Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


Mostrando postagens com marcador Sebastião Uchoa Leite. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sebastião Uchoa Leite. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sebastião Uchoa Leite

INSÔNIA RESPIRATÓRIA

Antes nunca
Ouvira o invisível poema
Do respirar: não
Ouvia nada
Só o silêncio dos órgãos
Mas o segredo da vida
Era isso
Quando ninguém
Se lembra do corpo
Que de fato
É feito da mesma matéria
Do sono

LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.38.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sebastião Uchoa Leite

DUAS OU TRÊS COISAS

É ríspida
Respira o ar amargo
Arisca
Secreta
Nada fala
Xiita do oculto
Tal Emily Dickinson
Dura e pura
Ou insônia crítica
Da língua irônica

LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.52.

Sebastião Uchoa Leite

FOCOS

Poesia é a sombra
Em guarda atrás de alguém
Ou na frente
Abrindo o caminho
Diminui ou alonga o vulto
Conforme o foco solar
Abre-se ou estreita-se
No jogo hiperrealista
Entre o eu e a margem

LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.22.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sebastião Uchoa Leite

INSÔNIA RESPIRATÓRIA

Antes nunca
Ouvira o invisível poema
Do respirar: não
Ouvia nada
Só o silêncio dos órgãos
Mas o segredo da vida
Era isso
Quando ninguém
Se lembra do corpo
Que de fato
É feito da mesma matéria
Do sono

LEITE, Sebastião Uchoa. Ciranda de poesia. Org. Franklin Alves Dassie. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010, p.63.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sebastião Uchoa Leite

PEQUENAS IDEIAS FIXAS

coisas limpas
de ar-condicionado sem pesadelos
escritos rasos
le mot juste
objetos diretos colocados
precisões
do ostinato rigore
lancetas bisturis agulhas
conceitos vermes
"la consciencia me sirve de gusano"
grafitti críticos
"somos o carnaval das multinacionais"
observações ao acaso
"um leão
é feito de carneiros devorados"
do poeta da ideia fixa
coisas secas
escritos de gravetos
greves
inscrições de w.c.
"uma coisa é certa
poeta de privada
vive inspirado na merda"


LEITE, Sebastião Uchoa. Ciranda de poesia. Org. Franklin Alves Dassie. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010, p.66.