Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

a obra de arte no corredor

Minha resistência a exposições, em especial as de grande apelo, como esta, é que elas são tratadas como arte, causam filas e frisson, mas na verdade funcionam como cultura. O que há contra a cultura? Nada — desde que não assuma o disfarce de arte.

domingo, 9 de junho de 2013

a arte num conto de Cortázar

“Simulacros”, conto de Histórias de cronópios e de famas (Julio Cortázar. Trad. Gloria Rodríguez. 12.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.21-24), coloca para o leitor o desafio de pensar o papel e o lugar da obra de arte. A estranha família dedica-se a construir um patíbulo no jardim de sua casa, sem precisar o fim ou as motivações de fazê-lo:

“Somos uma família estranha. Neste país onde as coisas se fazem por obrigação ou fanfarronada, gostamos de ocupações livres, das tarefas sem importância, dos simulacros que de nada adiantam. Temos um defeito: a falta de originalidade. Quase tudo o que resolvemos fazer foi inspirado — digamos francamente, copiado — de modelos célebres. Se contribuímos com alguma novidade é sempre inevitável: os anacronismos ou as surpresas, os escândalos. Meu tio mais velho diz que nós somos como as cópias de papel carbono, idênticas ao original, a não ser que de outra cor, outro papel, outra finalidade. [...] Fazemos coisas, mas contar é difícil porque falta o mais importante, a ansiedade e a expectativa de estar fazendo coisas, as surpresas tão mais importantes que os resultados, os fracassos em que toda família cai no chão feito um castelo de cartas e durante dias e dias não se escuta mais do que lamentações e gargalhadas. Contar o que fazemos é apenas uma forma de preencher os vazios inevitáveis, porque às vezes estamos pobres ou presos ou doentes, às vezes morre alguém ou (custa dizê-lo) alguém trai, renuncia, ou entra para a Direção do Imposto de Renda. Mas disto não se deve deduzir que vamos mal ou que somos melancólicos. Moramos no bairro de Pacífico e fazemos as coisas toda vez que podemos. Somos muitos a ter ideias e vontade de levá-las à prática. Por exemplo o patíbulo, até hoje ninguém chegou a acordo sobre a origem da ideia [...].” (p.21)

O estranho patíbulo vai se fazendo, erguendo, ganhando forma, assim como ganha forma e proporção o escândalo ao redor dele, da família que o constrói, do jardim onde está sendo construído: “A essa altura dos acontecimentos as pessoas da rua não podiam deixar de perceber o que estávamos fazendo, e um coro de protestos e ameaças nos estimulou agradavelmente a encerrar a jornada com a montagem da roda. [...] A polícia chegou no momento em que a família, reunida na plataforma, comentava favoravelmente o bom aspecto do patíbulo.”

A terceira irmã — a mesma que se comparava ao rouxinol mecânico de Andersen e cujo romantismo dava náuseas no narrador — era a única afastada do grupo no momento da chegada da polícia, e a ela “coube dialogar pessoalmente com o subcomissário; não foi difícil convencê-lo — prossegue o narrador — de que estávamos trabalhando dentro de nossa propriedade, numa obra a que só o uso poderia conferir um caráter inconstitucional, e que os comentários da vizinhança eram produto do ódio e fruto da inveja.” (p.24) Deslocado de seu uso e contexto habitual, nada impede que uma obra seja tomada artisticamente, exceto a cegueira do utilitarismo. Que esta obra seja um patíbulo, ou um simulacro deste, só faz pensar nos mecanismos de morte e vida que animam a produção em série e em larga escala do universo capitalista, avesso ao caráter artesanal e genuinamente coletivo de qualquer coisa, a não ser que essa coisa possa ser institucionalmente chamada de “arte”, e seja colocada num lugar socialmente previsto para alojá-la, a que as pessoas se dirijam para encontrar e apreciar o que chamam de arte, porque assim se convencionou fazê-lo.

domingo, 5 de maio de 2013

farmácia e arte

Um programa casual assistido no canal 113 falava da arte moderna na Galeria Tate. Uma das instalações, Pharmacy, aparentemente sem muito sentido ou graça, teve sua proposta sumariada por seu criador, cuja fala lançou um interessante paralelo: as pessoas acreditam nos remédios vendidos em frascos na farmácia, mas tendem a não acreditar na arte. Seria interessante inverter essa relação — propôs ele: acreditar mais na arte e menos nos remédios.

sábado, 30 de março de 2013

onde está a obra?

Em visita recente a um museu de arte contemporânea, feita um pouco sem itinerário, logo a primeira obra me causou uma sensação singular de susto e medo (sobre a obra há um comentário interessante aqui), e tudo o mais que tentei ver ficou impactado por essa experiência inicial, mesmo os trabalhos antológicos de Cildo Meireles, que revisitava, ou talvez porque os revisitasse. Porque, ao me encontrar sozinha na instalação ― o casal de amigos encontrava-se em outra ― eu de repente me assustei com os sons e ruídos daquele espaço constituído de barreiras físicas, que transmitiam, pelo menos a mim, uma sensação de clausura e desconhecimento. Eu não consegui perceber a obra, ou por não conseguir apreendê-la, ou por estar demais dentro dela. Então, ao juntar elementos soltos da sinopse lida rapidamente à entrada, pareceu-me, por não ter percebido a obra, que alguma coisa estranha e misteriosa ia acontecer, já que durante o curto intervalo de tempo em que me encontrei lá nada (ou quase nada) eu percebia como acontecendo, por exemplo alguém saltar do palco coberto para o espaço em que me encontrava. Só ruídos e sons num espaço pouco iluminado separado do exterior por sucessivas barreiras. Saí de lá o mais depressa que pude, assustada e ao mesmo tempo constrangida pelo sentimento de medo. Dentro da obra, eu não a vi, e me assustei com o descompasso entre o que prometia a sinopse e o que não consegui entrever ou perceber. Mesmo acompanhada, não quis voltar. 

domingo, 29 de julho de 2012

ATIRE SE PUDER - NELSON LEIRNER

A  coleção de Gilberto Chateubriand exposta no MAM-Rio é bastante diversificada, indo de nomes representativos do  modernismo ao contemporâneo. Neste último, uma instalação, situada num local de passagem, obriga parada: “Atire se Puder”, de Nelson Leirner (2001). A disposição dos revólveres lembra, estranhamente,  as prateleiras de um supermercado, com os produtos apontados ameaçando o consumidor (dentro de um supermercado, todo mundo torna-se um pode ser um dos recados). Mas a agressividade da instalação ultrapassa a metáfora, qualquer que seja ela, pois as armas (de plástico) estão apontadas para quem vê a instalação de frente (a não ser que se evite fazê-lo, o que, pela própria agressividade de tudo, é mais do que desejável). Ao perceber, lateralmente,  do que se trata, ou seja, ao perceber as armas apontadas, há um movimento irrefletido de recuo, de tentar passar sem se sentir mirado por aquilo, pelas armas (apontadas). O verbo no imperativo (“atire”)  vem seguido de dois termos semanticamente dubitativos: a conjunção “se” e o verbo “poder” conjugado no modo da possibilidade, o subjuntivo (“puder”). Não é “atire se quiser”, o que daria a sensação de poder: é “atire se puder”, ou seja, se conseguir, se alcançar fazê-lo, se estiver ao (seu) alcance... colocando, desse modo, o espectador na posição de mirado, de alvo, já que o enunciado-título lança o desafio de ter cacife para a concretização do dito, da transformação da potência em ato ― mas quem quer fazê-lo? Atirar em quem? Por quê? Qual seria o alvo daquelas armas, assaz bélicas, já que se pressupõe o rechaço da violência em qualquer tentativa mínima de humanização? Violência que insiste em se presentificar, em incomodar, em voltar sempre, em deixar sua marca indelével nas vítimas, nas suas mais diferentes formas e manifestações. É como se a instalação pudesse dizer: não se pode evitar a violência, resta saber de qual lado se consegue estar, o que certamente traz o incômodo de perceber a onipresença de alguma forma de poder em qualquer lugar discursivo e social que  se ocupe. A arte, então, surge como uma suspensão desses lugares-discursos, porque nela pode-se encontrar alguma remissão, uma tentativa de saída, de esvaziar a belicosidade do poder. A potência (de que tipo, aliás?) ― “ATIRE” ― apresenta-se circunscrita ao campo do poder, um poder agressivo, armado, letal. Então as coisas podem, também, voltar para a prateleira do supermercado e ganhar o desconforto de uma metáfora: o capitalismo. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

resposta sofisticada

"É apenas meu cérebro tentando me salvar de um tigre." 
Scientific American Brasil, n.120, p.51.

sábado, 17 de dezembro de 2011

brisa

Depois de um dia de calor intenso e abafado, a madrugada permite o frescor de uma leve brisa. Não há mais qualquer dúvida de que é verão no Rio de Janeiro ― sei que é verão quando começo a sentir saudade das estações mais amenas. A culpa é toda de Hades, que raptou Perséfone. 

autumn breeze por Renae Schoeffel

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

broken mirror

"breaking mirrors with a kitchen knife, 
a rock you found in your backyard, 
and your philosophy book will give 
you lasting scars. just so you know." 

domingo, 11 de setembro de 2011

John Singer Sargent, Seascape, 1875

imagem obtida aqui

De uma passagem de Nexus, Henry Miller: "Só existe um Sargent, assim como só existe um Beethoven, um Mozart, um da Vinci..." 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Alejandra Pizarnik



ANTES

bosque musical

los pájaros dibujaban en mis ojos
pequeñas jaulas

Alejandra Pizarnik. Poesía completa. Barcelona: Lumen, 2000, p.177.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

nervuras

Há nas folhas secas um farfalhar de vida: suas nervuras são tênues lembranças do vínculo à árvore. As ruas de uma cidade são nervuras vivas, não importa o quanto se teime em fazê-la folha seca. Há cegueira de sobra para mascarar a vida que se move sob andrajos, à mercê da seiva que escorre além das veias. Ainda não empalideci totalmente: consigo olhar a vida que não me faz inocente, e considero, ainda que por um breve momento, um equívoco estar às voltas com os ditos "meus" problemas. 

Jackson Pollock, Number 1, 1950 (AQUI)