Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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domingo, 8 de março de 2015
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
a obra de arte no corredor
Minha resistência a exposições, em especial as de
grande apelo, como esta, é que elas são tratadas como arte, causam filas e frisson, mas na verdade funcionam como
cultura. O que há contra a cultura? Nada — desde que não assuma o disfarce de
arte.
domingo, 9 de junho de 2013
a arte num conto de Cortázar
“Simulacros”, conto de Histórias
de cronópios e de famas (Julio
Cortázar. Trad. Gloria Rodríguez. 12.ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2009, p.21-24), coloca para o leitor o
desafio de pensar o papel e o lugar da obra de arte. A estranha família
dedica-se a construir um patíbulo no jardim de sua casa, sem precisar o fim ou
as motivações de fazê-lo:
“Somos uma família estranha. Neste país onde as coisas se fazem
por obrigação ou fanfarronada, gostamos de ocupações livres, das tarefas sem
importância, dos simulacros que de nada adiantam. Temos um defeito: a falta de
originalidade. Quase tudo o que resolvemos fazer foi inspirado — digamos
francamente, copiado — de modelos célebres. Se contribuímos com alguma novidade
é sempre inevitável: os anacronismos ou as surpresas, os escândalos. Meu tio
mais velho diz que nós somos como as cópias de papel carbono, idênticas ao
original, a não ser que de outra cor, outro papel, outra finalidade. [...] Fazemos
coisas, mas contar é difícil porque falta o mais importante, a ansiedade e a
expectativa de estar fazendo coisas, as surpresas tão mais importantes que os
resultados, os fracassos em que toda família cai no chão feito um castelo de
cartas e durante dias e dias não se escuta mais do que lamentações e
gargalhadas. Contar o que fazemos é apenas uma forma de preencher os vazios
inevitáveis, porque às vezes estamos pobres ou presos ou doentes, às vezes
morre alguém ou (custa dizê-lo) alguém trai, renuncia, ou entra para a
Direção do Imposto de Renda. Mas disto não se deve deduzir que vamos mal ou que
somos melancólicos. Moramos no bairro de Pacífico e fazemos as coisas toda vez
que podemos. Somos muitos a ter ideias e vontade de levá-las à prática. Por
exemplo o patíbulo, até hoje ninguém chegou a acordo sobre a origem da ideia
[...].” (p.21)
O estranho patíbulo vai se fazendo, erguendo, ganhando forma,
assim como ganha forma e proporção o escândalo ao redor dele, da família que o
constrói, do jardim onde está sendo construído: “A essa altura dos
acontecimentos as pessoas da rua não podiam deixar de perceber o que estávamos
fazendo, e um coro de protestos e ameaças nos estimulou agradavelmente a
encerrar a jornada com a montagem da roda. [...] A polícia chegou no momento em
que a família, reunida na plataforma, comentava favoravelmente o bom aspecto do
patíbulo.”
A terceira irmã — a mesma que se comparava ao rouxinol mecânico
de Andersen e cujo romantismo dava náuseas no narrador — era a única afastada
do grupo no momento da chegada da polícia, e a ela “coube dialogar pessoalmente
com o subcomissário; não foi difícil convencê-lo — prossegue o narrador — de
que estávamos trabalhando dentro de nossa propriedade, numa obra a que só o uso poderia
conferir um caráter inconstitucional, e que os comentários da vizinhança
eram produto do ódio e fruto da inveja.” (p.24) Deslocado de seu uso e contexto
habitual, nada impede que uma obra seja tomada artisticamente, exceto a
cegueira do utilitarismo. Que esta obra seja um patíbulo, ou um simulacro deste,
só faz pensar nos mecanismos de morte e vida que animam a produção em série e
em larga escala do universo capitalista, avesso ao caráter artesanal e
genuinamente coletivo de qualquer coisa, a não ser que essa coisa possa ser
institucionalmente chamada de “arte”, e seja colocada num lugar socialmente
previsto para alojá-la, a que as pessoas se dirijam para encontrar e apreciar o
que chamam de arte, porque assim se convencionou fazê-lo.
domingo, 5 de maio de 2013
farmácia e arte
Um programa casual assistido no canal 113 falava da
arte moderna na Galeria Tate. Uma das instalações, Pharmacy, aparentemente sem
muito sentido ou graça, teve sua proposta sumariada por seu criador, cuja fala lançou
um interessante paralelo: as pessoas acreditam nos remédios vendidos em frascos
na farmácia, mas tendem a não acreditar na arte. Seria interessante inverter
essa relação — propôs ele: acreditar mais na arte e menos nos remédios.
sábado, 30 de março de 2013
onde está a obra?
Em visita recente a um museu de arte contemporânea,
feita um pouco sem itinerário, logo a primeira obra me causou uma sensação
singular de susto e medo (sobre a obra há um comentário interessante aqui), e tudo o mais que tentei ver ficou impactado por essa experiência inicial, mesmo os
trabalhos antológicos de Cildo Meireles, que revisitava, ou talvez porque os revisitasse. Porque, ao me
encontrar sozinha na instalação ― o casal de amigos encontrava-se em outra ― eu
de repente me assustei com os sons e ruídos daquele espaço constituído de
barreiras físicas, que transmitiam, pelo menos a mim, uma sensação de clausura
e desconhecimento. Eu não consegui perceber a obra, ou por não conseguir apreendê-la, ou por estar demais dentro dela. Então, ao juntar elementos soltos
da sinopse lida rapidamente à entrada, pareceu-me, por não ter percebido a
obra, que alguma coisa estranha e misteriosa ia acontecer, já que durante o curto intervalo de tempo em que me encontrei lá nada (ou quase nada) eu percebia como acontecendo, por exemplo alguém
saltar do palco coberto para o espaço em que me encontrava. Só ruídos e sons num espaço pouco iluminado separado do exterior por sucessivas barreiras. Saí de lá o mais
depressa que pude, assustada e ao mesmo tempo constrangida pelo sentimento de medo. Dentro da obra, eu não a vi, e me assustei com o descompasso entre o que
prometia a sinopse e o que não consegui entrever ou perceber. Mesmo
acompanhada, não quis voltar.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
domingo, 29 de julho de 2012
ATIRE SE PUDER - NELSON LEIRNER
A coleção
de Gilberto Chateubriand exposta no MAM-Rio é bastante diversificada, indo de
nomes representativos do modernismo ao
contemporâneo. Neste último, uma instalação, situada num local de passagem,
obriga parada: “Atire se Puder”, de Nelson Leirner (2001). A disposição dos
revólveres lembra, estranhamente, as prateleiras
de um supermercado, com os produtos apontados ameaçando o consumidor (dentro de um supermercado, todo mundo
torna-se um ―
pode ser um dos recados). Mas a agressividade da instalação ultrapassa a
metáfora, qualquer que seja ela, pois as armas (de plástico) estão apontadas
para quem vê a instalação de frente (a não ser que se evite fazê-lo, o que,
pela própria agressividade de tudo, é mais do que desejável). Ao perceber,
lateralmente, do que se trata, ou seja,
ao perceber as armas apontadas, há um movimento irrefletido de recuo, de tentar
passar sem se sentir mirado por aquilo, pelas armas (apontadas). O verbo no
imperativo (“atire”) vem seguido de dois
termos semanticamente dubitativos: a conjunção “se” e o verbo “poder” conjugado
no modo da possibilidade, o subjuntivo (“puder”). Não é “atire se quiser”, o
que daria a sensação de poder: é “atire se puder”, ou seja, se conseguir, se
alcançar fazê-lo, se estiver ao (seu) alcance... colocando, desse modo, o
espectador na posição de mirado, de alvo, já que o enunciado-título lança o
desafio de ter cacife para a concretização do dito, da transformação da potência
em ato ― mas quem quer fazê-lo? Atirar em quem? Por quê? Qual seria o alvo
daquelas armas, assaz bélicas, já que se pressupõe o rechaço da violência em
qualquer tentativa mínima de humanização? Violência que insiste em se
presentificar, em incomodar, em voltar sempre, em deixar sua marca indelével nas
vítimas, nas suas mais diferentes formas e manifestações. É como se a
instalação pudesse dizer: não se pode evitar a violência, resta saber de qual
lado se consegue estar, o que certamente traz o incômodo de perceber a
onipresença de alguma forma de poder em qualquer lugar discursivo e social que se ocupe. A arte, então, surge como uma suspensão
desses lugares-discursos, porque nela pode-se encontrar alguma remissão, uma
tentativa de saída, de esvaziar a belicosidade do poder. A potência (de que
tipo, aliás?) ― “ATIRE” ― apresenta-se circunscrita ao campo do poder, um poder
agressivo, armado, letal. Então as coisas podem, também, voltar para a
prateleira do supermercado e ganhar o desconforto de uma metáfora: o
capitalismo.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
resposta sofisticada
"É apenas meu cérebro tentando me salvar de um tigre."
Scientific American Brasil, n.120, p.51.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
mestres da desordem: não seria má ideia um deles no rio de janeiro
exposição les maîtres du désordre (aqui)
domingo, 25 de março de 2012
sábado, 17 de dezembro de 2011
brisa
Depois de um dia de calor intenso e abafado, a madrugada permite o frescor de uma leve brisa. Não há mais qualquer dúvida de que é verão no Rio de Janeiro ― sei que é verão quando começo a sentir saudade das estações mais amenas. A culpa é toda de Hades, que raptou Perséfone.
autumn breeze por Renae Schoeffel
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
broken mirror
"breaking mirrors with a kitchen knife,
a rock you found in your backyard,
and your philosophy book will give
you lasting scars. just so you know."
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
John Singer Sargent, Seascape, 1875
imagem obtida aqui
De uma passagem de Nexus, Henry Miller: "Só existe um Sargent, assim como só existe um Beethoven, um Mozart, um da Vinci..."
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Alejandra Pizarnik
ANTES
bosque musical
los pájaros dibujaban en mis ojos
pequeñas jaulas
Alejandra Pizarnik. Poesía completa. Barcelona: Lumen, 2000, p.177.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
nervuras
Há nas folhas secas um farfalhar de vida: suas nervuras são tênues lembranças do vínculo à árvore. As ruas de uma cidade são nervuras vivas, não importa o quanto se teime em fazê-la folha seca. Há cegueira de sobra para mascarar a vida que se move sob andrajos, à mercê da seiva que escorre além das veias. Ainda não empalideci totalmente: consigo olhar a vida que não me faz inocente, e considero, ainda que por um breve momento, um equívoco estar às voltas com os ditos "meus" problemas.
Jackson Pollock, Number 1, 1950 (AQUI)
sábado, 23 de julho de 2011
quinta-feira, 21 de julho de 2011
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