Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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domingo, 25 de agosto de 2013
de um poema em prosa de Georg Trakl:
"São estranhos os atalhos noturnos do Homem." (Trad. Claudia Cavalcanti)
sábado, 10 de agosto de 2013
Georg Trakl
CALMA E SILÊNCIO
Pastores enterraram o sol na floresta
nua.
Um pescador puxou
Um pescador puxou
a lua do lago gelado em áspera
rede.
No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.
Mas sempre comove o voo negro dos
pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.
De novo a fronte anoitece em pedra
lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.
George Trakl. De profundis e outros poemas. Trad.
Claudia Cavalcanti. São Paulo: Iluminuras, 2010, p.53.
sábado, 30 de julho de 2011
Georg Trakl
Ocaso
Por sobre o lago branco
Partiram os pássaros selvagens.
No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado.
Por sobre os nossos túmulos
Inclina-se a fronte despedaçada das trevas
Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada.
Sempre ressoam os muros brancos da cidade.
Sob arcos de espinhos
Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos rumo à meia-noite.
Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.204-205. Edição bilingue ilustrada.
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