A
obra de Raduan Nassar é distinguida com o prêmio Camões 2016 (um conto dele aqui).
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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segunda-feira, 30 de maio de 2016
sábado, 23 de abril de 2011
o silêncio das palavras
Um narrador desbragado e típico de Raduan Nassar afirma esta preciosidade: "já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio." As palavras pairam diante de minha inquieta atenção, um desejo pelas palavras como se nelas estivesse a chave. Não está, porque não há nenhuma chave. Quase toco as palavras, e é um mundo de silêncio e vozes e ecos que repercutem naquilo que vai se escrevendo por força de desejá-las. Não posso dar-me o luxo de fazer acordos perfeitos com o mundo: ele me exige, exige minha performance pela linguagem no exercício da profissão, o que resvala para o barulho. Mas estou tateando acordos comigo mesma: sempre que posso, dou-me o prazer do silêncio. Que pode ser entendido também como prazer da escrita. A escrita que se constrói como um amor inútil, amor pelo amor, porque já não se consegue viver sem ela:
SOBRE ESCREVER
Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.254.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
sic!
De uma entrevista do escritor Raduan Nassar, lida faz bastante tempo, recordo-me uma posição corajosa. Ele, ao questionar a autoridade de certos próceres do modernismo brasileiro, referindo-se à academia como o "clero literário", falava algo mais ou menos assim: que os professores, em vez de ficarem impingindo carradas de teoria aos alunos, deveriam ensinar-lhes a pensar com a própria cabeça, supondo que estes mesmos professores fossem capazes de fazê-lo... O que pode ser, hoje, ainda conseguir pensar com a própria cabeça?
domingo, 21 de fevereiro de 2010
"Aí pelas três da tarde" - Raduan Nassar
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.
Moriconi, Ítalo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p.310-311.
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