Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 22 de maio de 2011

Antonio Carlos Secchin: palavras

"Nossa liberdade passa não apenas pelas palavras em que nos reconhecemos, mas sobretudo pelas palavras com as quais aprendemos a nos transformar."

SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p.75. 

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Antonio Carlos Secchin

Há um mar no mar que não me nada
e não se entorna em ser espuma ou coisa fria.
Me sinto cheio de palavra e de formato,
murado em mim sob a ciência desse dia.
Na sonância do que vive,
minha fala é resistência,
e dizer é corroer o que se esquiva,
reter na letra a cicatriz do som vazio.
Sou apenas quinze avos da loucura,
a dar um nome à ironia do que dura.

SECCHIN, Antônio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p.125.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Antonio Carlos Secchin

“Contrariando o axioma do velho são Tomé, cabe à arte ver para descrer, isto é, recusar os esquemas confortavelmente explicativos da realidade e injetar o vírus da desconfiança em meio a toda unanimidade eufórica.”

SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p.81.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Antonio Carlos Secchin

Reunião 

Aqui estamos nós
unidos pelo sangue 
e dispersos pela vida. 
Sabemos de onde viemos, 
mas não sabemos nossa saída. 
De Antônio e Catarina 
herdamos gestos, sonhos, corpos e voz. 
Muito sabemos deles, 
e pouco sabemos de nós. 
Aqui estamos todos 
― tios, sobrinhos, primos, avós ―, 
corrente entre um ontem vivo 
e um amanhã apressado, 
frente a frente 
com o futuro que nos chama, 
cara a cara 
com a chama de um passado. 
Agora atravessamos juntos 
Cachoeiro de ItapeSecchin, 
esta estrada tropical da Itália 
que desemboca em você e em mim. 
E se recompondo o que nós fomos 
este instante cintilar dentro de nós 
num sopro que a vida não apaga 
mesmo sozinhos não estaremos sós. 


Cachoeiro, 13/11/1999

SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p.59-60.