaram duas mocinhas de uniforme de colégio, conversando e rindo alto. Olharam para Tuda com a animosidade* que as pessoas sentem umas pelas outras e que os jovens ainda não disfarçam. Tuda estava sozinha e foi vencida. Pensou, sem ligar o pensamento ao olhar das meninas: que tenho a ver com elas? Quem esteve junto à doutora, falando de coisas misteriosas e profundas? E se elas soubessem da aventura nem entenderiam...

“Gertrudes pede um conselho”. Os melhores contos de Clarice Lispector. 3.ed. São Paulo: Global, 2001, p.197-198.


* má vontade constante ― segundo uma das acepções. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

livro livre

A língua portuguesa traz a liberdade nos livros, pelo menos etimologicamente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

possivelmente isso estaria certo se não fosse outro modo de dizer que

pressão
compressão
incompreensão
apreensão
apreender
aprender
repreender
prender―

capturar em signos o nirvana que abre as portas da prisão encenada nas possibilidades da linguagem, que prende em signos os sentidos que querem apreender o sentido da vida, percebendo sutilmente que a palavra capturar é uma traição à promessa do nirvana, que não se deixar atrair por torneios de linguagem.
OU
vislumbrar signos ― palavras ― com mais possibilidades que impossibilidades de significar qualquer coisa que não seja sempre a mesma coisa, a mesma prisão do já sabido nos sentidos dados nas palavras criadas para dizer esses sentidos e não outros ― a cama metafórica oferecida pela linguagem deixa entrever, no sonho, como uma espécie de concessão, outros caminhos que a linguagem pode trilhar, por exemplo sem a palavra pressão.
OU
compreender que na palavra pressão está a própria pressão ― por isso a palavra pressão, e não outra, foi criada, para fazer e significar pressão, e quanto mais se sente a pressão mais se compreende que na palavra pressão e suas mil e uma úteis utilitárias utilidades está a opressão do signo, da linguagem, opressão que é uma pressão levemente assimilada e incorporada, o corpo domado pela pressão da linguagem sonhando mundos tão incompreensíveis que sequer chegam à esfera da linguagem.
OU
o que são signos senão impressões de sentidos (sentidos impressos) que o mundo vai deixando nas muitas camadas de nosso ser, ser que quer ser, quer apaixonadamente ser, e vai tentando desbravar caminhos na linguagem?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

dicionário

Seguindo o percurso da comum e prosaica palavra tatuagem, cheguei a indelével, passando por marca, sinal, cicatriz. Marca e sinal são profusas em sentidos, renderiam um bom texto. Já indelével... Pensando bem, este post é um antípoda dos dois anteriores, ou o contrário:
adj.2g. que não é delével, que não se pode delir 1 que não se pode apagar, eliminar <tinta, mancha i.>  2 que é durável, permanente; que não se pode destruir, suprimir ou fazer desaparecer totalmente <amor i.> <lembrança i.>  * etim lat. indelebìlis,e 'que não pode ser apagado ou riscado', de in + delebìlis e este de delére 'apagar, destruir'.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

cisco arisco

Cisterisco é uma mistura de cisco e asterisco.* Um asterisco, mesmo de perto, não passa de um cisco ― cisco da palavra que manda para o rodapé, para o dicionário, para outro texto, na hermenêutica sem fim da busca do sentido. De longe, bem longe, o mais longe que se puder, talvez tudo não passe de cisco, o Universo como uma profusão de ciscos em rota constante de colisão, quem sabe de coalizão, embora um cisco no olho, qualquer que seja o tamanho do cisco e do olho, possa dar algum trabalho, o que joga de novo para a hermenêutica. De todo modo, a distância parece ser um modo confortável para lidar com os ciscos: primeiro pelo senso de proporção que é restituído a tudo; segundo porque, muito perto, o cisco pode invadir o olho, atrapalhando ver o que antes era o objeto a ser visto ― desnecessário lembrar o provérbio bíblico e sua subliminar mensagem hermenêutica. Mais do que isso, o cisco que invade o olho é o peso do objeto na visão do sujeito. Como resistir à tentação de não seguir a trilha do asterisco, dos ciscos ao redor da palavra?

* Fusão intuída livremente numa passagem de Rayuela, é preciso admitir.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

p a l a v r a s

Tem vez que dá vontade... de encontrar uma palavra que redima da complexidade da vida. Eu quero mais é aquele canto torto clarice lispector hora da estrela: “Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo.” ― Aliás, é com ele que se costuma viver ― “E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é silêncio. Este livro é uma pergunta.” [A hora da estrela, Rio de Janeiro, Rocco, 1998, p.16-17.]

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Torquato Neto: as palavras estão no mundo como está o mundo

MARCHA À REVISÃO (trecho)

Quando eu a recito ou quando eu a escrevo, uma palavra ― um mundo poluído ― explode comigo & logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte & fogo & morte (como napalm), espalham imprevisíveis significados ao redor de mim: informação. Informação: há palavras que estão no dicionário & outras que eu posso inverter, inventar. Todas elas juntas & à minha disposição, aparentemente limpas, estão imundas & transformaram-se, tanto tempo, num amontoado de ciladas. Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. Elas estão no mundo como está o mundo & portanto as palavras explodem, bombardeadas. Agora não se fala nada, um som é um gesto, cuidado. Vida Toda Linguagem, cf. Mário Faustino que era daqui e um dos maiores & quem quiser consulte. No princípio era o Verbo, existimos a partir da Linguagem, saca? Linguagem em crise igual a cultura e /ou civilização em crise ― e não reflexo da derrocada. O apocalipse, aqui, será apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica. Salve-se quem puder.

NETO, Torquato. Torquatália {do lado de dentro}. Org. Paulo Roberto Pires. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p.311.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

palavras

Descubro a existência da Fócida, e esqueço o palavrão que, hipoteticamente, eu postaria aqui, não fosse este o blogue de uma moça direita (mas não de direita), bons costumes, educada, cuja classe, dizem testemunhas constantes, não combina com a elocução de um palavrão (você não, Mariana, não combina com você). Entre os amigos está liberado, graças a Deus, embora este não deva gostar muito de ouvi-los. Mas voltando ao..., quer dizer, à Fócida. Lugar mais simpático, não merecia a semelhança fônica com... Pobre Fócida! Deve estar na fossa, os poetas todos fugiram de lá, do seu belo monte Parnaso, e foram se abrigar no vazio simbolista-decadentista-salvo-engano-pós-modernista do nada ao encontro de nada dando em nada. Vejamos então: a Fócida é uma das divisões clássicas da Grécia e uma de suas modernas prefeituras. O nome Fócida deriva de Foco (ora, vejam!, a coisa é mais séria do que eu imaginava...), filho de Ornitião, filho de Sísifo... Caramba! Quer mais o quê para configurar a situação completa do fócido? Não digo mais nada, deixarei que a Wikipédia fale por mim: na Fócida situa-se a histórica cidade de Delfos, conhecida por seu famoso oráculo, cujas profecias, bem, já se sabe...

terça-feira, 14 de junho de 2011

substantivos

Meus alunos fizeram-me rever uma das classificações que separaram os substantivos em caixotes: há os seres animados, os inanimados e os desanimados.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

escrever

Escrever, escrever, escrever... porque é preciso, porque preciso, na imprecisão com que a memória se move, com que tudo se move, exceto os ponteiros do relógio. Talvez. "Na própria precisão com que outras passagens lembradas se oferecem, de entre impressões confusas, talvez se agite a maligna astúcia da porção escura de nós mesmos, que tenta incompreensivelmente enganar-nos, ou, pelo menos, retardar que perscrutemos qualquer verdade"  afirma um dos narradores de Guimarães Rosa. Escrever é minha liberdade, posso ir e vir com as palavras: ir até onde elas me levam, voltar até onde elas permitem. Sinto-me quase feliz ao descobrir que posso criar por meio da linguagem. Pois sei que consigo pouco. Não creio que haja qualquer verdade encoberta pela maligna astúcia da porção escura de nós mesmos. Simplesmente porque o acesso possível a esses recessos se faz por meio da arte, do sonho, da música, da criação, do amor. E sai-se sempre com farrapos de verdade, como se a verdade fosse uma mendiga a que devemos socorrer e alimentar, em troca do pouco que ela tem a nos oferecer. No entanto ela não vai embora, fica ali, num canto escuro sombrio, a incomodar, pedindo atenção. Sei que isto está pela metade, mas vai ficar assim. Está tarde, preciso dormir, dar ensejo para a verdade.